Carta do escritor Samuel Medeiros

O escritor Samuel Medeiros escreveu uma carta-resenha a respeito do livro “A inevitável fraqueza da carne”, romance de estreia do editor e escritor Wilson Gorj. Confiram abaixo.

Caro Wilson:
[…]
Achei a trama bem bolada, como uma novela em que o personagem trafega entre encontros e desencontros, os dramas familiares comuns aos mortais. Quantos deles existem por aí, não?
A sexualidade é um ponto alto nos romances, e você soube captá-la nos momentos exatos da construção do texto. A atração por Maya tem este apelo forte da atração que ocupava o tempo e a libido do personagem.
A narrativa foi conduzida até o ponto em que você desmorona a velha frase bíblica de que “a carne é fraca”. Isso mesmo, nós é que somos responsáveis se sucumbirmos ou não. Uma questão de escolha. E como você disse, quem demonstra fraqueza não é ela, mas sim nossa determinação.
Pois bem. Lidando com esse aspecto, me aparece logo no início a jaguatirica, um animal que não é onça nem gato, fica no meio entre a ferocidade e a mansidão; ela talvez seja a metáfora que você fez da mulher que excitava Carlos, talvez inocentemente. O fato de haver interferência (de Marta), salva-o da tragédia, mas o romance não acaba aí. A jaguatirica é a representação da esperteza: só ataca de noite, em silêncio, surpreendendo as presas. Assim, a sexualidade é dotada desta astúcia e aparece nos momentos inesperados.
[…]
No início temos uma mulher louca para engravidar, que parecia a mais pura em seu casamento; ela frustra toda a esperança de vermos coerência no ser humano.
A chácara é outro elemento impactante no livro, pois ela isola Carlos do mundo agitado e do maçante escritório de contabilidade – é um oásis enfim mal aproveitado, pois vendido por força de novas circunstâncias […]
Assim vejo no romance esta busca do ser humano por firmar sua identidade no mundo. Os planos se esboroam quando se descobre realmente quem é o outro. O parceiro, por mais que se sonhe idilicamente com o amor, acaba decepcionando. É claro que isso não é regra, mas reforça a dose de gravidade num romance.
[…]
Por último, envio-lhe a foto de minha antiga jaguatirica, do tempo em que a achamos na fazenda, uma cria praticamente recém-nascida, talvez tenham matado a mãe, ou esta lhe abandonou. […] Ela estava crescendo e dócil, até que foi atacada por um cachorro tipo o “Preto” do seu romance. Não tivemos como salvá-la. Ficou a foto na minha sala. […]
Um abraço do
Samuel.


[📸: Acervo pessoal do autor do texto]

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