Fernando Andrade: A precisão de sua escrita para sondar temas como solidão, morte, perdas, aproxima o leitor de uma imersão completa dos temas. Como desenvolver estas possibilidades ficcionais?
M. B.: Acredito que esses temas são universais e estão, de uma forma ou de outra, presentes na literatura de todo escritor ou escritora. São temas inerentes à vida humana. Qualquer ser vivente pensa na morte, que é a única certeza que ele tem. A literatura, seja na prosa ou na poesia, é a arte de contar histórias sobre pessoas e as relações com seus semelhantes e com as coisas do mundo. É quase automático, quando se fala de pessoas, mencionar solidão, abandono, perdas, laços afetivos que se fazem ou se desfazem, enfim, falar de relações. Porque as pessoas se fazem por meio de suas relações. “A vida é uma palavra muito curta”, assim como meus outros livros de contos, surgiu com esse tipo de visão de mundo.

Depurar a ação dramática seria um expediente oportuno para evitar certo desperdício, ainda mais num gênero tão conciso como o conto. Explane seu método de trabalho.
Para produzir um livro de contos, eu parto de um tema geral. Um tema-máster, que dará o norte das narrativas que farão parte do volume. A partir da definição desse tema-máster, eu começo a escrever as histórias, que podem se relacionar diretamente com ele ou apenas tangenciá-lo. De alguma forma, o tema escolhido estará presente em todas as narrativas. Isso contribui para dar certa unidade ao livro. Procuro utilizar o formato livre de escrita, isto é, no mesmo volume o leitor pode encontrar um texto experimental, um de formato mais realista, uma narrativa mais longa, outra mais curta, uma com toques de realismo mágico, outra mergulhada no nonsense etc. Gosto dessa variedade, penso que isso traz riqueza à coletânea. Eu persigo a concisão, a síntese. Acredito no “usar menos palavras pra dizer mais”. E às vezes até nem dizer, mas apenas sugerir. Gosto também dos finais abertos, deixando que o leitor conclua a história da forma que ele preferir. “A vida é uma palavra muito curta” é um livro cheio de histórias assim.
Os personagens logo entram dentro de certa confusão ontológica do ser, do estar. Não estão paralisados por fobias ficcionais. Nos fale desses personagens.
Gosto de pensar que abordo meus personagens num momento crítico de sua existência. Meus contos não apresentam descrições detalhadas da vida pregressa dos personagens, porque isso não interessa ao desenvolvimento da história. Quero flagrá-los num instante de fragilidade e observar suas reações. “Um elo a mais” e “João Cirilo analisa as probabilidades”, contos presentes em “A vida é uma palavra muito curta”, são exemplos típicos desses instantes de fragilidade.
Queria que você falasse um pouco do título que foi extremamente feliz em criar nuances de significados para seu livro. Fale desta opção.
“A vida é uma palavra muito curta” é uma coletânea de contos sobre o tempo. Não o tempo do relógio, aquele que nos obriga a correr para cumprir compromissos, mas também sobre ele, em certa medida. O foco principal, no entanto, é sobre os momentos em que tomamos rapidamente uma decisão, sem intuir, de imediato, que consequências iremos sofrer lá na frente. Ou, por outro lado, os momentos em que nada fazemos, por medo ou omissão, sofrendo, da mesma forma, as consequências dessa inércia. O conjunto de contos é dividido em 3 partes: “A eternidade do instante” (quando a vida nos presenteia – ou nos amaldiçoa – com aqueles segundos que passam como as faíscas de um palito de fósforo ou, ao contrário, com aqueles instantes que parecem eternos; nos dois modos, somos instados a tomar decisões e sofrer as consequências que, sempre, são inevitáveis), “O tempo em tempo de estio” (quando o tempo parece parar e nos proporcionar instantes de contemplação e reflexão; aqui, os textos ganham uma vestimenta de prosa poética) e “O futuro foi muito pior” (aqui estão elas, as consequências do que foi feito lá atrás).
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Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP. Tem 5 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020) e “Antes de cair o pano” (2022). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Crônicas Cariocas, entre outras). Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021) e Antologia de Contos da União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).
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