Breve entrevista com o poeta Giovani Miguez – por Fernando Andrade

Fernando Andrade: A sonoridade e os signos decifráveis do poema. Comente a respeito.

G. M.: A minha poética funde sonoridade e significado, criando uma experiência estética que vai além da abstração. A musicalidade dos versos, com suas rimas e ritmos, quando existente, ecoa a melodia do cotidiano, aproximando a poesia da vida real. Mas esta sonoridade não é minha prioridade.  Talvez como Nicanor Parra, o que faço seja uma antipoesia, um antilirismo. Vez ou outra o lirismo me pega, mas não é meu ethos natural.  Essa fusão entre som e sentido, entre o canto e a linguagem, penso, permite ao poeta expressar a beleza e a complexidade da experiência humana de forma acessível e tocante. A sonoridade reforça o significado das palavras, criando uma experiência sensorial completa para o leitor. Qualquer poeta veste-se da palavra e da eufonia nela contida, mas só os grandes poetas – e creio deva ser essa a meta – fundem-se com a poesia que os atravessa.

Livro de poesia do autor Giovani Miguez (Penalux, 2024)

Como se dá a relação entre forma e conteúdo em sua poesia?

A minha poesia reflete a criação através do prosaico e do cotidiano. A forma dos poemas, muitas vezes concisa e direta, espelha a simplicidade da vida diária. O conteúdo, por sua vez, extrai beleza e significado dos momentos comuns,buscando  transformar o ordinário em extraordinário. Essa relação entre forma e conteúdo cria uma poesia, penso, autêntica e acessível que expressa minha voz e que ressoa como eu vejo a experiência humana.

O que mais os leitores encontram em seus poemas?

Busco explorar a tensão entre espaço e liberdade. O espaço físico, muitas vezes limitado e fechado, contrasta com a liberdade do voo e do canto, que necessitam de espaço aberto para se manifestarem. O som, como um elemento que se propaga no espaço, transcende as barreiras físicas e se torna um símbolo de liberdade e expressão. A minha poesia utiliza o som e a imagem desse voo para evocar a liberdade e a transcendência da experiência humana. Na minha poética, apesar das limitações impostas pela antipoesia que me habita, busco sempre verter a permanente sangria que me limita para expressar um eu lírico incapaz de abraçar toda a poesia do mundo. A poesia é esse algo inefável, incontível e inalcançável que o poeta só é capaz de tocar de forma imperfeita e sempre muito limitada.

A solidão é uma excelente fonte de inspiração para o poeta. Superado esse momento criativo e solitário, vem a necessidade de comunicação?

Na minha poesia, manifesto a solidão do poeta como um estado necessário para a criação, mas reconheço e não descarto a importância da comunicação e da conexão com o leitor. A palavra, como forma de comunicação, me permite, enquanto poeta, compartilhar experiências e emoções, criando um espaço de encontro e identificação com o leitor. O ato poético, portanto, não é apenas um ato de expressão individual, mas também um ato de comunicação e conexão humana. Não obstante, o poeta não deve ter como missão a comunicação, mas a pura expressão de seu eu lírico; pois, desde as minhas primeiras investidas na escrita poética tenho consciência de que, como poeta, escrevo apenas poemas; a poesia escreve a si mesma.

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Giovani Miguez é escritor, poeta, filosofante e caminhante. De Volta Redonda, RJ,  atualmente vive na capital fluminense. Autor de dez livros, entre eles: Na escuridão da travessia, poesia – 2 vols. (Selin Trovoar, 2022),  Poesofias, entalhos e alguns retalhos (Opera Editorial, 2023) e Garrafas ao mar (Editora Minimalismos, 2023). Eufonia, euforias e agonias é seu 11º livro; o primeiro pela Penalux.

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