Por Krishnamurti Góes dos Anjos (*)
Em “A inevitável fraqueza da carne”, primeiro romance publicado pelo escritor e editor Wilson Gorj, encontramos a história da vida de Carlos, um contador que recebe uma insuspeitada herança deixada por seu pai. Uma chácara em uma pequena cidade interiorana. Pesa sobre a memória do falecido a mágoa de ter largado esposa e o filho único como resultado de uma aventura amorosa com outra mulher. Exatamente neste ponto dá-se o início da narrativa que apresenta uma série de experiências que vão culminar em mudanças radicais na vida do protagonista.

O homem é um pacato contador que mantem um escritório de contabilidade com um sócio. Casado há quatro anos com Luísa que deseja engravidar e almeja ainda fazer viagens mundo afora com o resultado da venda da tal chácara. Para tanto devem se inteirar da propriedade e entre idas e vindas ao imóvel, ele acaba descobrindo retalhos da vida do pai, ao tempo em que recompõe o drama vivido por ele e a mãe ante a ausência causada pela separação. Ao lado do terreno da chácara mora uma modesta família composta pelo caseiro que servia ao pai de Carlos, sua enigmática esposa e… Maya, a jovem e bela filha desse casal.
As primeiras viagens ao lugarejo se dão com o propósito de conseguir comprador para o imóvel. As seguintes, vão aos poucos sendo arquitetadas por Carlos que desde que conheceu a garota, já não visava só esse objetivo. Maya passa a ser objeto de desejo, e pior, ela parece em certa medida corresponder. Está armado um dos laços para a fraqueza da carne que ele tanto condenava no pai. Como pode? Um homem casado se interessar por uma mulher, bonita, e jovem, e inteligente e ainda por cima estudante de Letras? Reforça tal circunstância a figura emblemática de uma jaguatirica que começa a rondar a chácara com objetivos de sanar a fraqueza do estomago com as galinhas criadas ali. Uma alegoria a situação. A jaguatirica, o desejo sexual, a fome e Maya.
A obra é, todavia, muito contida. Um narrador onisciente e neutro apresenta-nos a história em sua sequência linear. Nos deparamos com capítulos curtos de pequenas revelações graduais numa prosa leve que prende a atenção do leitor. Se tal recurso possui o condão de situar o leitor para o drama que pulsa e subjaz (a formação e proceder do protagonista ante as tentações e reveses da vida), deixa pouco espaço para estudos de personalidade dos personagens o que traria sem dúvida maior fôlego à narrativa. Sim. A segunda parte da obra nos parece uma tentativa nesse sentido tendo em vista que vem em primeira pessoa na voz do próprio Carlos.
Seja como for, o autor ao selecionar a porção de realidade que pretendia analisar, procedeu com base em um entrelaçamento dramático: reduziu o campo de observação para melhor compreender, e o fez estribado justamente na afinidade de conflitos. A partir de uma “fraqueza da carne” perpetrada pelo advogado Pedro Hamilton Franzzini, pai de Carlos, que resultou em separação da família, temos outros polos de “fraqueza”, como é Luísa a esposa do protagonista, uma mulher fútil, com desejos de cunho hedonista a pensar em viagens memoráveis pela Europa e a decorar quartinho de bebê. Dona Marta a esposa do caseiro, e mãe de Maya, mulher desconfiada, misteriosa e de poucas palavras, a fatídica e enigmática doutora Miriam, que conviveu com o pai de Carlos durante mais de vinte anos, e andou fazendo na juventude ensaios para a revista playboy. O comportamento verdadeiramente egoísta de dona Carmen a mãe do protagonista que – rezou a lenda no final – o criou como se fosse um boneco de estimação e não um ser humano, e afinal é acometida de um transtorno neurodegenerativo progressivo e fatal que se manifesta pela deterioração cognitiva e da memória. O mal de Alzheimer.
Tudo acaba por se aglutinar, numa interdependência simbólica que se interliga à proeminência essencial do drama de origem. A traição do Pai de Carlos, a separação e a nenhuma convivência familiar. Esse drama central ilumina o entendimento dos secundários e estes por sua vez ajudam a entender o outro no sentido de ampliar as inúmeras nuances do que entendemos por egocentrismo. Ou por outra, as nossas (in)evitáveis fraquezas da carne. E do espírito também.
O autor provoca a libido do leitor. Arma uma cena que atiça nossa imaginação… O tal de Carlos vai a certa altura lá em um riacho com o caseiro Romildo e sua filha Maya, passam a tarde tomando banho no tal riacho, muita conversa, olhares, sorrisos, toques e etc. e depois, já de volta ela aparece no sítio dele a propósito de devolver um óculos escuro. Os dois se veem depois umas duas cervejas geladas na cabeça, sentados numa mesma rede. Estão sozinhos na casa. Corpos colados na rede, ele um homem de trinta e poucos anos, ela com vinte e três, morena, linda, suave, dócil e: “Os dois estavam muito próximos. Ficaram se olhando, sorrindo. O sorriso, no entanto, foi se desfazendo e dando lugar a uma expressão mais séria, compenetrada. Os lábios de Maya entreabriram-se um pouco. Mantinham-se os olhos fixos. Os rostos se aproximavam lentamente…” mas afinal o que havia entre os dois de fato? Puro desejo? atração física? Ternura? Um amor nascente? O narrador não diz. Ao leitor as conjecturas que eu não estou aqui para dar spoiler do que ocorreu a seguir, claro.
Entretanto não posso me furtar a dar um spoiler, e que me perdoem o autor, o editor, os leitores, os ortodoxos em matéria de resenha e etc., me perdoem todos. Sabem o que aconteceu com a jaguatirica? Aquele bicho que andava assombrando as galinhas do sítio e etc. e tal? Foi morta a bala pelo novo proprietário, um militar reformado. Teve seu couro pregado em um muro como um troféu. Misericórdia! Essa metáfora tem o peso de uma machadada certeira! Pronto, falei.
O livro nos brinda ainda com uma dose extra e divertida de inventiva. Há um prólogo de apenas 3 páginas em que se narra a gênese (ficcionalizada claro) da obra. Dois amigos se encontram num bar e comentam sobre os originais que um deles está escrevendo. Isto sobre o olhar e escuta bisbilhoteira do garçom (ah são tantas as fraquezas da alma). E ao final surpreendentemente, lemos um “Posfácio com efeito de epílogo”, escrito pelo mesmo amigo lá do início, e que estabelece uma ficção paralela. Este amigo é quem explica os rumos que obra e autor tiveram. Positivamente inventivo.
O autor apostou na capacidade de a ficção desvendar sendas ocultas do real, assumindo uma postura crítica em relação ao poder mimético – em seu sentido de transformar e ampliar sentidos – da expressão “fraqueza da carne”. Com isso assume a subjetividade e mesmo a precariedade das perspectivas no enfoque do real. Talvez esta seja uma forma menos ilusória e, portanto, mais eficaz de conhecer. Há de se ter em vista nuances…
Vale referir finalmente que uma das epígrafes do livro, e que abre a segunda parte da obra de autoria do escritor tcheco Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser”, afirma: “Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem retificada em vidas posteriores.” Muito bem; na sequência da narrativa, quando se desenrola um atropelo de acontecimentos negativos que oprimem ainda mais o existir sofrido do protagonista Carlos, e que afinal fica sabendo que a fraqueza da carne – no sentido mais profundo do desejo sexual e da traição em mais alto grau – vieram de onde menos se esperava, ele pensa: “Deve haver algum deus cuja presença se manifeste de forma intermitente. Isso explicaria porque algumas vezes (na maioria dos casos, na verdade) as coisas parecem seguir um fluxo desordenado, ilógico, para não dizer ruim, e em outras (pouquíssimas vezes, acredito) tudo acontece como se por trás dos eventos houvesse a regência de uma inteligência atenta e benevolente”. Está plantada a nível de reflexão, a dúvida no espírito do leitor. Só teremos uma vida de fato? Estaremos fadados ao nada após a morte? Existirá um deus? Sim; e o tal do livre arbítrio humano, essa eterna questão: qual o limite – elástico (?) – do nosso livre arbítrio num tempo em que o homem vem se rebaixando ao nível da “fraqueza da carne” das feras selvagens e vive como se não houvesse mais nada, além do aqui e agora hedonista, incapaz que vem se tornando de sondar, imaginar sequer, algo além.
O romance convence e realiza-se como tal porque o autor soube em boa medida operar um consórcio harmonioso entre memória, observação e imaginação. Em pinceladas leves “A inevitável fraqueza da carne”, ventila e nos faz refletir também sobre temas vitais da condição humana como a consciência do amadurecimento, a morte, a solidão, a traição, o amor… Sim, é verdade, estamos diante de um primeiro e tímido passo de um autor que já publicou obras de microficção, minicontos e poesia minimalista. Aguardamos, portanto, e com vivo interesse, seus próximos passos na prosa de maior fôlego que é o romance, com os votos que a explore com maior amplitude, densamente, criando atmosferas ficcionais onde aflore a psique humana em suas profundidades. Já demonstrou que é capaz. Adiante pois.
(*) Krisnamurti Góes dos Anjos tem publicados os livros: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos, Doze Contos & meio Poema e À flor da pele – Contos. Participou de 30 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Há textos seus publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último romance publicado pela editora portuguesa Chiado – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional – Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea veiculadas em diversos jornais, revistas e sites literários.

Deixe um comentário