“Sobre a impermanência do sol” poetisa a dor da perda durante a Covid

Um breve dia, o poema perdia. O poema despediria e diria: este ano começa a pandemia. Sair na rua, o poema cantaria, só com máscara, por favor. O editor faz canções, o músico edita livros. E nesta toada ainda leio os vivos. Como agora nesta tarde de quinta, faço um sambinha com caixa de fósforo, prestando homenagem ao livro que leio: Sobre a impermanência do sol, de Markus Viny, publicado pela editora Litteralux.

Poemas podem ser círculos sonoros, petardos musicais, misturando o regional com a metrópole. O medo do contato; a palavra presa na garganta. Markus faz, do gesto poético, uma barreira antibomba, antitombo; do sertão, palavras, cantigas, versos, restingas, a morte caatinga. Secura, secura… Se cura dessa covid! Poemas fazem milagres: são milágrimas, para seu pai, sua mãe. Markus faz da palavra um rito de purificação. Sua linguagem alcança alturas líricas, físicas, onde o poema se deita embaixo do sol.

Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são fonemas.

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