Ao começar a ler uma crônica de André Cunha, é provável que o leitor se surpreenda com o ponto de partida. O texto tanto pode se apresentar na forma convencional, como uma conversa com o leitor ou um diálogo inspirado numa cena do cotidiano, quanto assumir um gênero improvável: peça jurídica, letra de música, trailer de cinema, anúncio de jornal, manual de instruções, biografia de perfil, decreto imperial, nota de coluna social e assim por diante. Cada crônica escolhe seu disfarce.
Se o ponto de partida é incerto, o desfecho é previsível nesse que é um gênero literário e jornalístico tão brasileiro: a observação mordaz, o comentário social irônico, a crítica precisa. Cunha trabalha com o repertório do noticiário, os clichês ideológicos, o jargão jurídico e o vocabulário das redes sociais, mas os reencena em chave deslocada, o suficiente para que o absurdo se torne visível, de forma a empurrar o leitor para fora da posição inicial, o levando a calibrar a máquina da realidade.
E tudo indica que tom opinativo tradicional já não basta quando a própria realidade soa como caricatura. É preciso então experimentar formas, tensionar registros, misturar alta retórica e fala coloquial, converter relatórios técnicos em peça cômica. Em bom português, esculhambar. Se a crônica brasileira sempre se inspirou no cotidiano, aqui ela se expande para absorver o ruído digital e o debate político reduzido a memes e bravatas. O livro documenta um período em que a realidade parecia competir com sua própria paródia – e responde com mais paródia.

Reunindo textos publicados no Jornal de Brasília a partir de 2020, Você tem um crush & outras crônicas, que sai pela editora Litteralux, com texto de orelha da escritora e jornalista Juliana Valentim, mede a temperatura de uma época que ainda não terminou de se explicar.
A pandemia de Covid-19, por exemplo, tema de algumas crônicas, também dá as caras no livro Quem falou?, da mesma editora, indicado ao Prêmio Jabuti em 2024, sobre o qual foi falado: “Humor alucinado, sem pudor. Gargalhei à beça.” Quem falou? O crítico cultural Martim Vasques da Cunha.
Sobre o autor
André Cunha publicou o romance Quem falou? pela editora Litteralux, indicado ao Prêmio Jabuti 2024 na categoria Romance Literário, entre outros livros. Já colaborou com diferentes veículos de comunicação, como revista Fórum, BandNews FM, Brasil247 e revista Bula. Assina os textos que deram origem a esse volume no Jornal de Brasília desde 2019.
Sinopse
Quando André Cunha recebeu o convite para colaborar com a página de Opinião do Jornal de Brasília, o governo Bolsonaro mostrava suas garras, um vírus letal surgia na China e as movimentações militares na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia se intensicavam. De lá para cá, publicou, com humor afiado e linguagem versátil, mais de uma centena de crônicas sobre os desdobramentos desses e outros assuntos que marcaram a primeira metade da década – a polarização política, a volta dos que não foram, as aventuras dos juízes no país das regalias, a ascensão da China, terceira via, vaza-toga, 8 de janeiro, tarifaço, isolamento social, aplicativos de paquera, saúde mental, clonagem. O que o leitor tem em mãos é uma seleção desses textos. Mas é bom ficar sabendo: se está em busca daquele tipo de livro que critica apenas um lado, talvez seja melhor procurar outro.

Serviço: Você tem um crush e outras crônicas; crônicas; p. 102; R$ 52; (Litteralux, 2026). [+ info]. andreluizrenato@gmail.com e litteraluxeditora@gmail.com
Link para compras: https://loja.editoralitteralux.com.br/voce-tem-um-crush
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