Fernando Andrade: 1-) Os olhos da gente não cometem deslizes de verossimilhança, mas na sua ficção é outro sentido que guia seus textos, o ouvido interno, aquele que pode não dar certeza ao som, às palavras e para fechar os sentidos. Alucinações auditivas não é caso de loucura, mas do estranho, do insólito que brota do real (ficção representada).
Francisco Perna Filho: A percepção poética não se limita ao olhar denotativo e objetivo, próprio de uma visão mecânica da realidade. Ao contrário, ela se constrói a partir de uma dimensão transcendente, capaz de reorganizar e ressignificar os elementos do mundo. Nesse processo, o poeta opera por meio da fragmentação e do rearranjo, instaurando uma cosmovisão em que seres inanimados adquirem vitalidade, entidades transcendentes assumem características humanas e o diálogo entre deuses e homens se torna possível. Trata-se de uma percepção ampliada, que mobiliza não apenas a visão, mas também outros sentidos, o tato, a escuta, a corporeidade, como instrumentos de apreensão estética.
Essa experiência revela uma simbiose entre natureza e literatura, em que o real se abre para o insólito e o extraordinário. A poesia, nesse contexto, não se restringe às convenções formais ou às categorias racionais, mas transcende-as, instaurando um espaço de significação em que o estranho e o ficcional emergem como prolongamentos do próprio real.
2-) O homem e sua representação simbólica (carro) de status e poder, no conto “Combustastes”, você humaniza ou dota veículos de afecções humanas. E seu texto é tão poético, que torna um conto sublimático da relação capital, imagética, de forma surpreendente. Comente.
F. P. F.: – Desde muito tempo, os homens recorreram às fábulas e parábolas como formas de representação simbólica do real, deslocando-o para um plano metafórico, poético e alegórico. Esse recurso literário permite que o ficcional se configure como espaço de reflexão crítica, capaz de se distanciar dos fatos corriqueiros e do cotidiano para, em seguida, reaproximá-los sob uma nova perspectiva interpretativa. A literatura, nesse sentido, cumpre inicialmente uma função lúdica, de encantamento e imaginação, mas também se afirma como linguagem histórica, filosófica e social, instaurando um campo de significação que transcende o mero entretenimento.
O diálogo com seres inanimados, máquinas e animais, presente em minha escrita, insere-se nessa tradição de atribuir afecções humanas a objetos e entidades não humanas. No conto “Combustastes”, por exemplo, a humanização dos veículos não se limita a um recurso estilístico, mas se torna estratégia crítica para problematizar símbolos de status e poder, revelando o caráter imagético e capitalista que permeia tais representações. Se observado com atenção, esse procedimento estabelece, ainda que de forma distante, uma relação intertextual com José J. Veiga em A Hora dos Ruminantes, obra que também explora o insólito e o estranhamento como meios de tensionar o cotidiano e expor forças simbólicas que atravessam a vida social. Essa aproximação evidencia como a literatura brasileira dialoga com o insólito para ampliar a consciência crítica sobre o real, sem necessidade de recorrer a revelações explícitas ou spoilers.
3-) Crer no texto não é mesmo que ter certa fé, crença em certo personagem que não come porcos, por questões dogmáticas, a relação do leitor com sua leitura precisa de certa suspensão da credibilidade e de afirmação. Comente de maneira geral seu livro como um todo.
F. P. F.: Todo texto nasce de um pretexto, insere-se em um contexto e carrega uma intencionalidade. Nesse sentido, a leitura exige do receptor não apenas atenção ao que é explicitado, mas também ao que permanece velado. O título “Sob o véu” já sugere essa dimensão de ocultamento e revelação: há sempre algo que não se mostra por completo, instaurando-se nas lacunas, nos silêncios, nos esquecimentos e no não dito. A obra, portanto, articula o visível e o abscôndito, o estranhamento e a familiaridade, configurando-se como espaço de tensão entre o que é revelado e o que se mantém incógnito.
Os doze contos que compõem o livro se aproximam não apenas pela materialidade das páginas ou pela plataforma em que estão inseridos, mas sobretudo pela unidade temática. Ainda que partam de situações aparentemente absurdas, revelam uma crítica à miséria humana, ao esfacelamento do ser e às perdas que marcam a existência. Contudo, ao mesmo tempo, instauram uma dimensão de esperança e reconstrução, pois a literatura, enquanto linguagem, não se limita ao papel lúdico, mas também se afirma como prática social e filosófica. Nesse processo, os objetos e as coisas deixam de ser meros elementos materiais: tornam-se portadores de significados, de “auras” que aspiram à revelação, aguardando o tempo e a oportunidade para emergir.
Assim, “Sob o véu” propõe ao leitor uma necessária suspensão da credibilidade, não no sentido de descrença, mas como abertura para o insólito e para o simbólico. A obra convida à reflexão sobre a condição humana, mostrando que ninguém escapa de ser o que é, mesmo quando esse ser se transforma em outro, seja por identificação, seja por repulsa. Trata-se, portanto, de um livro que articula crítica social, dimensão filosófica e potência estética, instaurando um espaço de leitura que exige tanto fé poética quanto consciência crítica.

Francisco Perna Filho é poeta, contista e crítico literário. É mestre e doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás, com pesquisas dedicadas à obra de Manoel de Barros, no mestrado, e à narrativa de Autran Dourado, no doutorado. Publicou ensaios e artigos críticos em diversas revistas acadêmicas e, em 2014, foi um dos vencedores do Prêmio Off Flip de Literatura, na categoria poesia. Teve poemas publicados na revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional. É natural de Miracema do Tocantins.

Ótimo entrevista.
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Francisco Perna Filho sempre nos traz boas leituras. Muito bom!
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Francisvo Perna Filho expressa-se com incrivel desenvoltura, em prosa e em versos, com maestria e sentimentos. Seus textos nos vêm não só da indispensável capacidade do olhar, mas de um irresistível procedimento analítico, sustentado na percepção filosófica que melhor traduz a captação pelos sentidos. E, no processo (que lhe foi pedido) de uma autoanálise, exprime-se com a naturalidade de quem se compraz ao produzir seus textos como essência de vida e de propósitos.
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