“Vidas sem nome” (Editora Litteralux, 2025) é o quinto livro de prosa de Wilson Gorj, romancista, contista e editor já com lastro no meio literário.
O volume de contos possui uma característica latente já no título, pois existe um anonimato dos personagens. Pouco importa os nomes que possuem, mas sim as histórias, os causos e as situações vivenciadas por eles, pois tudo possui um pé na vida cotidiana, mas não passa de literatura da melhor qualidade.
Na orelha do livro, o também contista Mário Baggio inicia a apresentação, ao exaltar o vigor literário do miniconto na literatura. Evoca Monterroso e Heminguay, alocando Gorj neste grupo. Expõe que “A aparente simplicidade dos textos esconde uma arquitetura sofisticada.” Conclui que a vida passa pelas 58 narrativas breves, com um passeio entre o que provoca o surreal, o drama e o humor.
Para Baggio, “a concisão não é uma limitação, mas um recurso expressivo de alta potência, um exercício de síntese literária.”

Na quarta capa, a escritora e crítica literária Alexandra Vieira de Almeida cita que “o autor brinca com a inevitabilidade dos destinos” em textos que mergulham em “cenas peculiares, gestos de corpos sem rostos”. Dessa forma, tudo justifica o título da obra e o anonimato dos personagens que são seres de carne e osso transpirando por aí.
Em virtude da impossibilidade de análise de todo o conjunto de textos do livro, seguem impressões sobre vários textos que dialogam com as falas de Alexandra e Baggio.
“O sofá”, p.11, é a metáfora da morte, já que o móvel da casa foi fotografado em diversos anos e, cada vez que a imagem era feita, mais lugares vazios havia ali.
Pujante, o texto traz reflexões existenciais sobre a finitude e encanta, com desfecho surpreendente:
“Agora a câmera é outra, moderna, sem filme. Também haverão de achar estranho que alguém queira imprimir a fotografia de um sofá tão velho…. e vazio.”
“O novo prefeito”, p.17, é um texto caricatural de todo político. Não à toa, Wilson Gorj foi muito feliz na escolha do título da obra e da nomeação dos personagens que existem na vida real, mas, têm nomes irrelevantes, aqui, na ficção.
Em “Olhos azuis”, p.19, uma cigana acerta a previsão ao dizer a um homem que outro homem apareceria no caminho dele, desejando um coração. Veio um insulto, pois o cliente era não era homossexual e se irritou com a mulher. Mas, com a morte do protagonista e a doação de órgãos feita pela família,”(…) um homem alto e louro esperava pelo seu coração.”
Em “Lataria nova”, p.22, uma mulher se vê traída, quando o companheiro trocou o carango, um velho automóvel, por um carro mais sofisticado. Mas a mudança também abalou o casamento e amante passou ao lugar de esposa.
A fala final da personagem traída resume tudo: “A mãe não falava, mas no íntimo culpava os filhos: “éramos bem mais felizes com a nossa lata velha…”
As humilhações de que a mulher fora vítima foram tantas que, em “Laranja”, p.27, ela decide se vingar do companheiro, matando-o, depois de lhe ele lhe pedir uma laranja de sobremesa.
Wilson Gorj prende a atenção do leitor com uma ironia fina, meio machadiana.
Contar uma boa história não é fácil. Produzir o susto em um conto e deixar o leitor perdido ou surpreso são atividades mais difíceis. E é o que acontece com “Privada”,p.29, quando, em um banheiro de uma repartição pública, num homem fica entalado em um vaso durante uma confraternização. É picado por um bicho nas nádegas e, ao final, quando arrombaram a porta, o homem gordo tinha desaparecido, deixando apenas, “duas solas de borracha.”
Em “Enciclopédias”, p.31, há uma crítica mordaz à situação das enciclopédias, muitas vezes doadas, em virtude da tecnologia, sobretudo do Google.
Se “O ninho”, p.37, tem realismo fantástico, em “Ferrorama”, p.45, observamos emoção e encantamento quando um homem, já idoso e avô, ganha um presente natalino desejado desde a infância.
O tratador se vingou do jacaré que abocanhou a mão dele junto a um pedaço de carne. Eis o tema de “O último insulto”, p.43
“Conto de Natal”, p.47, é para assustar, pois um menino de oito anos que descobrira a verdade sobre Papai Noel, foi até um shopping, todo cheio de ranço, e pediu um revólver ao bom velhinho. O final é surpreendente.
“Os louros da fama”, p. 66, mostra a decepção de um escritor na capital que se julgava reconhecido pela obra de cinco livros publicados. Mas, se entristece ao retornar ao município onde nascera para, após longa viagem proposta pela ex-professora de Português, para participar da inauguração de uma biblioteca local com o nome dele. Daí, a reflexão: o que seria a consagração?
“Língua afiada”, p. 80, mostra os riscos a que um homem se predispõe quando sai à noite, em busca de uma mulher, e termina a madrugada, na casa dela, preso com algemas, amordaçado, sonhando com o sexo, quando a companheira terminou com um estilete em mãos.
Se o homem expulsa uma gata de casa em “Crias”, p.82, ficando a companheira grávida, ele tentou a todo custo viver a família apenas com a mulher e o recém-nascido. Mas miados dos filhotinhos foram a herança do maldito felino.
Em “Ladrões”, p.90, um poeta é assaltado e tem um final trágico. O que mostra a verve autoral capaz de “Raiva”, p.98, provoca reflexão: o que fazer quando uma cidadezinha à beira-mar fuzilou cães que teriam passado raiva aos humanos? E se o motivo da ação humana não fosse o aumento de novas vítimas no hospital acometidas com sintomas de raiva?
Já “A crosta da ferida”, p.100, com epígrafe do miniconto mais famoso de Augusto Monterroso serve para uma reflexão: até que ponto o bullying pode ficar adormecido por anos no peito de um estudante que reencontra, anos depois, o agressor, homem já feito, como ele, para se vingar? Não à toa, a epígrafe destacou o dinossauro, ora metamorfoseado no sentimento de violência expresso no texto.
A falta de domínio da mente mostra um surfista atormentado por um tubarão que lhe cravou “Dentes na carne”,p.112., e assombrar o leitor.
Em “Morfeu”, p.114, a ironia prevalece, pois o personagem que desconhece a expressão “entregar-se a Morfeu” e achou que a companheira o traía.
Humor ácido provoca reflexão em “Limpeza”, p.127, quando a diarista “limpa” a casa do patrão no pronto dia, deixando-a cheirosa, mas sem a TV de LED e o PlayStation 5.
Após encontrar a mulher da vida dele, o homem saiu do baile acompanhado. Depois da transa no motel, ela, apressada, disse que precisava ir. Ele perguntou se tinha feito algo errado. Ela preparou o terreno e disse que tudo era daquela horas, devido ao trabalho. Por fim, deu-lhe o golpe de misericórdia, ao dizer:
“— Falando nisso, meu bem… você me deve 200 reais”.
Era “O preço do amor”, p.138.
Já em “A poesia da vida”, p. 144, um poeta usa sua verve para romantizar as situações escabrosas que vê, transformando-as em momentos doces, mas é interrompido pelo senhorio que ameaça bater nele, caso não pague o aluguel.
Por todo o exposto, vale muito conhecer as vidas e as histórias desses anônimos que circulam por aí.

*LUIZ OTÁVIO OLIANI é professor e escritor. Atual Diretor de Comunicação Social da APPERJ. Publicou 25 livros, incluindo poesia, conto, crônica, teatro, literatura infantojuvenil, crítica literária e ensaios. Em 2025, recebeu o Troféu Arte em Movimento; recebeu o Prêmio Juçara Valverde na categoria LIVRO DO ANO com a obra “Eu me sinto um criminoso e outras crônicas”, que também recebeu “Moção de Aplauso” da ATL, Academia Teixeirense de Letras, Bahia.
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