Entrevista com o escritor Eduardo Baccarin-Costa – por Fernando Andrade

Fernando Andrade: Vi uma certa influência dos romances do escritor americano Philip Roth no seu romance. Que semelhanças e diferenças há entre ele e você na estrutura do enredo. Comente.

Eduardo Baccarin-Costa: É proposital. Quando comecei a construir o personagem Neri Reis pensei em um poeta que passasse por uma transição profunda na mente. De libertário para alguém mais comedido, tranquilo, sincero, transparente. Alguém continuasse verdadeiro nos seus versos, mas com um coração disposto a amar no sentido mais completo da palavra. Escrevi Liberdade Condicional (Editora Leia Livros, 2022), quando apresento o poeta e seus amigos. A ideia, desde o começo era uma trilogia ou tetralogia, e aí precisava de histórias. Antes mesmo de lançar o primeiro, tive contato com O Animal Agonizante. Já tinha lido O Professor do Desejo, e fiquei bem impactado com David Kepesh. Um canalha no pior sentido do termo, na minha opinião.

A segunda parte da trilogia, A menina e o poeta (Litteralux, 2025) mostra o início dessa transição no poeta, e aí já tinha o rumo que pretendia dar a Neri. Por isso, o transformei em professor e coloquei o debate que Roth discute com sarcasmo por meio de Kepesh. Aí surge o canalha Neri Reis, com o mesmo caráter do personagem do autor estadunidense. Porém, desde que comecei a escrever romances, tenho a pretensão de dar um final positivo para meus personagens. Mostrar que o ser humano tem jeito sim. Distopia é realidade demais pro meu gosto. A literatura pode fazer o homem sonhar com um mundo melhor, além da realidade. A utopia é necessária e sempre bem-vinda. Por isso em Eu Con-verso, livro que encerra a história de Neri Reis, você vai perceber que a influência começou e acabou aqui mesmo.

FA:  A religião católica entra muito forte na segunda parte do seu romance.  A redenção do seu personagem passa por esta transformação em corpo e alma.  Comente. 

EBC: Interessante sua leitura a respeito da segunda parte do romance.  Em nenhum momento pensei em fazer uma história com aspecto denominacional. Eu, inclusive, nem sou católico. Fui, um dia. Hoje, não mais. Minha intenção é mostrar que existe Um caminho. Sou cristão e creio que Nesse caminho há redenção, rendição e novas oportunidades. Sem levantar bandeira para A ou B. A Rendição do Canalha é um livro definido esteticamente como Ficção Cristã, da qual fazem parte romances como As crônicas de Nárnia e Orgulho e Preconceito, e dentro da proposta dessa estética literária está a visão de que o homem pode e muda sua história quando alinhado ao Verdadeiro amor. (Nota. As caixas altas não são acaso. Marcam de quem estou falando, sem dizer o nome de Jesus diretamente).

Por isso, a minha intenção foi falar desse Amor que transforma, cura e dá vida em abundância, sem mencionar igreja ou religião A ou B. Particularmente tenho a minha e posso falar sem problemas dela, porém, literariamente minhas histórias não estão restritas a isso, eu acho. Sua leitura vai fazer eu revisar algumas coisas nos novos romances que virão. Obrigado.

FA:  Seu trabalho com a linguagem é bem cuidadoso,  a carpintaria parece que foi muito burilada até chegar às versões finais. Fale um pouco disso. 

EBC: Por incrível que pareça não é tão burilado assim. Eu, por exemplo, escrevo sem nenhum tipo de revisão. A não ser aquelas gritantes, como erros de ortografia (sim, autor também comete desvios no afã de contar sua história) concordância, e as gralhas que atravancam a progressão textual. Uma revisão mais profunda faço depois, sozinho. Antes de mandar para o aval das editoras, faço uma leitura crítica com Josy Galvão, minha esposa, que é especialista em lógica, e me auxilia na amarração da história como um todo. E sempre dou uma repassada quando vem para a última revisão antes de ir para gráfica. Eu procuro, nesse processo,  burilar a palavra para que o texto fique agradável e que seja denso apenas no plano de conteúdo, mas não no de linguagem. Espero ter conseguido isso em A RENDIÇÃO DO CANALHA.

Eduardo Baccarin-Costa

Doutor em Letras pela UEL, tem 17 livros publicados no Brasil, e um, em espanhol, na Argentina. Foi vice-campeão do concurso Poesia do Cinquentenário de Londrina; venceu por quatro anos consecutivos o concurso literário nacional – categoria prosa – promovido pela Editora Leia Livros; primeiro colocado no Concurso Outras Palavras (2020), na categoria romance, promovido pela Secretaria de Cultura do Paraná; Vice-Campeão do Prêmio Uirapuru (2021) na categoria dramaturgia;  Finalista do Prêmio Paraná de Literatura (2023) na categoria romance, promovido pela Biblioteca Pública do Paraná; Vice-Campeão do V Concurso Literário de Nova Xavantina/MT (2024), na categoria romance.

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