Breve entrevista com o escritor Theo G. Alves – por Fernando Andrade

Fernando Andrade: Nas duas narrativas do seu livro, a palavra geografia denota um sentido espacial, mas sua linguagem se envereda por uma poética da solidão. Uma voz cética nas duas personagens sobre o mundo ou universo social (na segunda, mais).  Queria que você me falasse mais sobre a questão do abandono em sua obra.

Theo G. Alves: A geografia de que meu livro fala congrega essa geografia espacial com a metáfora dos caminhos que seus personagens/narradores trilham por suas vidas profundamente marcadas por toda a sorte de abandonos. E o mundo como elas, as personagens, e eu o vemos é um lugar onde os abandonos ajudam a compor os destinos, marcados por perdas, esquecimentos, solidões. Somos as sobras do que nos falta. Perceba que os dois narradores-personagens são frutos de diferentes experiências de perdas: o abandono de ter sido deixada como pagamento de uma dívida ou a perda de uma criança no meio de uma procissão, que é a última metáfora sobre estar sozinho mesmo cercado por milhares de pessoas. É possível dizer que os narradores são frutos desse abandono de todos os dias, assim como cada um de nós também o é.

F.A.: Na narrativa do filho que procura a avó desaparecida, há questões sobre a incomunicabilidade humana entre pessoas tão próximas. Mesmo em deslocamento há uma inaptidão do personagem em fluir num destino-ação — como se ele tivesse paralisado emocionalmente. Comente a respeito.

T. G. A.: Na verdade, os dois narradores-personagens são os únicos em movimento no livro. Todos os outros personagens aparecem estáticos, quase como a imagem congelada em uma fotografia, enquanto os dois narradores estão movendo-se diante das situações de suas vidas. A única coisa a fazer diante da tragédia e do abandono é continuar em movimento, mesmo que sob o efeito de medicamentos, mesmo sob o peso do esquecer-se contínuo de uma doença como Alzheimer, tanto que as duas histórias que o livro conta convergem em um arco para um final em movimento.

F.A.: O ambiente rural da segunda narrativa traz os arquétipos deste universo, precariedade das relações pessoais-sociais,  machismo arraigado na terra, (signo de propriedade). A narradora tem um ceticismo com relação ao entorno dela. O que você pode acrescentar a essa observação?

T. G. A.: Salvina é uma mulher forjada nesse espaço e através das relações que o preenchem. Ela é uma mulher, como muitas, construída para o silêncio, para a dor, para a doação completa e abnegada, no entanto há nela uma ousadia que faz com que as verdades absolutas em seu entorno sejam, pelo menos, trincadas. A única força a tolhê-la verdadeiramente mais forte que ela é a doença, no mais Salvina lida com o mundo da única maneira possível: vivendo-o.

Theo G. Alves

Theo G. Alves nasceu em 1980, em Natal, mas cresceu em Currais Novos e mora em Santa Cruz, no interior potiguar. Premiado em concursos nacionais e regionais por sua prosa e poesia, publicou, entre outros, os livros “Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis”, “Doce Azedo Amaro” e “Inventário de Tão Pouco”, todos de poesia; “Por que Não Enterramos o Cão?”, de contos; e “A Cartomante que Adivinha O Presente” e “Peço Desculpas por esta Crônica (e por outras)”, de crônicas”. Publicou ainda os romances “Barreiro das Almas” e “Deus me Perdoe por Quem Eu Sou”. Theo continua escrevendo, entre silêncio e barulho, por acreditar na palavra como caminho.

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