O poema abana a cauda, alisa os bigodes, mia nos versos mais musicais. O poema está para entrelinhas assim como felino está para sua liberdade. Ambos parecem paradoxais, o poema tem lá sua voz, escuta de quem o lê. O gato silencia sílabas misteriosas, desaparece quando alguém o vê.
Fiquei muito curioso com “Esse gato não é meu”, livro da poeta Daniela Coelho, publicado pela Litteralux. Os versos ferinos da autora nos convidam à roça para poetar com os bichos. Com certo ar de ironia, a coletânea não desafina nenhuma vez. Com sua malícia, os gatos saltimbancos pulam da página, policiando o politicamente correto, fazendo do leitor seu confidente. O livro é uma delícia, tem uma relação metalinguística, e animalística, coisa difícil de se ver na poética de hoje.

Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são fonemas.


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