“Todo o resto é poesia”: em alto e bom som, uma obra que concilia tango e samba entre um brasileiro e uma argentina

Gastar saliva, gostar da língua, navegar noutra pátria. Brasil e Argentina. Diabruras do futebol, paixões literárias por Borges e Julio Cortázar.  Levar um pombo-correio para una hermana com uma carta — “te conheci num estádio de futebol entre times daqui e daí”. A língua não fere rasuras de amor, porque fissuras sobre outra chica, outra hermosa, cabem no repertório poético de Israel Pinheiro, autor pernambucano do ótimo “Todo o resto é poesia” (Litteralux, 2026). Bagagem cultural e nada fiscal,  bota pano de fundo e cinema para relações nada diplomáticas entre vizinhos sul-americanos. Claro, o espanhol e o português dão dribles e fazem embaixadas no portunhol musical. Israel faz uma prosódia epopeica entre casais: um homem brasileiro e uma mulher argentina, com Sabato no sábado bebendo vinho, com Pelé e Maradona numa rivalidade histórica e descomunal. Versos nos Andes, andarilho errante pela diferenças de som e melodia no hispânico, no histórico, no português luso daqui — este livro é uma viagem, pronta para embarcar num transatlântico do amor.  [Fernando Andrade]       

*

Feita esta apresentação poética, vamos agora à entrevista com o autor.

Sobre o autor

Fernando Andrade:  Adotando uma metáfora futebolística, neste livro sua poética atua como um meio-campista criativo: passes curtos, versos concisos, tabelas pelas quais diálogos entre Brasil e Argentina se coadunam numa relação gramatical e romântica.  Ida e volta — parece jogo de libertadores. Nesta ciranda entre o  espanhol e o português um casal se conhece e se perfaz em fragmentos de um discurso amoroso. Fale um pouco sobre estas questões.

Israel Pinheiro: Primeiro, se você me permite, eu gostaria de apresentar um breve preâmbulo que talvez ofereça um pouco mais de contexto às minhas respostas. As escolhas que eu fiz neste livro refletem de alguma maneira o modo como eu apreendo a poesia contemporânea, pelo menos aquela que chega até mim. Eu vejo a poesia hoje como o gênero por excelência do luto, do trauma, da dessemelhança, da reivindicação. Eu pessoalmente endosso todos estes temas e acredito que eles são da quintessência da poesia desde sempre, apesar de acreditar que experiência pandêmica produziu uma espécie de hiperfoco coletivo que parece ser muito próprio da nossa época. E o meu livro caminha na direção oposta, não com pretensões de marcar pontos de inflexão, mas como um processo orgânico, que expressa a minha convicção estética de que a poesia também é o lugar da celebração das descobertas felizes e dos bons afetos correspondidos. Talvez seja essa a única afirmação que eu faço com este livro. Tenho a plena consciência de que não sou o único, mas acho importante assinalar à qual tradição me filio. Antes de adentrar propriamente nas respostas, eu quero saudar a acuidade deste escrutínio. Que pergunta formidável. Eu tenho apenas uma aspiração bem definida para este livro: que ele seja um contraponto elegante e arejado às tensões, reais e míticas, entre Brasil e Argentina. As evocações futebolísticas, gramaticais, românticas e idiomáticas, no livro, servem ao propósito do distensionamento. Gosto de imaginar este casal como uma metáfora de tudo que as duas nações podem ser e construir em comunhão. Admito que a ideia de partida de Libertadores me fascina, e ela espelha a relação Brasil-Argentina no seu estado mais bruto — o papel da poesia é propor refinamentos. Ainda no âmbito das metáforas futebolísticas, as tabelas com a sociedade argentina me interessam vivamente. Tabelar com seu lirismo, seu cinema, música e literatura é sempre um privilégio. O papel de meio-campista nesta sugestão é para mim uma função bastante honrosa e faz jus à singela mediação cultural que o livro realiza. Recebo essa camisa com muita alegria.

Conheça a obra

F.A.: A língua escrita e falada no seu livro é pormenorizada em processos de jogos com palavras, aspectos lúdicos do som e da significação. Como o amor do casal metaforiza as interioridades da linguagem sensorial e polissêmica da sua poética? Como relacionou a língua, a geografia e, sobretudo, a afetividade amorosa entre um brasileiro e uma argentina?

I.P.: Na minha experiência, o amor entre duas pessoas que não falam o mesmo idioma emula o processo poético, no meu caso eu diria até que o possibilitou. A experimentação semântica é permanente, e o caminho é permeado de tentativas e erros. O segredo é persistir até o ponto em que pequenos equívocos não precipitam colapsos e pequenos êxitos produzem arrebatamentos. Como vivo o amor, eu vivo a poesia.

Leia amostra grátis

F.A.: Para além de uma obra de poesia, seu livro pode ser considerado um estudo cultural sul-americano. Semelhanças na literatura, rivalidades no esporte, ludismo nas diferenças entre as prosódias dos idiomas português e hispânico. Fale a respeito desses pontos de encontro.

I.P.: Sempre me incomodou bastante a relativização da latinidade do povo brasileiro, que às vezes se manifesta em esquecimentos deliberados em certas listas de países latinos. Esse é um tema que sempre me intrigou. Acredito que a diferença idiomática conta, mas não explica tudo. Eu reconheço que o nosso diálogo cultural com o continente é muito aquém do que poderia ser — e não podemos nunca nos conformar com isso —, mas a nossa latinidade é indubitável. Os elementos constitutivos dos meus influxos poéticos são também a minha latinidade. Minha poesia atesta meu lugar de latino-americano.

* * *

Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

Acima ↑