O romance da escritora Wanise relata luto e dor de forma surpreendente e criativa

O tempo da vida é um fluxo contínuo, mas há duas aberturas nele: o passado e o futuro — um devir: e já é aqui.  Na ficção, porém, podemos ter um tempo desconstruindo pela ilógica as sequências dos fatos. Um tempo fragmentando em posições temporais que não se ligam em cronologias de minutos, horas. Um tempo-pulsão, que adverte o leitor que estou confuso nesta relação entre ação e tempo. No livro “O pássaro verde e a caixa de madeira” (Litteralux, 2026), da escritora Wanise Martinez, temos duas personagens que narram histórias parelhas, cuja semelhança parece mera coincidência. Denise e Marisa passam pelo mesmo processo de luto de um amor, e tentam cuidar da dor cada qual a seu modo: uma lidando com a faculdade e outra com um trabalho de arqueologia num subsolo de metrô. Wanise estrutura seu romance brincando com os acasos ficcionais, como se um fio invisível estivesse preso ao destino das suas duas personagens. Toda a estrutura do enredo é feita pela escrita baseada em sugestões ou pistas que a autora vai soltando na estrutura fragmentária, desprendida da narrativa. O desfecho espera por você, leitor, como um enigma a ser paulatinamente revelado.

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Abaixo, publicamos a entrevista com a autora.

Fernando Andrade: Você quebra a temporalidade de sua história, de forma surpreendente, criando duas personagens parelhas em todo seu emocional. A estrutura revela certo suspense sobre destino, luto, dor, pela forma da narrativa desconstrutiva. Poderia discorrer sobre isso?  

Wanise Martinez: Desde o início, a ideia desse livro era contar as histórias das duas personagens, Marisa e Denise, de forma alternada, apresentando aos poucos suas dores e vivências específicas, sem revelar por completo aquilo que as une. Esse suspense serve para costurar a trama, mas também para representar os processos de luto em si, quando não sabemos onde nos situar, se no antes ou no agora, afinal as memórias nos habitam em qualquer momento da vida; são parte de quem somos.

Dessa forma, a narrativa desconstrutiva me pareceu uma estratégia mais assertiva para tentar organizar (e desorganizar) os acontecimentos e as sensações, assim como para demonstrar a fragilidade da condição humana por meio das ações e das escolhas feitas pelas personagens. Acredito que essa quebra de linearidade temporal ajuda a instigar o leitor a seguir o que está sendo contado, sem sentir que está perdido na história, mas sim atento, emocionado, incomodado.

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 F. A.: Bela inserção de canções que revelam o estado de ânimo da personagem Denise; sua transição de faculdade também é curiosa, e atenta ao decurso da narrativa. Você trabalha muito através da sugestão, na escrita, mas dá pistas sempre na hora certa. Comente a respeito desse processo.

W. M.: A personagem Denise é aquela pessoa jovem que todos nós já fomos um dia: sonhadora, ingênua, segura de si e de suas ideias, mas completamente insegura do mundo. Nessa fase da vida, em que buscamos nosso lugar, muitas vezes não conseguimos sequer imaginar que as coisas podem dar errado, que a vida pode vir e nos tirar aquilo que parece certo. Assim, a perda inesperada que ocasiona uma quebra na vida de Denise também vai causando mais quebras no que vem depois, já que a jovem não tem quaisquer ferramentas psicológicas em que se apoiar.

Em meio a isso, a música surge como espaço de proteção e estabilidade. Colocar os fones de ouvido, ou ligar o som dentro do quarto, permite com que ela seja abraçada tanto pela harmonia da composição quanto pela poesia das letras. De todas as artes, acredito que a música tem um quê de celestial, e isso conversa muito bem com a literatura, por isso essa é uma questão essencial para o livro. Apesar das lembranças embaladas pelas músicas lhe servirem de conforto, a dor é tanta que Denise procura uma saída na mudança de curso na faculdade. No entanto, inconscientemente, ela ainda estava escolhendo sobreviver na angústia.

Acredito que faz parte do meu papel como escritora entender que a sugestão às vezes conta mais que a descrição. Me ajuda o fato de ser jornalista e ter aprendido muito sobre edição de texto, mas na literatura valorizo a oportunidade que tenho de trabalhar com pistas; essas parceiras sutis e sagazes que ajudam a construir a história sem precisar apelar para excessos ou artimanhas de última hora.

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F. A.: Arqueologia seria uma metáfora para (re)habitar o passado de modo que a pessoa encontre suas camadas, os vãos do seu ser — um processo como desenterrar coisas há muito esquecidas.

W. M.: Quando criei a personagem Marisa, eu sabia que ela teria de, metaforicamente, desenterrar suas memórias, mas também queria que ela de fato colocasse as mãos na terra, então entendi que o melhor caminho era torná-la uma arqueóloga. Essa é uma profissão que relacionamos muito com o passado; parece tão distante da vida tecnológica que guia o nosso cotidiano hoje em dia. No entanto, apesar de tradicionalmente vermos o passado como algo que já se foi, ele está sempre aqui, guiando o presente e nos soprando dicas sobre o futuro – inclusive essa é uma cosmovisão adotada por vários povos originários, a de um tempo interconectado.

No caso de Marisa, ela não queria abandonar suas recordações; apenas escolheu não as revisitar para não sentir, ainda que as sentisse o tempo todo. Em toda a sua imperfeição humana, buscou na arqueologia uma forma de permanecer unida ao que veio antes, de se sentir segura nas histórias e objetos, mesmo que não fossem os seus. Mas como nada fica escondido para sempre, tanto que de tempos em tempos vemos notícias sobre coisas sendo redescobertas, chegaria o momento em que ela também precisaria remover a terra para se deixar ver em todas as suas camadas. E aqui essa questão surge ligada a dois pontos significativos: o vínculo da ancestralidade feminina com a natureza; a terra como local seguro para o corpo e as memórias da mulher, e também a importância dos amigos que fazemos ao longo da vida e que nos ajudam a cavar quando preciso. O tempo de Marisa reencontrar sua própria história chega, mas ela só tem forças para fazer isso porque tem o apoio fundamental de Décio. O acolhimento e a sinceridade dele ajudam Marisa a se fortalecer para enfrentar o desafio de se aceitar fragmentada.

Como estudiosa dos temas da memória e da história oral, penso que esse é um livro que busca convidar o leitor a escutar os sons do mundo. Na trama, o pássaro verde funciona como guia, auxiliando no despertar de Marisa, mas existem tantas outras maneiras de ouvirmos o cantar da vida para olharmos para dentro de nós. Espero que, de alguma maneira, essa leitura seja capaz de ressoar nos leitores.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

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