“Ilusão em tramitação” traz contos que apelam ao absurdo kafkiano para revelar a burocracia em um serviço público

Uma resenha não deve competir com um cartão de pontos, onde há faltas e presenças. Num conto se vence por nocaute. O final do expediente — seja no conto, seja no serviço público — deve evitar desperdícios. Os entraves afastam o leitor do conto e assustam o  servidor público que se vê emaranhado nas teias de uma rotina burocrática.  No livro de contos “Ilusões em tramitação” (Litteralux, 2026), do escritor Abel Ferreira, personagens ou anti-heróis duelam com um pesadelo kafkiano, cujas idas e vindas de documentação parecem se desconectar de qualquer lei moral ou do pleno exercício da cidadania funcional, onde cada parte complementa o todo num ordenamento organizado.  Abel desilude o leitor com uma parábola do absurdo, na qual fichas, relatórios e envios parecem obedecer a um ente divinizado.  A escrita se dosa em aparências fantasiosas. Quem bota o dedo na burocracia, a fim de corrigi-la, quase sempre se arrepende: a emenda fica pior que o soneto.

Confira abaixa a entrevista que tivemos com o escritor.

Fernando Andrade

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Fernando Andrade: Na máxima de Cortázar, o conto vence por nocaute. Nos contos do seu livro, a burocracia vai vencendo por pontos. Como você estruturou isso, os trâmites burocráticos, nesse gênero em que a rapidez e a concisão quase sempre são a regra?

Abel Ferreira: Talvez uma das forças da minha escrita esteja justamente aí: perceber que a burocracia raramente produz um grande golpe, mas se impõe por acúmulo, repetição, pequenos gestos e decisões aparentemente banais. No cotidiano, quase nunca é uma única decisão que muda tudo. É uma sequência de formulários, assinaturas, reuniões e silêncios. Procuro levar essa experiência para o conto e fazer com que esses elementos carreguem uma tensão maior do que aparentam. A burocracia deixa de ser apenas o cenário e começa a interferir diretamente na vida dos personagens.

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[F.A.]: Seus personagens parecem anti-heróis, lutando com certa engrenagem lenta, no serviço público. Como desenhar estes heróis e estes ambientes?

[A.F.]: Gosto de personagens que não parecem preparados para o heroísmo. São pessoas comuns, muitas vezes cansadas, tentando lidar com regras que não criaram e com instituições que não conseguem compreender inteiramente. No serviço público, esse conflito aparece de maneira muito concreta: o personagem precisa escolher entre cumprir uma ordem, proteger alguém ou simplesmente preservar o próprio emprego. Também tento construir os ambientes da mesma maneira: espaços aparentemente banais que, aos poucos, revelam relações de poder, hierarquia e escolha.

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[F.A.]: O absurdo kafkiano me veio à cabeça ao ler seu livro. “O Processo”, de Kafka, seria uma influência ao seu livro?

[A.F.]: Kafka é uma referência difícil de evitar quando se escreve sobre burocracia. Entendo a associação, principalmente pela sensação de aprisionamento e pela atmosfera de espera que existe em O Processo. Mas meu interesse está menos no absurdo universal e mais nas formas que a burocracia assume no Brasil, com suas contradições, improvisos e violência cotidiana. Talvez por isso eu me reconheça na contenção de Ishiguro, sobretudo na maneira como seus personagens lidam com aquilo que não conseguem dizer ou transformar.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

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