Há um jeito de amainar a quietude de um coração, acelerado pela vida corrida. Vida ruidosa, na malha do serviço doméstico. Silvia e sua filha Lúcia são passageiras de um futuro cujo exílio dança com a própria solidão em compassos de espera. O romance da autora Ana Paula Moreira, “O coração é desses pormenores” (Selo Auroras, ed. Litteralux, 2026), faz da tessitura da escrita uma viagem ao poético mais lascivo, no sentido da intensidade da palavra musical onde ritmo e cadência andam de mãos dadas numa sinfonia a céu aberto com todas as estrelas da noite a servir de plateia para a autora. Livro gestual, onde os dedos bailam ao sabor da solitude e da espera de que o amanhã não caia no poente da noite. Linhagem, que passa fio por fio pela teia da vida, onde a linha solta a mão — e do fluido e poético destino compassivo das personagens.
Confira abaixo a entrevista que tivemos com a escritora.
Fernando Andrade
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Fernando Andrade: Pertencimento e solidão parecem andar juntos no seu romance. Só uma linguagem tão envolvente como a sua pode dar forma a essas personagens, de certa forma exiladas de uma condição benfazeja para a vida. Fale a respeito desse exílio.
Ana Paula Moreira: É curioso porque o modo como você descreve algo da sua leitura me faz pensar em pertencimento e solidão como duas pessoas caminhando de mãos dadas. É um paradoxo e ele deve ser sustentado. A possibilidade das mãos que se seguram significa também a possibilidade de que essas mãos se separem e ainda assim as pessoas caminhem. Esse espaço muito me interessa. A fenda que instaura o que pode ser. E todos os caminhos em que não somos ou não podemos ser. Se há um exílio é porque esse livro me fez esse convite: perscrutar o exílio por dentro. Concebê-lo também como um personagem. Mas entre o exílio e a condição benfazeja da vida não existe uma separação absoluta. Ao menos não como possibilidade.

[F.A.]: Sua linguagem parece tatear as sombras mais escuras de Silvia e de Teresa. O trato poético, porém, abre lacunas para os olhos do leitor, como uma caixa de matrioska onde cada beleza é mostrada nos interiores da narrativa. Fale desse processo.
[A.P.M.]: Olho devagar para sua provocação e me ocorre que pode haver no âmbito da literatura um desejo flutuante. Ao me dedicar ao ofício de escrever posso desejar a flutuação, ou seja, caminhar pelos espaços. A radicalidade daquelas pessoas muito vivas que são os personagens é o meu altar. A linguagem é, sim, o coração desse altar. Porque a linguagem atenta à radicalidade das pessoas não teme os escuros, não pretende explicá-los. O desfecho pode ou não ser a compreensão. Por vezes há mesmo o que não se compreende e ainda assim lá estamos e o que há pra ver ou sentir são os restos nas lacunas, nos escuros, nos encontros entre as matrioskas.

[F.A.]: A música é um andamento, uma dança onde agora as palavras bailam, ganham corpo para a tradução, que é o afeto do leitor para como o livro. Sua escrita é pensada assim?
[A.P.M.]: É bonito pensar em palavras traduzindo algo do seu próprio idioma ou da pré-história desse idioma. As palavras dedicadas a traduzir o humano nas suas pessoas e reconhecendo que podem falhar. Amar a sorte de alguma tradução. Amar igualmente a falha porque nela também está toda a humanidade possível. As palavras são fundamentais mas estão muito longe de alguma plenitude ou suficiência. Quando há falha há outros caminhos para se desvelar tudo aquilo que sustenta as palavras: o corpo fundamentalmente e seus afetos. É também muito bonito que você pense em dança e em música quando lê este Coração porque se agora há pouco eu falei sobre o desejo flutuante, sobre honrar os espaços, sobre topar também a incompreensão, é porque há uma entrega total à chegada da pessoa leitora. É um convite também a quem vai ler, sabe? Nas lacunas e nos espaços cabe também o que vem com a pessoa que lê. É uma dança, mesmo. A leitura é, tantas vezes, uma dança entre o livro e a pessoa que o acolhe. Talvez a minha escrita seja uma tentativa de guardar o espaço da música porque, antes de mais nada, escrevo para guardar as pessoas. Aliás, esse foi exatamente o momento em que notei meu primeiro impulso para a escrita. Eu, ainda criança, senti um ímpeto de guardar minha avó por escrito. Depois fui aprendendo que não era exatamente ela que eu guardava, mas era esse algo que flutua nos espaços das relações. Talvez eu tenha percebido que ela me ensinou a olhar para esse algo. Aí está o contorno da minha escrita.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.
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