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“Boa moça” traz poemas que são um manifesto inconformista à doutrina nada católica do puro on-the-rocks (masculino)

Na década de 70, tivemos a canção de protesto, guitarras sendo quebradas em pleno show-ditadura. Neste modesto 2026, leio inúmeros poemas nada clandestinos, manifestos em som e tom inconformista. Alegria ferina, dedo na ferida, o joio separado do trigo, mas a semente não deu para florir no jardim. “Boa moça” (Litteralux) é uma obra que não vai cogitar, mas “cogritar”, em alto e bom som, a trilha infértil de um jardim babilônico, onde o homem não nasce poema — nasce problema. Em seu novo livro, Luana Borato vem hifenizar, ou melhor, infernizar, os homens. Palavras de um crítico que adorou o livro.
Fernando Andrade
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Abaixo, segue a entrevista com a autora.Fernando Andrade: Vou usar a metáfora da noite de lua cheia: a palavra poética baila no escuro. Já é noite… mas a lua cheia faz, de sua luz, luminescências diáfanas — olhares agudos sobre nós leitores que amam a noite. Seus poemas parecem a lua cheia, que iluminam os maquiavélicos atos masculinos da fauna masculina. Baseada nessa observação, o que seu livro joga de luz sobre o homem contemporâneo.
Luana Borato: Agradeço a sensibilidade dessa leitura através da metáfora da lua cheia. “Boa moça” joga sob a luz a experiência de ser mulher e a constante negociação com esse estigma imposto pelo título. Mas gosto da ideia de invisibilidade noturna que você trouxe, porque ressoa com o que sinto sobre a masculinidade. Muitas vezes, as estruturas de poder operam justamente no escuro, na conveniência de não serem nomeadas ou observadas. Ao lançar essa luz diáfana sobre o trajeto do que é ser mulher, busco revelar o sentimento, a tensão e a tentativa de desviar, poema e poema, das armadilhas da sociedade patriarcal. É claro que, a poesia não tem o poder de remover esses perigos do trajeto, mas, assim como a lua cheia, ela nos devolve a clareza da visão. Ao nomear as sombras e transpor para o ritmo da escrita a nossa tentativa de fuga desse rótulo, eu busco transformar o medo em um exercício de observação. A masculinidade que aparece no livro é, portanto, um reflexo do ambiente em que a mulher precisa se mover. Ela é o pano de fundo que impõe a necessidade da nossa vigilância.

Clique para acessar a vitrine do livro [FA]: Sua poética é uma mistura de dança; há ritmo, tom, melodia, e gume afiado sobre relações de gêneros. Queria que você comentasse sobre isso; sobre essa harmonia entre o riscado patriarcal, a estética do livro e suas nuances, linguagens.
[LB]: Eu ousaria dizer que essa harmonia ocorre quase como uma estratégia de sobrevivência. O ritmo dos versos tira o leitor para uma dança, fazendo com que ele se deixe envolver pela forma antes de ser atingido pela crítica, pela crueldade das relações de gênero que são abordadas. Não é apenas um recurso estético, mas se torna um meio de propagação da mensagem. Em alguns momentos trago a metáfora da fuga em zig zag, como quem tenta, a todo momento, fugir dessas linhas retas que foram desenhadas pelo patriarcado. Mas, aqui reforço para além do livro, apesar dos desafetos, aprendemos muito mais que fugir, mas a dançar nesse zig zig zá da vida.

Leia a amostra grátis [FA]: Há uma ironia ferina na sua voz poética. Mas, a meu ver, o livro continua sendo lírico sem nenhuma conotação agressiva. A ironia é proposital?
[LB]: O próprio título é uma ironia e, talvez, ela seja a única linguagem capaz de traduzir a dualidade de existir como uma “boa moça” no mundo. Existe uma ambivalência cruel na forma como a sociedade nos molda. Ao mesmo tempo que se anseia pela mulher submissa, criada para servir e obedecer, essa mesma figura é um alvo de forte rejeição e fácil descarte. O ser mulher, nessa sociedade, é um crime. Não um crime inafiançável, porque se paga um preço muito alto pela liberdade. Mas, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, um crime que se julga digno de pena de morte. A ironia, assim como a dança, se torna um artifício para envolver o leitor nessa realidade que também é, no mínimo, irônica.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
Com linguagem pulsional, “Limbo”, novo livro de Sebastião Ribeiro, poetisa emoções voláteis sobre vida terrena

Não, isto não é uma orelha. Não há explicação! Há, sim, um rumor delineando a linguagem fugidia, mas com pulsões subliminares. Mas negaremos recorrer à análise semântica deste livro pulsional, que corre, corre, corre, pelos instintos mais primários. Talvez medo, fuga, mas não de forma covarde, como se fossem linhas de fuga, territórios não vazados pela dicção do arrependimento. Este pulso ainda pulsa, mesmo na leitura viciante, desta pequena pérola poética chamada “Limbo” (Litteralux, 2026), do poeta Sebastião Ribeiro. Entre lugares, entre espaços, a linguagem do autor procura a ausência de dualidades — bem e mal, certo e errado —, e dá vazão talvez ao processo dialético entre estar bem ou se afundar no atavismo do niilismo. A poética contundente de Sebastião não traz reza: traz contradição, dicção e canção.
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Abaixo, segue a entrevista com o poeta.
Fernando Andrade: O mal não se explica; talvez semiotizar seria a palavra de tal espiritualidade. No seu livro, o eu-lírico foge do maniqueísmo e entra dentro de um campo de luta entre luz e escuridão, razão e loucura. Fale um pouco destas distensões.
Sebastião Ribeiro: Escrevo e desenvolvo poesia dentro do que me parece sincero e defensável e admito as imperfeições, a rebeldia, as contradições, o incontrolável no homem, na Arte, na poesia e tudo entre e através. Dito isso, o momento de vida que a escrita de “Limbo” perpassou foi de admissão dos riscos em que eu punha minha existência e os que me rodeiam, nos seus diversos campos, especialmente o afetivo, social e existencial. Foi o momento em que fiz terapia pela primeira vez, um momento inegável de fragilidade. Foi o momento em que precisei me expressar verbalmente de duas formas, que para mim, pareciam distintas: a poética e a diarística. Uma mais elevada e esculpida, aberta à experimentação estética e metafórica; e outra, objetiva, crua, muitas vezes tão mundana e piegas que doía. Dentro dessas duas esferas, há interseções, camadas, vozes. A poesia de “Limbo” traz parte desse vórtice em que eu estava. Com um pé no que poderia ser o fim e outro na esperança e futuro, um pé entre a necessidade de destacar e enfrentar o mais racionalmente possível uma questão e o delírio de momentos fugazes, de prazer, uma névoa de limerência. Não que esses processos não se mostrem nas obras anteriores, mas nesta se tornaram mais óbvios e limitantes. Confesso que tive receio de trazê-lo a público. Mas depois de conversas com amigos, poetas ou não, recordei da máxima de Manuel Bandeira, que carrego desde meu primeiro livro: “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” A poesia em “Limbo” me parece válida.

Clique para acessar a vitrine do livro F. A.: Poucos poetas sabem utilizar a ironia na poética. Você faz isso muito bem. Sua ironia é destilada como uma aguardente no ponto: queima e estonteia. É filigrana e prática.
S. R.: Os anos de escrita me fazem acreditar que uso a ironia nem sempre de forma intencional, neste e em outros livros; muitas vezes é simplesmente como lido com situações dentro e fora da literatura. Sinto que ela é ferramenta de negociação, mas também resposta ao que me parece absurdo, ao que está fora de controle, ao que me decepciona, às múltiplas constatações de incapacidade frente ao que poderia ser a vida e o mundo.

Leia a amostra grátis F. A.: A Divina Comédia do Dante me passou pela cabeça, como se as ações humanas pudessem passar pelo paraíso, purgatório e inferno — e a linguagem acompanhando este périplo pelas três esferas celestes. Seu livro dialogo com isso?
S. R.: Pena que “Limbo” é menos mitológico que espiritual (risos). É suspensão que se conforma com a insinuação de “paraíso”, no fim das contas. A humanidade na obra é menos espera em purgatório – essa sala de triagem é a única realidade. Mas concordo de certa forma com o citado périplo das ações humanas e, como a linguagem, artística ou não, é o veículo, o caminho, a tentativa de resolução e, talvez, uma forma de expiação.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“Em busca de Madalena Santos Reinbolt”, de Nélio Silzantov: Romance cria tessitura afetiva de mulher que bordou a vida como uma pintura sobre pertencimento

Há que ter paciência para passar a linha no tear ponto por ponto para elaborar uma obra de arte. Se a vida também é feita de linhas resolvidas, ou não, de acordo com ponto-pessoa na colocação da tapeçaria do destino de cada um. No romance do escritor Nelio Silzantov, “Em busca de Madalena Santos Reinbolt” (Litteralux, 2026), há também este bordado sobre como a arte perfila o temperamento dos personagens. A arte constrói histórias até biográficas. É o caso da narradora-personagem que conta a história de sua família no interior da Bahia, com sua casa da farinha, com filhos, cada qual com suas particularidades: a surdez de um, a emancipação de feminista de outra. Com uma linguagem extremamente lírica, o autor faz do texto uma tessitura de afeto sobre a cultura conquistense. Mas há um forte elemento-personagem que costura toda narrativa na voz da pintora Madalena Santos Reinbolt, uma mulher que trabalhou durante a vida como empregada doméstica que teve de criar pinturas e tapeçarias para aliviar a dor da obediência servil. A narradora parte para São Paulo para conhecer num museu sua obra completa — a sublimação da arte molda cada estilo de vida, cada jeito de ser no mundo. Nélio fez um romance lindo sobre pertencimento numa sociedade elitista e classista.
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Abaixo, a entrevista com o escritor Nélio Silzantov.
Fernando Andrade: A arte sublima a vida, mas também estetiza os elementos semióticos de produção. Madalena Santos Reinbolt viveu um pouco à margem dessa linha estética de produzir arte. Por que quis falar dela?
Nélio Silzantov: Trazê-la de volta para casa foi a primeira motivação, presentificar esta grande artista entre os seus conterrâneos que, infelizmente, sequer sabem de sua existência — ao menos a grande maioria ainda hoje a desconhece. Quando me deparei com Madalena, enquanto escrevia meu primeiro romance, pesquisei sobre ela nos blogs e sites de notícias locais e não encontrei nada a seu respeito, nem mesmo nos repositórios acadêmicos. Tudo o que eu encontrava vinha de fora, de outros estados, sobretudo do Rio e de SP. Era como se Madalena não existisse, e aquilo foi a coisa mais absurda e angustiante para mim. Depois percebi que era preciso falar sobre o lado humano dessa mulher-mito, de quem, até então, só tínhamos conhecimento do seu lado artístico. Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Madalena, especificamente sobre o seu passado em Vitória da Conquista, sua terra natal. As poucas informações a seu respeito vêm da única entrevista que ela concedeu à Lélia Coelho Frota, uma museóloga, crítica de arte e curadora brasileira, que apresentou Madalena e suas obras ao grande público por meio de seu livro Mitopoética de 9 Artistas Brasileiros. Chamei Madalena de mulher-mito porque, se olharmos para tudo o que se diz a seu respeito, veremos apenas essa tentativa de dizer algo da humanidade de uma mulher sobre quem não sabemos praticamente nada — e nisso incluímos tanto a pessoa que Madalena foi quanto o lugar de onde ela veio, o que, para mim, é fundamental para conhecermos melhor o sujeito e os objetos centrais dessa história, ou melhor, para conhecermos o lado humano dessa mulher por trás da sua imagem como artista e de todo o simbolismo contido em suas obras. Por último, busquei tornar mais expressivo o que antes tratei apenas como referência. Em meus romances anteriores, a arte ocupou o segundo plano no seio da narrativa, numa espécie de tentativa de promover um diálogo ou expansão da trama por meio de referências musicais, fílmicas, literárias etc. Desta vez, inúmeros artistas povoam os núcleos de personagens, de modo que venho dizendo que este romance é também uma ode à arte, sobretudo aos artistas marginalizados de minha terra natal.

Clique para acessar a vitrine do livro F. A.: Seu romance trata também da autonomia feminina de se autogerenciar fora do núcleo familiar. A narradora parte para um curso sobre artes para conhecer mais sobre tudo o que orbita em torno de Madalena. Você acha que se apropriou deste viés feminista no seu livro?
N. S.: A escrita deste romance exigiu um olhar mais profundo sobre a condição humana feminina. Mais que isso, foi preciso olhar como nunca olhei para as mulheres da minha própria família. Entender não apenas os afetos e as ausências daqueles que compõem minha relação com elas, mas, acima de tudo, seus arranjos e desarranjos no lado prático das coisas, seus modos de ser e estar no mundo. Antes de textualizar qualquer conceito — que não passa de uma tentativa entre muitas de dar conta da concretude de algo —, foi preciso me emaranhar na cotidianidade das mulheres ao meu redor e me aproximar, tornar-me íntimo disso que você chamou de autonomia feminina, que vejo mais como uma mescla entre o instinto de sobrevivência em um mundo opressor e a artesania da vida, essa capacidade de lapidar a brutalidade das coisas e transformá-las em algo belo e sublime. Minha avó materna saiu recém-casada da zona rural para Conquista, ficou viúva poucos anos depois e teve que se virar como empregada doméstica em São Paulo para criar três filhos, até não suportar mais aquela vida e retornar para casa, onde se dedicou ao ofício de costureira até o final de sua vida. Minha mãe seguiu os mesmos passos aos dezesseis anos de idade: trabalhou como doméstica em Guarulhos e depois retornou com minha avó para Conquista, onde aprendeu os macetes do corte e da costura com ela, e depois repassou seus conhecimentos para minhas irmãs, que também exerceram a profissão. Elas não foram as únicas que saíram de suas casas em busca de uma nova condição de vida, muitas vezes sem contar com qualquer apoio, sem nenhuma rede de proteção, e outras contando apenas com o apoio de outras mulheres. Quando olho para a história de Madalena vejo essa mesma dinâmica em movimento, e embora Lota de Macedo Soares e sua parceira Elizabeth Bishop tenham deixado uma marca significativa em sua trajetória, ainda me espanta a escolha que as duas patroas fizeram entre “a arte e a paz”, isto é, entre “desfrutar uma obra-prima todo dia” ou ter uma empregada inteiramente dedicada aos afazeres domésticos. Lota não mediu esforços para dar abrigo e apoio à poetisa norte-americana, mas se furtou a oferecer o mínimo àquela que em pouco tempo se tornaria uma das maiores referências nas artes visuais — intuição que Elizabeth Bishop frisou textualmente em suas cartas —, e não pensou duas vezes em demitir Madalena. Os caminhos que as personagens do meu romance percorrem são, em alguma medida, reflexo da mesma sorte que inúmeras mulheres encontram. E a narrativa que elaborei faz esse jogo entre realidade e sonho, entre agarrar-se à vida nas condições em que ela se apresenta e a possibilidade de viver seus próprios sonhos — o que nem sempre é possível, ou muitas vezes é adiado por conta de outras necessidades e urgências impostas.

Leia a amostra grátis F. A.: Queria que você falasse um pouco sobre sua escrita, particularmente neste livro. Há um envolvimento bastante poético, quase lírico, com frases muito bem lapidadas.
N. S.: A narradora-protagonista deste romance é uma escritora em formação que traz como legado familiar a contação de histórias, de causos reais e fictícios presentes na memória da população local. A oralidade é, neste sentido, uma característica fundamental para o desenvolvimento da narrativa, tanto no que diz respeito à tecitura da trama — o uso de composição oral-formular, de narrativas extensivas e episódicas, epítetos, repetições, símiles, paralelismos, discursos diretos, ritmo e musicalidade, o que me fez retornar à Ilíada e à Odisseia de Homero, e aos longos monólogos de Dostoiévski — quanto para mimetizar a linguagem em consonância com os espaços, com a passagem do tempo, com os estados de espírito das personagens e com a memória. Há uma constante transição no tom e no estilo, às vezes sutil, às vezes abrupta, que obedece à dinâmica das cenas e à divisão capitular da história em três momentos: um passado longínquo, um passado recente e o presente da narrativa. Em termos estilísticos, se olharmos para aquilo que o mercado espera das narrativas contemporâneas (com suas fórmulas consolidadas, tudo muito redondo e padronizado), a escrita deste romance se apresenta como uma espécie de “hibridismo inadequado das vozes ecoadas no chão de terra batida às elucubrações dos literatos de apartamento”, como a própria narradora observa. Inadequado justamente por não corresponder ao que a ortodoxia literária espera, porém, muito condizente com a intenção de expressar o processo de formação de uma escritora, que traz na sua escrita esses múltiplos registros culturais e linguísticos. Um estilo heterodoxo, por assim dizer, o que é, de certa forma, uma marca presente em meus trabalhos anteriores.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
O romance da escritora Wanise relata luto e dor de forma surpreendente e criativa

O tempo da vida é um fluxo contínuo, mas há duas aberturas nele: o passado e o futuro — um devir: e já é aqui. Na ficção, porém, podemos ter um tempo desconstruindo pela ilógica as sequências dos fatos. Um tempo fragmentando em posições temporais que não se ligam em cronologias de minutos, horas. Um tempo-pulsão, que adverte o leitor que estou confuso nesta relação entre ação e tempo. No livro “O pássaro verde e a caixa de madeira” (Litteralux, 2026), da escritora Wanise Martinez, temos duas personagens que narram histórias parelhas, cuja semelhança parece mera coincidência. Denise e Marisa passam pelo mesmo processo de luto de um amor, e tentam cuidar da dor cada qual a seu modo: uma lidando com a faculdade e outra com um trabalho de arqueologia num subsolo de metrô. Wanise estrutura seu romance brincando com os acasos ficcionais, como se um fio invisível estivesse preso ao destino das suas duas personagens. Toda a estrutura do enredo é feita pela escrita baseada em sugestões ou pistas que a autora vai soltando na estrutura fragmentária, desprendida da narrativa. O desfecho espera por você, leitor, como um enigma a ser paulatinamente revelado.
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Abaixo, publicamos a entrevista com a autora.
Fernando Andrade: Você quebra a temporalidade de sua história, de forma surpreendente, criando duas personagens parelhas em todo seu emocional. A estrutura revela certo suspense sobre destino, luto, dor, pela forma da narrativa desconstrutiva. Poderia discorrer sobre isso?
Wanise Martinez: Desde o início, a ideia desse livro era contar as histórias das duas personagens, Marisa e Denise, de forma alternada, apresentando aos poucos suas dores e vivências específicas, sem revelar por completo aquilo que as une. Esse suspense serve para costurar a trama, mas também para representar os processos de luto em si, quando não sabemos onde nos situar, se no antes ou no agora, afinal as memórias nos habitam em qualquer momento da vida; são parte de quem somos.
Dessa forma, a narrativa desconstrutiva me pareceu uma estratégia mais assertiva para tentar organizar (e desorganizar) os acontecimentos e as sensações, assim como para demonstrar a fragilidade da condição humana por meio das ações e das escolhas feitas pelas personagens. Acredito que essa quebra de linearidade temporal ajuda a instigar o leitor a seguir o que está sendo contado, sem sentir que está perdido na história, mas sim atento, emocionado, incomodado.

Amostra grátis: clique! F. A.: Bela inserção de canções que revelam o estado de ânimo da personagem Denise; sua transição de faculdade também é curiosa, e atenta ao decurso da narrativa. Você trabalha muito através da sugestão, na escrita, mas dá pistas sempre na hora certa. Comente a respeito desse processo.
W. M.: A personagem Denise é aquela pessoa jovem que todos nós já fomos um dia: sonhadora, ingênua, segura de si e de suas ideias, mas completamente insegura do mundo. Nessa fase da vida, em que buscamos nosso lugar, muitas vezes não conseguimos sequer imaginar que as coisas podem dar errado, que a vida pode vir e nos tirar aquilo que parece certo. Assim, a perda inesperada que ocasiona uma quebra na vida de Denise também vai causando mais quebras no que vem depois, já que a jovem não tem quaisquer ferramentas psicológicas em que se apoiar.
Em meio a isso, a música surge como espaço de proteção e estabilidade. Colocar os fones de ouvido, ou ligar o som dentro do quarto, permite com que ela seja abraçada tanto pela harmonia da composição quanto pela poesia das letras. De todas as artes, acredito que a música tem um quê de celestial, e isso conversa muito bem com a literatura, por isso essa é uma questão essencial para o livro. Apesar das lembranças embaladas pelas músicas lhe servirem de conforto, a dor é tanta que Denise procura uma saída na mudança de curso na faculdade. No entanto, inconscientemente, ela ainda estava escolhendo sobreviver na angústia.
Acredito que faz parte do meu papel como escritora entender que a sugestão às vezes conta mais que a descrição. Me ajuda o fato de ser jornalista e ter aprendido muito sobre edição de texto, mas na literatura valorizo a oportunidade que tenho de trabalhar com pistas; essas parceiras sutis e sagazes que ajudam a construir a história sem precisar apelar para excessos ou artimanhas de última hora.

Acesse a vitrine do livro F. A.: Arqueologia seria uma metáfora para (re)habitar o passado de modo que a pessoa encontre suas camadas, os vãos do seu ser — um processo como desenterrar coisas há muito esquecidas.
W. M.: Quando criei a personagem Marisa, eu sabia que ela teria de, metaforicamente, desenterrar suas memórias, mas também queria que ela de fato colocasse as mãos na terra, então entendi que o melhor caminho era torná-la uma arqueóloga. Essa é uma profissão que relacionamos muito com o passado; parece tão distante da vida tecnológica que guia o nosso cotidiano hoje em dia. No entanto, apesar de tradicionalmente vermos o passado como algo que já se foi, ele está sempre aqui, guiando o presente e nos soprando dicas sobre o futuro – inclusive essa é uma cosmovisão adotada por vários povos originários, a de um tempo interconectado.
No caso de Marisa, ela não queria abandonar suas recordações; apenas escolheu não as revisitar para não sentir, ainda que as sentisse o tempo todo. Em toda a sua imperfeição humana, buscou na arqueologia uma forma de permanecer unida ao que veio antes, de se sentir segura nas histórias e objetos, mesmo que não fossem os seus. Mas como nada fica escondido para sempre, tanto que de tempos em tempos vemos notícias sobre coisas sendo redescobertas, chegaria o momento em que ela também precisaria remover a terra para se deixar ver em todas as suas camadas. E aqui essa questão surge ligada a dois pontos significativos: o vínculo da ancestralidade feminina com a natureza; a terra como local seguro para o corpo e as memórias da mulher, e também a importância dos amigos que fazemos ao longo da vida e que nos ajudam a cavar quando preciso. O tempo de Marisa reencontrar sua própria história chega, mas ela só tem forças para fazer isso porque tem o apoio fundamental de Décio. O acolhimento e a sinceridade dele ajudam Marisa a se fortalecer para enfrentar o desafio de se aceitar fragmentada.
Como estudiosa dos temas da memória e da história oral, penso que esse é um livro que busca convidar o leitor a escutar os sons do mundo. Na trama, o pássaro verde funciona como guia, auxiliando no despertar de Marisa, mas existem tantas outras maneiras de ouvirmos o cantar da vida para olharmos para dentro de nós. Espero que, de alguma maneira, essa leitura seja capaz de ressoar nos leitores.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“Todo o resto é poesia”: em alto e bom som, uma obra que concilia tango e samba entre um brasileiro e uma argentina

Gastar saliva, gostar da língua, navegar noutra pátria. Brasil e Argentina. Diabruras do futebol, paixões literárias por Borges e Julio Cortázar. Levar um pombo-correio para una hermana com uma carta — “te conheci num estádio de futebol entre times daqui e daí”. A língua não fere rasuras de amor, porque fissuras sobre outra chica, outra hermosa, cabem no repertório poético de Israel Pinheiro, autor pernambucano do ótimo “Todo o resto é poesia” (Litteralux, 2026). Bagagem cultural e nada fiscal, bota pano de fundo e cinema para relações nada diplomáticas entre vizinhos sul-americanos. Claro, o espanhol e o português dão dribles e fazem embaixadas no portunhol musical. Israel faz uma prosódia epopeica entre casais: um homem brasileiro e uma mulher argentina, com Sabato no sábado bebendo vinho, com Pelé e Maradona numa rivalidade histórica e descomunal. Versos nos Andes, andarilho errante pela diferenças de som e melodia no hispânico, no histórico, no português luso daqui — este livro é uma viagem, pronta para embarcar num transatlântico do amor. [Fernando Andrade]
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Feita esta apresentação poética, vamos agora à entrevista com o autor.

Sobre o autor Fernando Andrade: Adotando uma metáfora futebolística, neste livro sua poética atua como um meio-campista criativo: passes curtos, versos concisos, tabelas pelas quais diálogos entre Brasil e Argentina se coadunam numa relação gramatical e romântica. Ida e volta — parece jogo de libertadores. Nesta ciranda entre o espanhol e o português um casal se conhece e se perfaz em fragmentos de um discurso amoroso. Fale um pouco sobre estas questões.
Israel Pinheiro: Primeiro, se você me permite, eu gostaria de apresentar um breve preâmbulo que talvez ofereça um pouco mais de contexto às minhas respostas. As escolhas que eu fiz neste livro refletem de alguma maneira o modo como eu apreendo a poesia contemporânea, pelo menos aquela que chega até mim. Eu vejo a poesia hoje como o gênero por excelência do luto, do trauma, da dessemelhança, da reivindicação. Eu pessoalmente endosso todos estes temas e acredito que eles são da quintessência da poesia desde sempre, apesar de acreditar que experiência pandêmica produziu uma espécie de hiperfoco coletivo que parece ser muito próprio da nossa época. E o meu livro caminha na direção oposta, não com pretensões de marcar pontos de inflexão, mas como um processo orgânico, que expressa a minha convicção estética de que a poesia também é o lugar da celebração das descobertas felizes e dos bons afetos correspondidos. Talvez seja essa a única afirmação que eu faço com este livro. Tenho a plena consciência de que não sou o único, mas acho importante assinalar à qual tradição me filio. Antes de adentrar propriamente nas respostas, eu quero saudar a acuidade deste escrutínio. Que pergunta formidável. Eu tenho apenas uma aspiração bem definida para este livro: que ele seja um contraponto elegante e arejado às tensões, reais e míticas, entre Brasil e Argentina. As evocações futebolísticas, gramaticais, românticas e idiomáticas, no livro, servem ao propósito do distensionamento. Gosto de imaginar este casal como uma metáfora de tudo que as duas nações podem ser e construir em comunhão. Admito que a ideia de partida de Libertadores me fascina, e ela espelha a relação Brasil-Argentina no seu estado mais bruto — o papel da poesia é propor refinamentos. Ainda no âmbito das metáforas futebolísticas, as tabelas com a sociedade argentina me interessam vivamente. Tabelar com seu lirismo, seu cinema, música e literatura é sempre um privilégio. O papel de meio-campista nesta sugestão é para mim uma função bastante honrosa e faz jus à singela mediação cultural que o livro realiza. Recebo essa camisa com muita alegria.

Conheça a obra F.A.: A língua escrita e falada no seu livro é pormenorizada em processos de jogos com palavras, aspectos lúdicos do som e da significação. Como o amor do casal metaforiza as interioridades da linguagem sensorial e polissêmica da sua poética? Como relacionou a língua, a geografia e, sobretudo, a afetividade amorosa entre um brasileiro e uma argentina?
I.P.: Na minha experiência, o amor entre duas pessoas que não falam o mesmo idioma emula o processo poético, no meu caso eu diria até que o possibilitou. A experimentação semântica é permanente, e o caminho é permeado de tentativas e erros. O segredo é persistir até o ponto em que pequenos equívocos não precipitam colapsos e pequenos êxitos produzem arrebatamentos. Como vivo o amor, eu vivo a poesia.

Leia amostra grátis F.A.: Para além de uma obra de poesia, seu livro pode ser considerado um estudo cultural sul-americano. Semelhanças na literatura, rivalidades no esporte, ludismo nas diferenças entre as prosódias dos idiomas português e hispânico. Fale a respeito desses pontos de encontro.
I.P.: Sempre me incomodou bastante a relativização da latinidade do povo brasileiro, que às vezes se manifesta em esquecimentos deliberados em certas listas de países latinos. Esse é um tema que sempre me intrigou. Acredito que a diferença idiomática conta, mas não explica tudo. Eu reconheço que o nosso diálogo cultural com o continente é muito aquém do que poderia ser — e não podemos nunca nos conformar com isso —, mas a nossa latinidade é indubitável. Os elementos constitutivos dos meus influxos poéticos são também a minha latinidade. Minha poesia atesta meu lugar de latino-americano.
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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
Breve entrevista com o escritor Theo G. Alves – por Fernando Andrade

Fernando Andrade: Nas duas narrativas do seu livro, a palavra geografia denota um sentido espacial, mas sua linguagem se envereda por uma poética da solidão. Uma voz cética nas duas personagens sobre o mundo ou universo social (na segunda, mais). Queria que você me falasse mais sobre a questão do abandono em sua obra.
Theo G. Alves: A geografia de que meu livro fala congrega essa geografia espacial com a metáfora dos caminhos que seus personagens/narradores trilham por suas vidas profundamente marcadas por toda a sorte de abandonos. E o mundo como elas, as personagens, e eu o vemos é um lugar onde os abandonos ajudam a compor os destinos, marcados por perdas, esquecimentos, solidões. Somos as sobras do que nos falta. Perceba que os dois narradores-personagens são frutos de diferentes experiências de perdas: o abandono de ter sido deixada como pagamento de uma dívida ou a perda de uma criança no meio de uma procissão, que é a última metáfora sobre estar sozinho mesmo cercado por milhares de pessoas. É possível dizer que os narradores são frutos desse abandono de todos os dias, assim como cada um de nós também o é.
F.A.: Na narrativa do filho que procura a avó desaparecida, há questões sobre a incomunicabilidade humana entre pessoas tão próximas. Mesmo em deslocamento há uma inaptidão do personagem em fluir num destino-ação — como se ele tivesse paralisado emocionalmente. Comente a respeito.
T. G. A.: Na verdade, os dois narradores-personagens são os únicos em movimento no livro. Todos os outros personagens aparecem estáticos, quase como a imagem congelada em uma fotografia, enquanto os dois narradores estão movendo-se diante das situações de suas vidas. A única coisa a fazer diante da tragédia e do abandono é continuar em movimento, mesmo que sob o efeito de medicamentos, mesmo sob o peso do esquecer-se contínuo de uma doença como Alzheimer, tanto que as duas histórias que o livro conta convergem em um arco para um final em movimento.
F.A.: O ambiente rural da segunda narrativa traz os arquétipos deste universo, precariedade das relações pessoais-sociais, machismo arraigado na terra, (signo de propriedade). A narradora tem um ceticismo com relação ao entorno dela. O que você pode acrescentar a essa observação?
T. G. A.: Salvina é uma mulher forjada nesse espaço e através das relações que o preenchem. Ela é uma mulher, como muitas, construída para o silêncio, para a dor, para a doação completa e abnegada, no entanto há nela uma ousadia que faz com que as verdades absolutas em seu entorno sejam, pelo menos, trincadas. A única força a tolhê-la verdadeiramente mais forte que ela é a doença, no mais Salvina lida com o mundo da única maneira possível: vivendo-o.
Theo G. Alves
Theo G. Alves nasceu em 1980, em Natal, mas cresceu em Currais Novos e mora em Santa Cruz, no interior potiguar. Premiado em concursos nacionais e regionais por sua prosa e poesia, publicou, entre outros, os livros “Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis”, “Doce Azedo Amaro” e “Inventário de Tão Pouco”, todos de poesia; “Por que Não Enterramos o Cão?”, de contos; e “A Cartomante que Adivinha O Presente” e “Peço Desculpas por esta Crônica (e por outras)”, de crônicas”. Publicou ainda os romances “Barreiro das Almas” e “Deus me Perdoe por Quem Eu Sou”. Theo continua escrevendo, entre silêncio e barulho, por acreditar na palavra como caminho.
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“Esse gato não é meu”: livro encanta seus leitores com seu charme felino

O poema abana a cauda, alisa os bigodes, mia nos versos mais musicais. O poema está para entrelinhas assim como felino está para sua liberdade. Ambos parecem paradoxais, o poema tem lá sua voz, escuta de quem o lê. O gato silencia sílabas misteriosas, desaparece quando alguém o vê.
Fiquei muito curioso com “Esse gato não é meu”, livro da poeta Daniela Coelho, publicado pela Litteralux. Os versos ferinos da autora nos convidam à roça para poetar com os bichos. Com certo ar de ironia, a coletânea não desafina nenhuma vez. Com sua malícia, os gatos saltimbancos pulam da página, policiando o politicamente correto, fazendo do leitor seu confidente. O livro é uma delícia, tem uma relação metalinguística, e animalística, coisa difícil de se ver na poética de hoje.

Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são fonemas. -
Entrevista com o escritor Eduardo Baccarin-Costa – por Fernando Andrade

Fernando Andrade: Vi uma certa influência dos romances do escritor americano Philip Roth no seu romance. Que semelhanças e diferenças há entre ele e você na estrutura do enredo. Comente.
Eduardo Baccarin-Costa: É proposital. Quando comecei a construir o personagem Neri Reis pensei em um poeta que passasse por uma transição profunda na mente. De libertário para alguém mais comedido, tranquilo, sincero, transparente. Alguém continuasse verdadeiro nos seus versos, mas com um coração disposto a amar no sentido mais completo da palavra. Escrevi Liberdade Condicional (Editora Leia Livros, 2022), quando apresento o poeta e seus amigos. A ideia, desde o começo era uma trilogia ou tetralogia, e aí precisava de histórias. Antes mesmo de lançar o primeiro, tive contato com O Animal Agonizante. Já tinha lido O Professor do Desejo, e fiquei bem impactado com David Kepesh. Um canalha no pior sentido do termo, na minha opinião.
A segunda parte da trilogia, A menina e o poeta (Litteralux, 2025) mostra o início dessa transição no poeta, e aí já tinha o rumo que pretendia dar a Neri. Por isso, o transformei em professor e coloquei o debate que Roth discute com sarcasmo por meio de Kepesh. Aí surge o canalha Neri Reis, com o mesmo caráter do personagem do autor estadunidense. Porém, desde que comecei a escrever romances, tenho a pretensão de dar um final positivo para meus personagens. Mostrar que o ser humano tem jeito sim. Distopia é realidade demais pro meu gosto. A literatura pode fazer o homem sonhar com um mundo melhor, além da realidade. A utopia é necessária e sempre bem-vinda. Por isso em Eu Con-verso, livro que encerra a história de Neri Reis, você vai perceber que a influência começou e acabou aqui mesmo.
FA: A religião católica entra muito forte na segunda parte do seu romance. A redenção do seu personagem passa por esta transformação em corpo e alma. Comente.
EBC: Interessante sua leitura a respeito da segunda parte do romance. Em nenhum momento pensei em fazer uma história com aspecto denominacional. Eu, inclusive, nem sou católico. Fui, um dia. Hoje, não mais. Minha intenção é mostrar que existe Um caminho. Sou cristão e creio que Nesse caminho há redenção, rendição e novas oportunidades. Sem levantar bandeira para A ou B. A Rendição do Canalha é um livro definido esteticamente como Ficção Cristã, da qual fazem parte romances como As crônicas de Nárnia e Orgulho e Preconceito, e dentro da proposta dessa estética literária está a visão de que o homem pode e muda sua história quando alinhado ao Verdadeiro amor. (Nota. As caixas altas não são acaso. Marcam de quem estou falando, sem dizer o nome de Jesus diretamente).
Por isso, a minha intenção foi falar desse Amor que transforma, cura e dá vida em abundância, sem mencionar igreja ou religião A ou B. Particularmente tenho a minha e posso falar sem problemas dela, porém, literariamente minhas histórias não estão restritas a isso, eu acho. Sua leitura vai fazer eu revisar algumas coisas nos novos romances que virão. Obrigado.
FA: Seu trabalho com a linguagem é bem cuidadoso, a carpintaria parece que foi muito burilada até chegar às versões finais. Fale um pouco disso.
EBC: Por incrível que pareça não é tão burilado assim. Eu, por exemplo, escrevo sem nenhum tipo de revisão. A não ser aquelas gritantes, como erros de ortografia (sim, autor também comete desvios no afã de contar sua história) concordância, e as gralhas que atravancam a progressão textual. Uma revisão mais profunda faço depois, sozinho. Antes de mandar para o aval das editoras, faço uma leitura crítica com Josy Galvão, minha esposa, que é especialista em lógica, e me auxilia na amarração da história como um todo. E sempre dou uma repassada quando vem para a última revisão antes de ir para gráfica. Eu procuro, nesse processo, burilar a palavra para que o texto fique agradável e que seja denso apenas no plano de conteúdo, mas não no de linguagem. Espero ter conseguido isso em A RENDIÇÃO DO CANALHA.
Eduardo Baccarin-Costa
Doutor em Letras pela UEL, tem 17 livros publicados no Brasil, e um, em espanhol, na Argentina. Foi vice-campeão do concurso Poesia do Cinquentenário de Londrina; venceu por quatro anos consecutivos o concurso literário nacional – categoria prosa – promovido pela Editora Leia Livros; primeiro colocado no Concurso Outras Palavras (2020), na categoria romance, promovido pela Secretaria de Cultura do Paraná; Vice-Campeão do Prêmio Uirapuru (2021) na categoria dramaturgia; Finalista do Prêmio Paraná de Literatura (2023) na categoria romance, promovido pela Biblioteca Pública do Paraná; Vice-Campeão do V Concurso Literário de Nova Xavantina/MT (2024), na categoria romance. -
Entrevista com o poeta e escritor Francisco Perna Filho – por Fernando Andrade

Fernando Andrade: 1-) Os olhos da gente não cometem deslizes de verossimilhança, mas na sua ficção é outro sentido que guia seus textos, o ouvido interno, aquele que pode não dar certeza ao som, às palavras e para fechar os sentidos. Alucinações auditivas não é caso de loucura, mas do estranho, do insólito que brota do real (ficção representada).
Francisco Perna Filho: A percepção poética não se limita ao olhar denotativo e objetivo, próprio de uma visão mecânica da realidade. Ao contrário, ela se constrói a partir de uma dimensão transcendente, capaz de reorganizar e ressignificar os elementos do mundo. Nesse processo, o poeta opera por meio da fragmentação e do rearranjo, instaurando uma cosmovisão em que seres inanimados adquirem vitalidade, entidades transcendentes assumem características humanas e o diálogo entre deuses e homens se torna possível. Trata-se de uma percepção ampliada, que mobiliza não apenas a visão, mas também outros sentidos, o tato, a escuta, a corporeidade, como instrumentos de apreensão estética.
Essa experiência revela uma simbiose entre natureza e literatura, em que o real se abre para o insólito e o extraordinário. A poesia, nesse contexto, não se restringe às convenções formais ou às categorias racionais, mas transcende-as, instaurando um espaço de significação em que o estranho e o ficcional emergem como prolongamentos do próprio real.
2-) O homem e sua representação simbólica (carro) de status e poder, no conto “Combustastes”, você humaniza ou dota veículos de afecções humanas. E seu texto é tão poético, que torna um conto sublimático da relação capital, imagética, de forma surpreendente. Comente.
F. P. F.: – Desde muito tempo, os homens recorreram às fábulas e parábolas como formas de representação simbólica do real, deslocando-o para um plano metafórico, poético e alegórico. Esse recurso literário permite que o ficcional se configure como espaço de reflexão crítica, capaz de se distanciar dos fatos corriqueiros e do cotidiano para, em seguida, reaproximá-los sob uma nova perspectiva interpretativa. A literatura, nesse sentido, cumpre inicialmente uma função lúdica, de encantamento e imaginação, mas também se afirma como linguagem histórica, filosófica e social, instaurando um campo de significação que transcende o mero entretenimento.
O diálogo com seres inanimados, máquinas e animais, presente em minha escrita, insere-se nessa tradição de atribuir afecções humanas a objetos e entidades não humanas. No conto “Combustastes”, por exemplo, a humanização dos veículos não se limita a um recurso estilístico, mas se torna estratégia crítica para problematizar símbolos de status e poder, revelando o caráter imagético e capitalista que permeia tais representações. Se observado com atenção, esse procedimento estabelece, ainda que de forma distante, uma relação intertextual com José J. Veiga em A Hora dos Ruminantes, obra que também explora o insólito e o estranhamento como meios de tensionar o cotidiano e expor forças simbólicas que atravessam a vida social. Essa aproximação evidencia como a literatura brasileira dialoga com o insólito para ampliar a consciência crítica sobre o real, sem necessidade de recorrer a revelações explícitas ou spoilers.
3-) Crer no texto não é mesmo que ter certa fé, crença em certo personagem que não come porcos, por questões dogmáticas, a relação do leitor com sua leitura precisa de certa suspensão da credibilidade e de afirmação. Comente de maneira geral seu livro como um todo.
F. P. F.: Todo texto nasce de um pretexto, insere-se em um contexto e carrega uma intencionalidade. Nesse sentido, a leitura exige do receptor não apenas atenção ao que é explicitado, mas também ao que permanece velado. O título “Sob o véu” já sugere essa dimensão de ocultamento e revelação: há sempre algo que não se mostra por completo, instaurando-se nas lacunas, nos silêncios, nos esquecimentos e no não dito. A obra, portanto, articula o visível e o abscôndito, o estranhamento e a familiaridade, configurando-se como espaço de tensão entre o que é revelado e o que se mantém incógnito.
Os doze contos que compõem o livro se aproximam não apenas pela materialidade das páginas ou pela plataforma em que estão inseridos, mas sobretudo pela unidade temática. Ainda que partam de situações aparentemente absurdas, revelam uma crítica à miséria humana, ao esfacelamento do ser e às perdas que marcam a existência. Contudo, ao mesmo tempo, instauram uma dimensão de esperança e reconstrução, pois a literatura, enquanto linguagem, não se limita ao papel lúdico, mas também se afirma como prática social e filosófica. Nesse processo, os objetos e as coisas deixam de ser meros elementos materiais: tornam-se portadores de significados, de “auras” que aspiram à revelação, aguardando o tempo e a oportunidade para emergir.
Assim, “Sob o véu” propõe ao leitor uma necessária suspensão da credibilidade, não no sentido de descrença, mas como abertura para o insólito e para o simbólico. A obra convida à reflexão sobre a condição humana, mostrando que ninguém escapa de ser o que é, mesmo quando esse ser se transforma em outro, seja por identificação, seja por repulsa. Trata-se, portanto, de um livro que articula crítica social, dimensão filosófica e potência estética, instaurando um espaço de leitura que exige tanto fé poética quanto consciência crítica.

Francisco Perna Filho é poeta, contista e crítico literário. É mestre e doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás, com pesquisas dedicadas à obra de Manoel de Barros, no mestrado, e à narrativa de Autran Dourado, no doutorado. Publicou ensaios e artigos críticos em diversas revistas acadêmicas e, em 2014, foi um dos vencedores do Prêmio Off Flip de Literatura, na categoria poesia. Teve poemas publicados na revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional. É natural de Miracema do Tocantins.
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O ANONIMATO DOS PERSONAGENS EM “VIDAS SEM NOME”- por Luiz Otávio Oliani

“Vidas sem nome” (Editora Litteralux, 2025) é o quinto livro de prosa de Wilson Gorj, romancista, contista e editor já com lastro no meio literário.
O volume de contos possui uma característica latente já no título, pois existe um anonimato dos personagens. Pouco importa os nomes que possuem, mas sim as histórias, os causos e as situações vivenciadas por eles, pois tudo possui um pé na vida cotidiana, mas não passa de literatura da melhor qualidade.
Na orelha do livro, o também contista Mário Baggio inicia a apresentação, ao exaltar o vigor literário do miniconto na literatura. Evoca Monterroso e Heminguay, alocando Gorj neste grupo. Expõe que “A aparente simplicidade dos textos esconde uma arquitetura sofisticada.” Conclui que a vida passa pelas 58 narrativas breves, com um passeio entre o que provoca o surreal, o drama e o humor.
Para Baggio, “a concisão não é uma limitação, mas um recurso expressivo de alta potência, um exercício de síntese literária.”

Na quarta capa, a escritora e crítica literária Alexandra Vieira de Almeida cita que “o autor brinca com a inevitabilidade dos destinos” em textos que mergulham em “cenas peculiares, gestos de corpos sem rostos”. Dessa forma, tudo justifica o título da obra e o anonimato dos personagens que são seres de carne e osso transpirando por aí.
Em virtude da impossibilidade de análise de todo o conjunto de textos do livro, seguem impressões sobre vários textos que dialogam com as falas de Alexandra e Baggio.
“O sofá”, p.11, é a metáfora da morte, já que o móvel da casa foi fotografado em diversos anos e, cada vez que a imagem era feita, mais lugares vazios havia ali.
Pujante, o texto traz reflexões existenciais sobre a finitude e encanta, com desfecho surpreendente:
“Agora a câmera é outra, moderna, sem filme. Também haverão de achar estranho que alguém queira imprimir a fotografia de um sofá tão velho…. e vazio.”
“O novo prefeito”, p.17, é um texto caricatural de todo político. Não à toa, Wilson Gorj foi muito feliz na escolha do título da obra e da nomeação dos personagens que existem na vida real, mas, têm nomes irrelevantes, aqui, na ficção.
Em “Olhos azuis”, p.19, uma cigana acerta a previsão ao dizer a um homem que outro homem apareceria no caminho dele, desejando um coração. Veio um insulto, pois o cliente era não era homossexual e se irritou com a mulher. Mas, com a morte do protagonista e a doação de órgãos feita pela família,”(…) um homem alto e louro esperava pelo seu coração.”
Em “Lataria nova”, p.22, uma mulher se vê traída, quando o companheiro trocou o carango, um velho automóvel, por um carro mais sofisticado. Mas a mudança também abalou o casamento e amante passou ao lugar de esposa.
A fala final da personagem traída resume tudo: “A mãe não falava, mas no íntimo culpava os filhos: “éramos bem mais felizes com a nossa lata velha…”
As humilhações de que a mulher fora vítima foram tantas que, em “Laranja”, p.27, ela decide se vingar do companheiro, matando-o, depois de lhe ele lhe pedir uma laranja de sobremesa.
Wilson Gorj prende a atenção do leitor com uma ironia fina, meio machadiana.
Contar uma boa história não é fácil. Produzir o susto em um conto e deixar o leitor perdido ou surpreso são atividades mais difíceis. E é o que acontece com “Privada”,p.29, quando, em um banheiro de uma repartição pública, num homem fica entalado em um vaso durante uma confraternização. É picado por um bicho nas nádegas e, ao final, quando arrombaram a porta, o homem gordo tinha desaparecido, deixando apenas, “duas solas de borracha.”
Em “Enciclopédias”, p.31, há uma crítica mordaz à situação das enciclopédias, muitas vezes doadas, em virtude da tecnologia, sobretudo do Google.
Se “O ninho”, p.37, tem realismo fantástico, em “Ferrorama”, p.45, observamos emoção e encantamento quando um homem, já idoso e avô, ganha um presente natalino desejado desde a infância.
O tratador se vingou do jacaré que abocanhou a mão dele junto a um pedaço de carne. Eis o tema de “O último insulto”, p.43
“Conto de Natal”, p.47, é para assustar, pois um menino de oito anos que descobrira a verdade sobre Papai Noel, foi até um shopping, todo cheio de ranço, e pediu um revólver ao bom velhinho. O final é surpreendente.
“Os louros da fama”, p. 66, mostra a decepção de um escritor na capital que se julgava reconhecido pela obra de cinco livros publicados. Mas, se entristece ao retornar ao município onde nascera para, após longa viagem proposta pela ex-professora de Português, para participar da inauguração de uma biblioteca local com o nome dele. Daí, a reflexão: o que seria a consagração?
“Língua afiada”, p. 80, mostra os riscos a que um homem se predispõe quando sai à noite, em busca de uma mulher, e termina a madrugada, na casa dela, preso com algemas, amordaçado, sonhando com o sexo, quando a companheira terminou com um estilete em mãos.
Se o homem expulsa uma gata de casa em “Crias”, p.82, ficando a companheira grávida, ele tentou a todo custo viver a família apenas com a mulher e o recém-nascido. Mas miados dos filhotinhos foram a herança do maldito felino.
Em “Ladrões”, p.90, um poeta é assaltado e tem um final trágico. O que mostra a verve autoral capaz de “Raiva”, p.98, provoca reflexão: o que fazer quando uma cidadezinha à beira-mar fuzilou cães que teriam passado raiva aos humanos? E se o motivo da ação humana não fosse o aumento de novas vítimas no hospital acometidas com sintomas de raiva?
Já “A crosta da ferida”, p.100, com epígrafe do miniconto mais famoso de Augusto Monterroso serve para uma reflexão: até que ponto o bullying pode ficar adormecido por anos no peito de um estudante que reencontra, anos depois, o agressor, homem já feito, como ele, para se vingar? Não à toa, a epígrafe destacou o dinossauro, ora metamorfoseado no sentimento de violência expresso no texto.
A falta de domínio da mente mostra um surfista atormentado por um tubarão que lhe cravou “Dentes na carne”,p.112., e assombrar o leitor.
Em “Morfeu”, p.114, a ironia prevalece, pois o personagem que desconhece a expressão “entregar-se a Morfeu” e achou que a companheira o traía.
Humor ácido provoca reflexão em “Limpeza”, p.127, quando a diarista “limpa” a casa do patrão no pronto dia, deixando-a cheirosa, mas sem a TV de LED e o PlayStation 5.
Após encontrar a mulher da vida dele, o homem saiu do baile acompanhado. Depois da transa no motel, ela, apressada, disse que precisava ir. Ele perguntou se tinha feito algo errado. Ela preparou o terreno e disse que tudo era daquela horas, devido ao trabalho. Por fim, deu-lhe o golpe de misericórdia, ao dizer:
“— Falando nisso, meu bem… você me deve 200 reais”.
Era “O preço do amor”, p.138.
Já em “A poesia da vida”, p. 144, um poeta usa sua verve para romantizar as situações escabrosas que vê, transformando-as em momentos doces, mas é interrompido pelo senhorio que ameaça bater nele, caso não pague o aluguel.
Por todo o exposto, vale muito conhecer as vidas e as histórias desses anônimos que circulam por aí.

Clique na imagem! *LUIZ OTÁVIO OLIANI é professor e escritor. Atual Diretor de Comunicação Social da APPERJ. Publicou 25 livros, incluindo poesia, conto, crônica, teatro, literatura infantojuvenil, crítica literária e ensaios. Em 2025, recebeu o Troféu Arte em Movimento; recebeu o Prêmio Juçara Valverde na categoria LIVRO DO ANO com a obra “Eu me sinto um criminoso e outras crônicas”, que também recebeu “Moção de Aplauso” da ATL, Academia Teixeirense de Letras, Bahia.







