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  •  Um livro em três: nova obra de Cleber Pacheco compila três ficções que revivam a importância do sagrado e da linguagem poética

     Um livro em três: nova obra de Cleber Pacheco compila três ficções que revivam a importância do sagrado e da linguagem poética

    Em seus ótimos livros, a escrita de Cleber Pacheco vem carregada de alta simbologia religiosa. A cada obra ele aprimora o estilo e, sobretudo, a versão do que eu chamo de liturgia da santidade. Em “Trilogia da Transfiguração”, seu novo livro publicado pela Litteralux,  a parábola vem travestida de transgressão do conservadorismo do ato da sacristia católica.  Pecado e culpa,  crime e castigo,  são dualidades que transformam  a pureza do ato humano em loucura,  medo e  revolta.  Cleber nos absorve com sua linguagem abrasiva, em alta voltagem poética, desestruturando suas personagens em arquétipos míticos.  O teatro parece ser uma voz possível, onde cenário, ação e diálogo se entrosam e se relacionam mediunicamente.

    O autor nos concedeu uma rápida entrevista. Leiam abaixo.

    Fernando Andrade

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    Fernando Andrade:  Sua linguagem é cada vez mais sugestiva e alusiva.  Até penso que você já tem repertório de estilo que marcam suas histórias. Como você chegou a esta Trilogia?

    Cleber Pacheco: Eu tinha esboços de duas histórias quando me veio a ideia de uma terceira. Foi só aí que tive a percepção de que elas possuíam diversos elementos em comum.  A partir disso nasceu a ideia de uma trilogia que abordasse questões como a perda da noção do sagrado, principalmente a partir da modernidade. Vivemos num mundo incapaz de reconhecer o sublime, do inefável, do imponderável. Esse afastamento do âmbito do sagrado já pode ser sentido em “Elegias de Duíno”, de Rilke. E, por diversas razões, a  vida, no âmbito contemporâneo, é vista como um absurdo sem sentido, fruto do acaso. Se lermos os filósofos existencialistas ou um autor tão significativo quando Samuel Beckett, encontraremos esse sentimento de absurdo, de vazio preenchido com formas que, por sua vez, também são vazias. Senti, então, a necessidade de resgatar o místico e fazer uma outra abordagem do trágico, algo que está presente, de outro modo, no meu livro “O Terceiro Dia”.  A tragédia é o triunfo da forma e faz uma profunda reflexão da condição humana com um estilo elevado. A Literatura é a arte da palavra e tento trazer isso à tona. Atualmente,  muitos livros desenvolvem cada vez mais, uma linguagem fácil e denotativa, sem exigir muito esforço por parte do leitor. O empobrecimento da linguagem é um fato contemporâneo, algo perigoso, que embota o pensamento e a reflexão. Daí a necessidade de usarmos todos os recursos que a linguagem nos oferece para causar estranhamento, como diriam os teóricos russos.

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    [F.A.]:  Você trata de forma quase muito simbólica o religioso em sua literatura. A santidade é um campo metafórico recorrente em seus endereços. Comente a respeito.

    [C.P.]: Como tratei anteriormente, vivemos uma era caótica, em que nada mais é sagrado. Tudo se transforma em paródia. É a era do simulacro. Não mais importa a essência: o que conta é apenas a aparência. A santidade abordada em minhas histórias revelam praticamente existências de outsiders, seres que não se encaixam nos padrões vigentes, pessoas que vivem à margem, mas que, por isso mesmo, tornam-se provocadoras de reações ambíguas, entre a adoração e a rejeição, o fascínio pela Beleza e o ódio que ela desperta. Pessoas tocadas pela Presença do Inefável podem ser perturbadoras e infringem as “normas” do imediatismo, do exibicionismo e da busca desenfreada pela satisfação instantânea dos instintos e das sensações, pois acabam gerando mais insatisfação. Manter o homem insatisfeito é a regra adotada pelas manipulações e pelo consumismo. As sensações são necessárias, mas, ao mesmo tempo, são a parte mais pobre das nossas experiências. É fundamental irmos além disso. É preciso que  sejamos capazes de refletir e que alcancemos o conhecimento e, além dele, a sabedoria.

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    [F.A.]: Crime e castigo… Inevitável não pensar em Dostoievski. Ou em outros escritores russos a quem são caros os temas religiosos. Embora você parta bem para o litúrgico, seus livros são quase uma missa literária.

    [C.P.]: Sim, há uma aspecto ritual e litúrgico nas histórias da “Trilogia da Transfiguração”. Os ritos são necessários e, no entanto, cada vez mais raros. A perda de sentido de tudo o que nos cerca gera violência, agressividade, hostilidade e desconfiança. No mundo Antigo, os ritos preparavam as comunidades para novas etapas da vida, eram plenos de significado e força. Com o tempo foram desaparecendo ou se tornaram apenas repetições destituídas de real valor. Mais uma vez resgato antigos modelos, não por saudosismo ou nostalgia ingênua, mas para tornar mais palpável o aspecto do Mistério que é nossa existência . Reverenciar o Mistério e respeitá-lo é um modo de reconhecer quem somos e dar importância àquilo que realmente importa: nossa essência. Os céticos diriam que essa essência não existe. Discordo. O ser humano existe para desenvolver suas potencialidades e usá-las em benefício em benefício do Todo. O egoísmo, tão em voga hoje em dia, tornou o mundo doente. A “Trilogia” busca dar maior visibilidade ao invisível. O seu aspecto litúrgico foi a forma escolhida para torná-lo mais evidente.

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    Fernando Andrade, crítico literário.
    Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

  •  “Sinto muito pelos quero-queros”, romance de estreia da autora Rafaela Dilly Kich, nos abre as janelas do coração para uma história transformadora

     “Sinto muito pelos quero-queros”, romance de estreia da autora Rafaela Dilly Kich, nos abre as janelas do coração para uma história transformadora

    O nascimento da escrita tem início quando a pulsão sexual se ativa no corpo de alguém.  Não se trata de roteiro de quem escreve isto ou aquilo,  mas de inconformidade diante do mais íntimo sentimento. A escrita é um labor de si, um trabalho manual com suas partes mais inacessíveis e pudendas. Quando nos aproximamos do diário escrito, a linguagem faz toca e caverna do seu conteúdo mimético, e assim nos igualamos ao espelho que forma e deforma a imagem, o self.  No livro da escritora Rafaela Dilly Kich chamado sutilmente de “Sinto muito pelos quero-queros”, a autora nos segreda a vida de Lélia, moça em formação, cuja sexualidade paira fluída entre o seu mesmo gênero feminino. Dúvidas, inquietas indagações, percorrem o vazio da personagem, em busca talvez da escrita ou da poesia,  mas, sobretudo, da aceitação ante a seu desejo mais verdadeiro. Rafaela escreve quase analiticamente, como uma sessão terapêutica entre a sedução do seu texto, primorosamente elaborado, e o pano de fundo de um possível futuro político em que o país é tomado pela horrível extrema-direita. Nesta dicotomia entre o prazer do texto e uma janela para um porvir desastroso, o leitor encontra uma excelente  autora. Ela nos concedeu a entrevista abaixo. Boa leitura!

    Fernando Andrade

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    Fernando Andrade:  Talvez o único lugar onde desejo pode escorrer pelo corpo e se propagar até suas extremidades deve ser a escrita. Não há pulsão mais ativa que a mediação da linguagem pela escrita. Estou certo?

    Rafaela Dilly Kich: Ser humano pressupõe, penso, lidar com inúmeras pulsões diárias. Bioquímicas, conscientes, inconscientes. Elas podem escorrer pela palavra falada, pelo gesto, pelo ato sexual. Também pela escrita. Há algo de erótico no ato de escrever, talvez por exprimir pulsões internas muito íntimas por meio de signos, letras. Até o próprio encontro do lápis ou caneta com o papel. É uma explosão, de certa forma, mas pode também ser muito sutil. Violenta e acolhedora. Me interessa muito, para além de escrever, refletir sobre a escrita. Annie Ernaux, Marguerite Duras, Virginia Woolf são precursoras que me inspiraram nesse sentido. Não sei formular por completo a questão ainda. Mas há algo de erótico na escrita. Ela encontra, revela, desestabiliza as placas tectônicas do nosso mundo. Apesar de ser uma tentativa do impossível.

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    [F.A.]: Sublinhar — chamar a responsabilidade para uma coisa, um objeto.  Sublimar — perenizar um tempo, um momento fugaz,   transformar uma coisa em outra, um ser em outro. Quem sabe, fantasia, imaginação.  Seu livro não sublinha, acho, ele sublima afecções, momentos, a vida.

    [R.D.K]: Muito interessante ver sua percepção. Esse é um ponto, sim: a escrita é uma sublimação. Há uma condição de desamparo estrutural no ser humano. Imagine, então, a fragilidade das relações entre nós. Como lidamos com isso? Se não me engano, Freud disse que a pessoa artista é aquela que sublima. Ou seja, transforma a experiência caótica do ser humano em outra coisa. Talvez um pouco menos violenta.

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    [F.A.]:    Eros e Thanatos,  pulsão de vida e pulsão de morte. Lelia se vê envolvida nestas duas cirandas de paradoxo.

    [R.D.K]: Então, são as cirandas da Lélia e de todas, todos, todes nós…viver é uma dança, na minha percepção, entre esses polos. Há também uma imensidão de fatores que podem atuar sobre eles com maior intensidade… questões estruturais, políticas, econômicas, culturais. Aí retorno para a escrita. Mas também a outras manifestações artísticas. Acho que elas — uma música, um livro — nos ajudam a lidar melhor com as pulsões autodestrutivas, a encontrar a subjetividade do outro. Nos conecta. Não é tudo, mas é alguma coisa. Pode nos salvar de alguns afogamentos.

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    Fernando Andrade, crítico literário.
    Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

  • “Inventário de um silêncio” cria narrativa histórica entre lados opostos, um fluxo de consciência política entre esquerda e direita

    “Inventário de um silêncio” cria narrativa histórica entre lados opostos, um fluxo de consciência política entre esquerda e direita

    O tempo não volta mais. Não podemos corrigi-lo. Se lembrarmos da nossa ditadura onde presos políticos foram torturados e mortos, pensar nisso pode ser bem controverso. A despeito dessa herança histórica, no presente temos que lidar com governos de extrema direita, a nível mundial, assumindo países com tradições democráticas.  No romance “Inventário de um silêncio” (Litteralux/Selo Auroras, 2026), da escritora Sandra Godinho,  dois irmãos duelam através de um jogo de consciências entre a responsabilidade histórica em face a um passado de barbárie. Um dos irmãos está desaparecido (do Brasil ou da vida?) e sua narrativa é construída por meio do fluxo de consciência, expondo seus pensamentos alinhados à frente progressista, frontalmente contrária à violência do estado. O outro, um empresário, desfruta de sua liberdade graças à submissão a uma política extremista, violenta. Sandra Godinho controla com pulso firme uma narrativa polifônica na qual vozes duelam entre a memória coletiva e o narcisismo capitalista, predatório.  Murilo e Joel são antípodas  de um tempo binário, feito de antagonismos que ainda vicejavam em nossos dias.

    Fernando Andrade

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    Leia abaixo a entrevista com a escritora Sandra Godinho.

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    Fernando Andrade: Polifonia. É esta palavra que vem aos me referir a seu romance. As vozes dos dois grandes personagens num quase duelo metafísico sobre desejo, liberdade, violência do Estado, colocam o leitor no meio deste embate. A proposta vai além da simples tomada de posição, seja qual for o lado político de seus personagens. Para onde aponta essa narrativa tão dialética?

    Sandra Godinho: Ou talvez seja o caso de se posicionar [risos]. Quando imaginei o personagem Murilo eu o vi como um homem clivado e atormentado pela culpa, um empresário bem sucedido e respeitado por todos, aproveitando as oportunidades proporcionadas pela vida sem pestanejar, mas fragilizado pelo remorso, a tal ponto que, a certa altura, ele alucina sobre o irmão ausente, projetando neste delírio aquilo que o atravessa e que o faz confrontar-se consigo, seu passado e seu presente. Como todo narrador em primeira pessoa, ele não é confiável. Cabe ao leitor inferir o que é, ou não, verdade; o que é, ou não, mau-caratismo e oportunismo. É ele falando a verdade ou o que ele internalizou como sendo verdade? O embate de Murilo é também o embate do leitor e, neste viés, cabe ao leitor se posicionar ao se pôr em seu lugar. Acho que é esta a grande sacada nesta construção.

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    [FA]: A presença física de Joel, desaparecido, parece ao leitor um corpo presente, vivo, tamanha a densidade do seu fluxo de consciência na história.  O que presenta esse personagem?

    [S.G.]: Esta era a intenção desde o princípio, um fluxo de consciência emocionalmente intenso, que pusesse o leitor dentro da mente perturbada de Murilo e, mesmo assim, o leitor fosse capaz de inferir e desvendar o que realmente se passou entre estes dois irmãos que se amavam e que, a certa altura, se separaram devido às diferentes escolhas que fizeram na vida, algo que também nos atravessa e que diz respeito a todos nós. Somos responsáveis pelas nossas escolhas, pelas decisões que tomamos, pelo que decidimos ignorar ou se importar.

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    [FA]: Se por um lado Joel fica preso à História, por lutar contra a ditadura, o irmão se mostra mais complacente, priorizando sua liberdade de conduta,  fingindo normalidade a tudo que se passa ao redor.  Vivemos ainda nesta dicotomia de lados opostos em nosso cenário político.

    [S.G.]: Ainda sentimos as consequências e os efeitos da ditadura nos dias atuais. Ainda há este embate raso entre “capitalistas” e “comunistas” quando o problema é bem mais profundo e complexo do que uma simples polarização de ideias ou de uma polarização partidária. O fato é que o sistema capitalista produz inúmeros ‘excluídos’, os marginalizados do sistema, e, para além do extremismo partidário, governantes, autoridades e políticos não sabem o que fazer com eles. Explorá-los? Escravizá-los? Matá-los? Encarcerá-los em novas prisões no meio da Amazônia? O fato é que o grande capital se concentra cada vez mais em menos mãos, que continuam explorando os recursos mundiais do planeta com vigor incessante. O fato é que isto faz explodir a miséria e a violência, além de exaurir o meio-ambiente.  Não nos esquecemos de Mariana nem de Brumadinho. Ou o afundamento do solo nos cinco bairros esvaziados às pressas na capital alagoana, o maior desastre em solo urbano do Brasil. Ou o afundamento da cidade de Kiruna, ao norte da Suécia, cujos moradores foram realocados porque corriam o risco de serem engolidos, consequência da exploração das minas de minério de ferro subterrâneas. O fato é que o oportunismo de poucos dita o destino de muitos. Portanto, a pergunta a ser feita é: até quando o grande capital passará por cima do bem-estar das pessoas, dos povoados, das nações? Então, retornando à sua observação, talvez seja, sim, o caso de nos posicionarmos tal qual os personagens Joel e Murilo, antes que não haja nem planeta nem humanidade.

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    Fernando Andrade, crítico literário.
    Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

  • “Gestos do nada”, livro que enaltece o processo criativo da palavra em signos poéticos

    “Gestos do nada”, livro que enaltece o processo criativo da palavra em signos poéticos

    Certa vez, um poeta me perguntou o que eu fazia naquele momento. Eu fiz uma ação: nada.  Estava escrevendo sobre o ato de criar (a palavra branca me parece uma página virgem). Estava pronto a nadificar meu discurso criativo.  Ao ler o novo livro de Geovane Fernandes Monteiro, Gestos do nada (Litteralux,2026) —  uma delícia de paradoxo poético —  veio-me a pergunta do poeta que estamos no marco zero de toda composição. Expondo de dentro para fora, Geovane faz da dor criativa uma questão espiritual com a catarse deste transe em que a palavra se torna sublimação estética do pensamento. Eis aqui um livro de pequenos gestos onde o corpo renasce para o voo da liberdade.

    Fernando Andrade

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    Abaixo, segue a entrevista com o autor.

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    Fernando Andrade: O gesto deve começar no corpo: temos a ideia do movimento. Já o nada alimenta a criação, fomenta a palavra: temos aqui a ideia de poesia, movimento da palavra. Não há melhor título para seu livro de poemas. Explique essa escolha.

    Geovane Fernandes Monteiro: Constitui um espaço inalcançável, necessário e relativamente compensatório. Didaticamente eu diria: Gestos = ação; nada = o que existe por não haver. Ou melhor, o que precisa de alcances, para novos nadas surgirem, a fim de não sufocar, não terminar em si mesmo. Cabe aqui um exemplo mais panorâmico: um grande terreno vazio é todo um nada. Quando se constrói casas, ruas, praças, … todos esses ‘corpos’, para abrigarem movimentos, passam a ocupar o terreno antes vazio, e agora novos vazios intransponíveis para que o bairro exista (o nada onipresente, generoso, acolhedor em sua natureza fecunda). De fato, o nada alimenta a criação, fomenta a palavra na sua natureza inatingivelmente trafegável. A lógica de um espaço ser ocupado é ser-lhe destinados novos distanciamentos, novas atmosferas. Assim o nada com seus gestos para a moral de “geografias demarcadas”; destarte, os Gestos do nada. Vale repetir, o título reflete o que inaugura o insuperável. Num sentido mais prático, Gestos do nada pode sugerir que a vida faz sentido durante a busca de sentidos. Do contrário, se a lógica (que mostra eu nunca desconsiderar o racional) fosse inteiramente atingida (O Nada), a vida padeceria à própria palavra final (Os gestos).

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    [FA]: Linguagem faz acesso ao incomunicável, como diria Beckett. O espaço do nada onde talvez a solidão se faça ausente. Aí verbo se cria. Do nada fez-se o universo humano. No que este meu comentário dialoga com seu livro? 

    [GFM]: Seus felizes comentários mais norteiam do que indagam. O acesso ao incomunicável talvez seja meu projeto literário neste livro. Mas não se trata de absurdo, a não ser o de um Beckett, de um Kafka ou de um José J. Veiga, por exemplo, no sentido de alcances no que não se diz, no sobrenatural que não passa da rotina a despertar devaneios reveladores do cotidiano real, literal e literalmente despercebido ou negligenciado pelos interesses imediatos na vida. Por essa razão, minha linguagem oscila entre o formal e o quase popular ou natural, entre a narrativa falsamente explicativa e versos com metáforas desafiadoras.

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    [FA]: Não achei seu livro atrelado a alguma filosofia. Ele é pura abstração da criação; tangencia mais arte do que qualquer método racional, filosófico.

    [GFM]: Minhas leituras nunca foram sistematizadas. Não me apraz uma referência bibliográfica. Todavia, confesso que há aqueles autores a quem me apego e então suas obras me são se cabeceira. Mas fico também rodeado de leituras avulsas. Por isso, não sigo uma determinada filosofia, corrente, comportamentos literários decisivos. E citar aqui autores me retrai, porque poderia eu cair em pedantismo: eu leio, no meu ritmo, quase todos os dias; sou editor de um site (o Amaité Poesia & Cia) auxilio na publicação de autores contemporâneos vivos. Daí vem as leituras espalhadas, diversas que me trazem influências e inspirações inconscientes, difíceis de eu definir.

    No fundo, a filosofia me inspira mais que a própria literatura. Por isso, os autores a que me apego, os que leio de ponta a ponta, são, quase sempre, os da poesia e da prosa de ficção que trazem a filosofia, o existencialismo, o intimismo em suas obras. Não tenho nenhuma erudição como leitor. E há muito tempo julguei ser uma grave limitação minha. Mas são hiperfocos. Nesse contexto, não me atrelo a uma filosofia, a uma pensamento para construir uma biografia. Da mesma forma, sempre espero que meu livro desperte impressões sem que ele ouse controlar o leitor. Sempre aguardo estar possibilitando, para possíveis leitores, conhecimentos mais profundos e sensoriais a partir de minha escrita. Minhas poucas bíblias e muitas deliberações, no lugar de investir em um método científico, não me fazem um autor “seguidor de”, porém, inclinado a apenas sugerir, e a nunca explicar, para parafrasear Benjamin Disraeli.

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    Fernando Andrade, crítico literário.
    Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

  • “Boa moça” traz poemas que são um manifesto inconformista à doutrina nada católica do puro on-the-rocks (masculino)

    “Boa moça” traz poemas que são um manifesto inconformista à doutrina nada católica do puro on-the-rocks (masculino)

    Na década de 70, tivemos a canção de protesto, guitarras sendo quebradas em pleno show-ditadura. Neste modesto 2026, leio inúmeros poemas nada clandestinos, manifestos em som e tom inconformista. Alegria ferina, dedo na ferida, o joio separado do trigo, mas a semente não deu para florir no jardim. “Boa moça” (Litteralux) é uma obra que não vai cogitar, mas “cogritar”, em alto e bom som, a trilha infértil de um jardim babilônico, onde o homem não nasce poema — nasce problema. Em seu novo livro, Luana Borato vem hifenizar, ou melhor, infernizar, os homens. Palavras de um crítico que adorou o livro.

    Fernando Andrade

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    Abaixo, segue a entrevista com a autora.

    Fernando Andrade:  Vou usar a metáfora da noite de lua cheia: a palavra poética baila no escuro. Já é noite… mas a lua cheia faz, de sua luz, luminescências diáfanas — olhares agudos sobre nós leitores que amam a noite. Seus poemas parecem a lua cheia, que  iluminam os maquiavélicos atos masculinos da fauna masculina. Baseada nessa observação, o que seu livro joga de luz sobre o homem contemporâneo.

    Luana Borato: Agradeço a sensibilidade dessa leitura através da metáfora da lua cheia. “Boa moça” joga sob a luz a experiência de ser mulher e a constante negociação com esse estigma imposto pelo título. Mas gosto da ideia de invisibilidade noturna que você trouxe, porque ressoa com o que sinto sobre a masculinidade. Muitas vezes, as estruturas de poder operam justamente no escuro, na conveniência de não serem nomeadas ou observadas. Ao lançar essa luz diáfana sobre o trajeto do que é ser mulher, busco revelar o sentimento, a tensão e a tentativa de desviar, poema e poema, das armadilhas da sociedade patriarcal. É claro que, a poesia não tem o poder de remover esses perigos do trajeto, mas, assim como a lua cheia, ela nos devolve a clareza da visão. Ao nomear as sombras e transpor para o ritmo da escrita a nossa tentativa de fuga desse rótulo, eu busco transformar o medo em um exercício de observação. A masculinidade que aparece no livro é, portanto, um reflexo do ambiente em que a mulher precisa se mover. Ela é o pano de fundo que impõe a necessidade da nossa vigilância.

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    [FA]:  Sua poética é uma mistura de dança; há ritmo, tom, melodia, e gume afiado sobre relações de gêneros. Queria que você comentasse sobre isso; sobre essa harmonia entre o riscado patriarcal, a estética do livro e suas nuances, linguagens. 

    [LB]: Eu ousaria dizer que essa harmonia ocorre quase como uma estratégia de sobrevivência. O ritmo dos versos tira o leitor para uma dança, fazendo com que ele se deixe envolver pela forma antes de ser atingido pela crítica, pela crueldade das relações de gênero que são abordadas. Não é apenas um recurso estético, mas se torna um meio de propagação da mensagem. Em alguns momentos trago a metáfora da fuga em zig zag, como quem tenta, a todo momento, fugir dessas linhas retas que foram desenhadas pelo patriarcado. Mas, aqui reforço para além do livro, apesar dos desafetos, aprendemos muito mais que fugir, mas a dançar nesse zig zig zá da vida.

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    [FA]: Há uma ironia ferina na sua voz poética. Mas, a meu ver, o livro continua sendo lírico sem nenhuma conotação agressiva. A ironia é proposital?

    [LB]: O próprio título é uma ironia e, talvez, ela seja a única linguagem capaz de traduzir a dualidade de existir como uma “boa moça” no mundo. Existe uma ambivalência cruel na forma como a sociedade nos molda. Ao mesmo tempo que se anseia pela mulher submissa, criada para servir e obedecer, essa mesma figura é um alvo de forte rejeição e fácil descarte. O ser mulher, nessa sociedade, é um crime. Não um crime inafiançável, porque se paga um preço muito alto pela liberdade. Mas, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, um crime que se julga digno de pena de morte. A ironia, assim como a dança, se torna um artifício para envolver o leitor nessa realidade que também é, no mínimo, irônica.

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    Fernando Andrade, crítico literário.
    Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

  • Com linguagem pulsional, “Limbo”, novo livro de Sebastião Ribeiro, poetisa emoções voláteis sobre vida terrena

    Com linguagem pulsional, “Limbo”, novo livro de Sebastião Ribeiro, poetisa emoções voláteis sobre vida terrena

    Não, isto não é uma orelha. Não há explicação! Há, sim, um rumor delineando a linguagem fugidia, mas com pulsões subliminares. Mas negaremos recorrer à análise semântica deste livro pulsional, que corre, corre, corre, pelos instintos mais primários. Talvez medo, fuga, mas não de forma covarde, como se fossem linhas de fuga, territórios não vazados pela dicção do arrependimento. Este pulso ainda pulsa, mesmo na leitura viciante, desta pequena pérola poética chamada “Limbo” (Litteralux, 2026), do poeta Sebastião Ribeiro. Entre lugares, entre espaços, a linguagem do autor procura a ausência de dualidades — bem e mal, certo e errado —, e dá vazão talvez ao processo dialético entre estar bem ou se afundar no atavismo do niilismo. A poética contundente de Sebastião não traz reza: traz contradição, dicção e canção.

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    Abaixo, segue a entrevista com o poeta.

    Fernando Andrade: O mal não se explica; talvez semiotizar seria a palavra de tal espiritualidade. No seu livro, o eu-lírico foge do maniqueísmo e entra  dentro de um campo de luta entre luz e escuridão, razão e loucura. Fale um pouco destas distensões.

    Sebastião Ribeiro: Escrevo e desenvolvo poesia dentro do que me parece sincero e defensável e admito as imperfeições, a rebeldia, as contradições, o incontrolável no homem, na Arte, na poesia e tudo entre e através. Dito isso, o momento de vida que a escrita de “Limbo” perpassou foi de admissão dos riscos em que eu punha minha existência e os que me rodeiam, nos seus diversos campos, especialmente o afetivo, social e existencial. Foi o momento em que fiz terapia pela primeira vez, um momento inegável de fragilidade. Foi o momento em que precisei me expressar verbalmente de duas formas, que para mim, pareciam distintas: a poética e a diarística. Uma mais elevada e esculpida, aberta à experimentação estética e metafórica; e outra, objetiva, crua, muitas vezes tão mundana e piegas que doía. Dentro dessas duas esferas, há interseções, camadas, vozes. A poesia de “Limbo” traz parte desse vórtice em que eu estava. Com um pé no que poderia ser o fim e outro na esperança e futuro, um pé entre a necessidade de destacar e enfrentar o mais racionalmente possível uma questão e o delírio de momentos fugazes, de prazer, uma névoa de limerência. Não que esses processos não se mostrem nas obras anteriores, mas nesta se tornaram mais óbvios e limitantes. Confesso que tive receio de trazê-lo a público. Mas depois de conversas com amigos, poetas ou não, recordei da máxima de Manuel Bandeira, que carrego desde meu primeiro livro: “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” A poesia em “Limbo” me parece válida.

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    F. A.: Poucos poetas sabem utilizar a ironia na poética. Você faz isso muito bem. Sua ironia é destilada como uma aguardente no ponto: queima e estonteia. É filigrana e prática.

    S. R.: Os anos de escrita me fazem acreditar que uso a ironia nem sempre de forma intencional, neste e em outros livros; muitas vezes é simplesmente como lido com situações dentro e fora da literatura. Sinto que ela é ferramenta de negociação, mas também resposta ao que me parece absurdo, ao que está fora de controle, ao que me decepciona, às múltiplas constatações de incapacidade frente ao que poderia ser a vida e o mundo.

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    F. A.: A Divina Comédia do Dante me passou pela cabeça, como se as ações humanas pudessem passar pelo paraíso, purgatório e inferno — e a linguagem acompanhando este périplo pelas três esferas celestes. Seu livro dialogo com isso?

    S. R.: Pena que “Limbo” é menos mitológico que espiritual (risos). É suspensão que se conforma com a insinuação de “paraíso”, no fim das contas. A humanidade na obra é menos espera em purgatório – essa sala de triagem é a única realidade. Mas concordo de certa forma com o citado périplo das ações humanas e, como a linguagem, artística ou não, é o veículo, o caminho, a tentativa de resolução e, talvez, uma forma de expiação.

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    Fernando Andrade, crítico literário.
    Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

  • “Em busca de Madalena Santos Reinbolt”, de Nélio Silzantov: Romance cria tessitura afetiva de mulher que bordou a vida como uma pintura sobre pertencimento

    “Em busca de Madalena Santos Reinbolt”, de Nélio Silzantov: Romance cria tessitura afetiva de mulher que bordou a vida como uma pintura sobre pertencimento

    Há que ter paciência para passar a linha no tear ponto por ponto para elaborar uma obra de arte.  Se a vida também é feita de linhas resolvidas, ou não, de acordo com ponto-pessoa na colocação da tapeçaria do destino de cada um.  No romance do escritor Nelio Silzantov, “Em busca de Madalena Santos Reinbolt” (Litteralux, 2026), há também este bordado sobre como a arte perfila o temperamento dos personagens.  A arte constrói histórias até biográficas. É o caso da narradora-personagem que conta a história de sua família no interior da Bahia, com sua casa da farinha, com filhos, cada qual com suas particularidades: a surdez de um, a emancipação de feminista de outra.  Com uma linguagem extremamente lírica, o autor faz do texto uma tessitura de afeto sobre a cultura conquistense. Mas há um forte elemento-personagem que costura toda narrativa na voz da pintora Madalena Santos Reinbolt, uma mulher que trabalhou durante a vida como empregada doméstica que teve de criar pinturas e tapeçarias para aliviar a dor da obediência servil. A narradora parte para São Paulo para conhecer num museu sua obra completa — a sublimação da arte molda cada estilo de vida, cada jeito de ser no mundo. Nélio fez um romance lindo sobre pertencimento numa sociedade elitista e classista.

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    Abaixo, a entrevista com o escritor Nélio Silzantov.

    Fernando Andrade:  A arte sublima a vida, mas também estetiza os elementos semióticos de produção. Madalena Santos Reinbolt viveu um pouco à margem dessa linha estética de produzir arte. Por que quis falar dela?

    Nélio Silzantov: Trazê-la de volta para casa foi a primeira motivação, presentificar esta grande artista entre os seus conterrâneos que, infelizmente, sequer sabem de sua existência — ao menos a grande maioria ainda hoje a desconhece. Quando me deparei com Madalena, enquanto escrevia meu primeiro romance, pesquisei sobre ela nos blogs e sites de notícias locais e não encontrei nada a seu respeito, nem mesmo nos repositórios acadêmicos. Tudo o que eu encontrava vinha de fora, de outros estados, sobretudo do Rio e de SP. Era como se Madalena não existisse, e aquilo foi a coisa mais absurda e angustiante para mim. Depois percebi que era preciso falar sobre o lado humano dessa mulher-mito, de quem, até então, só tínhamos conhecimento do seu lado artístico. Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Madalena, especificamente sobre o seu passado em Vitória da Conquista, sua terra natal. As poucas informações a seu respeito vêm da única entrevista que ela concedeu à Lélia Coelho Frota, uma museóloga, crítica de arte e curadora brasileira, que apresentou Madalena e suas obras ao grande público por meio de seu livro Mitopoética de 9 Artistas Brasileiros. Chamei Madalena de mulher-mito porque, se olharmos para tudo o que se diz a seu respeito, veremos apenas essa tentativa de dizer algo da humanidade de uma mulher sobre quem não sabemos praticamente nada — e nisso incluímos tanto a pessoa que Madalena foi quanto o lugar de onde ela veio, o que, para mim, é fundamental para conhecermos melhor o sujeito e os objetos centrais dessa história, ou melhor, para conhecermos o lado humano dessa mulher por trás da sua imagem como artista e de todo o simbolismo contido em suas obras. Por último, busquei tornar mais expressivo o que antes tratei apenas como referência. Em meus romances anteriores, a arte ocupou o segundo plano no seio da narrativa, numa espécie de tentativa de promover um diálogo ou expansão da trama por meio de referências musicais, fílmicas, literárias etc. Desta vez, inúmeros artistas povoam os núcleos de personagens, de modo que venho dizendo que este romance é também uma ode à arte, sobretudo aos artistas marginalizados de minha terra natal.

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    F. A.: Seu romance trata também da autonomia feminina de se autogerenciar fora do núcleo familiar. A narradora parte para um curso sobre artes para conhecer mais sobre tudo o que orbita em torno de Madalena. Você acha que se apropriou deste viés feminista no seu livro?

    N. S.: A escrita deste romance exigiu um olhar mais profundo sobre a condição humana feminina. Mais que isso, foi preciso olhar como nunca olhei para as mulheres da minha própria família. Entender não apenas os afetos e as ausências daqueles que compõem minha relação com elas, mas, acima de tudo, seus arranjos e desarranjos no lado prático das coisas, seus modos de ser e estar no mundo. Antes de textualizar qualquer conceito — que não passa de uma tentativa entre muitas de dar conta da concretude de algo —, foi preciso me emaranhar na cotidianidade das mulheres ao meu redor e me aproximar, tornar-me íntimo disso que você chamou de autonomia feminina, que vejo mais como uma mescla entre o instinto de sobrevivência em um mundo opressor e a artesania da vida, essa capacidade de lapidar a brutalidade das coisas e transformá-las em algo belo e sublime. Minha avó materna saiu recém-casada da zona rural para Conquista, ficou viúva poucos anos depois e teve que se virar como empregada doméstica em São Paulo para criar três filhos, até não suportar mais aquela vida e retornar para casa, onde se dedicou ao ofício de costureira até o final de sua vida. Minha mãe seguiu os mesmos passos aos dezesseis anos de idade: trabalhou como doméstica em Guarulhos e depois retornou com minha avó para Conquista, onde aprendeu os macetes do corte e da costura com ela, e depois repassou seus conhecimentos para minhas irmãs, que também exerceram a profissão. Elas não foram as únicas que saíram de suas casas em busca de uma nova condição de vida, muitas vezes sem contar com qualquer apoio, sem nenhuma rede de proteção, e outras contando apenas com o apoio de outras mulheres. Quando olho para a história de Madalena vejo essa mesma dinâmica em movimento, e embora Lota de Macedo Soares e sua parceira Elizabeth Bishop tenham deixado uma marca significativa em sua trajetória, ainda me espanta a escolha que as duas patroas fizeram entre “a arte e a paz”, isto é, entre “desfrutar uma obra-prima todo dia” ou ter uma empregada inteiramente dedicada aos afazeres domésticos. Lota não mediu esforços para dar abrigo e apoio à poetisa norte-americana, mas se furtou a oferecer o mínimo àquela que em pouco tempo se tornaria uma das maiores referências nas artes visuais — intuição que Elizabeth Bishop frisou textualmente em suas cartas —, e não pensou duas vezes em demitir Madalena. Os caminhos que as personagens do meu romance percorrem são, em alguma medida, reflexo da mesma sorte que inúmeras mulheres encontram. E a narrativa que elaborei faz esse jogo entre realidade e sonho, entre agarrar-se à vida nas condições em que ela se apresenta e a possibilidade de viver seus próprios sonhos — o que nem sempre é possível, ou muitas vezes é adiado por conta de outras necessidades e urgências impostas.

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    F. A.: Queria que você falasse um pouco sobre sua escrita, particularmente neste livro. Há um envolvimento bastante poético, quase lírico, com frases muito bem lapidadas.

    N. S.: A narradora-protagonista deste romance é uma escritora em formação que traz como legado familiar a contação de histórias, de causos reais e fictícios presentes na memória da população local. A oralidade é, neste sentido, uma característica fundamental para o desenvolvimento da narrativa, tanto no que diz respeito à tecitura da trama — o uso de composição oral-formular, de narrativas extensivas e episódicas, epítetos, repetições, símiles, paralelismos, discursos diretos, ritmo e musicalidade, o que me fez retornar à Ilíada e à Odisseia de Homero, e aos longos monólogos de Dostoiévski — quanto para mimetizar a linguagem em consonância com os espaços, com a passagem do tempo, com os estados de espírito das personagens e com a memória. Há uma constante transição no tom e no estilo, às vezes sutil, às vezes abrupta, que obedece à dinâmica das cenas e à divisão capitular da história em três momentos: um passado longínquo, um passado recente e o presente da narrativa. Em termos estilísticos, se olharmos para aquilo que o mercado espera das narrativas contemporâneas (com suas fórmulas consolidadas, tudo muito redondo e padronizado), a escrita deste romance se apresenta como uma espécie de “hibridismo inadequado das vozes ecoadas no chão de terra batida às elucubrações dos literatos de apartamento”, como a própria narradora observa. Inadequado justamente por não corresponder ao que a ortodoxia literária espera, porém, muito condizente com a intenção de expressar o processo de formação de uma escritora, que traz na sua escrita esses múltiplos registros culturais e linguísticos. Um estilo heterodoxo, por assim dizer, o que é, de certa forma, uma marca presente em meus trabalhos anteriores.

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    Fernando Andrade, crítico literário.
    Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

  • O romance da escritora Wanise relata luto e dor de forma surpreendente e criativa

    O romance da escritora Wanise relata luto e dor de forma surpreendente e criativa

    O tempo da vida é um fluxo contínuo, mas há duas aberturas nele: o passado e o futuro — um devir: e já é aqui.  Na ficção, porém, podemos ter um tempo desconstruindo pela ilógica as sequências dos fatos. Um tempo fragmentando em posições temporais que não se ligam em cronologias de minutos, horas. Um tempo-pulsão, que adverte o leitor que estou confuso nesta relação entre ação e tempo. No livro “O pássaro verde e a caixa de madeira” (Litteralux, 2026), da escritora Wanise Martinez, temos duas personagens que narram histórias parelhas, cuja semelhança parece mera coincidência. Denise e Marisa passam pelo mesmo processo de luto de um amor, e tentam cuidar da dor cada qual a seu modo: uma lidando com a faculdade e outra com um trabalho de arqueologia num subsolo de metrô. Wanise estrutura seu romance brincando com os acasos ficcionais, como se um fio invisível estivesse preso ao destino das suas duas personagens. Toda a estrutura do enredo é feita pela escrita baseada em sugestões ou pistas que a autora vai soltando na estrutura fragmentária, desprendida da narrativa. O desfecho espera por você, leitor, como um enigma a ser paulatinamente revelado.

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    Abaixo, publicamos a entrevista com a autora.

    Fernando Andrade: Você quebra a temporalidade de sua história, de forma surpreendente, criando duas personagens parelhas em todo seu emocional. A estrutura revela certo suspense sobre destino, luto, dor, pela forma da narrativa desconstrutiva. Poderia discorrer sobre isso?  

    Wanise Martinez: Desde o início, a ideia desse livro era contar as histórias das duas personagens, Marisa e Denise, de forma alternada, apresentando aos poucos suas dores e vivências específicas, sem revelar por completo aquilo que as une. Esse suspense serve para costurar a trama, mas também para representar os processos de luto em si, quando não sabemos onde nos situar, se no antes ou no agora, afinal as memórias nos habitam em qualquer momento da vida; são parte de quem somos.

    Dessa forma, a narrativa desconstrutiva me pareceu uma estratégia mais assertiva para tentar organizar (e desorganizar) os acontecimentos e as sensações, assim como para demonstrar a fragilidade da condição humana por meio das ações e das escolhas feitas pelas personagens. Acredito que essa quebra de linearidade temporal ajuda a instigar o leitor a seguir o que está sendo contado, sem sentir que está perdido na história, mas sim atento, emocionado, incomodado.

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     F. A.: Bela inserção de canções que revelam o estado de ânimo da personagem Denise; sua transição de faculdade também é curiosa, e atenta ao decurso da narrativa. Você trabalha muito através da sugestão, na escrita, mas dá pistas sempre na hora certa. Comente a respeito desse processo.

    W. M.: A personagem Denise é aquela pessoa jovem que todos nós já fomos um dia: sonhadora, ingênua, segura de si e de suas ideias, mas completamente insegura do mundo. Nessa fase da vida, em que buscamos nosso lugar, muitas vezes não conseguimos sequer imaginar que as coisas podem dar errado, que a vida pode vir e nos tirar aquilo que parece certo. Assim, a perda inesperada que ocasiona uma quebra na vida de Denise também vai causando mais quebras no que vem depois, já que a jovem não tem quaisquer ferramentas psicológicas em que se apoiar.

    Em meio a isso, a música surge como espaço de proteção e estabilidade. Colocar os fones de ouvido, ou ligar o som dentro do quarto, permite com que ela seja abraçada tanto pela harmonia da composição quanto pela poesia das letras. De todas as artes, acredito que a música tem um quê de celestial, e isso conversa muito bem com a literatura, por isso essa é uma questão essencial para o livro. Apesar das lembranças embaladas pelas músicas lhe servirem de conforto, a dor é tanta que Denise procura uma saída na mudança de curso na faculdade. No entanto, inconscientemente, ela ainda estava escolhendo sobreviver na angústia.

    Acredito que faz parte do meu papel como escritora entender que a sugestão às vezes conta mais que a descrição. Me ajuda o fato de ser jornalista e ter aprendido muito sobre edição de texto, mas na literatura valorizo a oportunidade que tenho de trabalhar com pistas; essas parceiras sutis e sagazes que ajudam a construir a história sem precisar apelar para excessos ou artimanhas de última hora.

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    F. A.: Arqueologia seria uma metáfora para (re)habitar o passado de modo que a pessoa encontre suas camadas, os vãos do seu ser — um processo como desenterrar coisas há muito esquecidas.

    W. M.: Quando criei a personagem Marisa, eu sabia que ela teria de, metaforicamente, desenterrar suas memórias, mas também queria que ela de fato colocasse as mãos na terra, então entendi que o melhor caminho era torná-la uma arqueóloga. Essa é uma profissão que relacionamos muito com o passado; parece tão distante da vida tecnológica que guia o nosso cotidiano hoje em dia. No entanto, apesar de tradicionalmente vermos o passado como algo que já se foi, ele está sempre aqui, guiando o presente e nos soprando dicas sobre o futuro – inclusive essa é uma cosmovisão adotada por vários povos originários, a de um tempo interconectado.

    No caso de Marisa, ela não queria abandonar suas recordações; apenas escolheu não as revisitar para não sentir, ainda que as sentisse o tempo todo. Em toda a sua imperfeição humana, buscou na arqueologia uma forma de permanecer unida ao que veio antes, de se sentir segura nas histórias e objetos, mesmo que não fossem os seus. Mas como nada fica escondido para sempre, tanto que de tempos em tempos vemos notícias sobre coisas sendo redescobertas, chegaria o momento em que ela também precisaria remover a terra para se deixar ver em todas as suas camadas. E aqui essa questão surge ligada a dois pontos significativos: o vínculo da ancestralidade feminina com a natureza; a terra como local seguro para o corpo e as memórias da mulher, e também a importância dos amigos que fazemos ao longo da vida e que nos ajudam a cavar quando preciso. O tempo de Marisa reencontrar sua própria história chega, mas ela só tem forças para fazer isso porque tem o apoio fundamental de Décio. O acolhimento e a sinceridade dele ajudam Marisa a se fortalecer para enfrentar o desafio de se aceitar fragmentada.

    Como estudiosa dos temas da memória e da história oral, penso que esse é um livro que busca convidar o leitor a escutar os sons do mundo. Na trama, o pássaro verde funciona como guia, auxiliando no despertar de Marisa, mas existem tantas outras maneiras de ouvirmos o cantar da vida para olharmos para dentro de nós. Espero que, de alguma maneira, essa leitura seja capaz de ressoar nos leitores.

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    Fernando Andrade, crítico literário.
    Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

  •  “Todo o resto é poesia”: em alto e bom som, uma obra que concilia tango e samba entre um brasileiro e uma argentina

     “Todo o resto é poesia”: em alto e bom som, uma obra que concilia tango e samba entre um brasileiro e uma argentina

    Gastar saliva, gostar da língua, navegar noutra pátria. Brasil e Argentina. Diabruras do futebol, paixões literárias por Borges e Julio Cortázar.  Levar um pombo-correio para una hermana com uma carta — “te conheci num estádio de futebol entre times daqui e daí”. A língua não fere rasuras de amor, porque fissuras sobre outra chica, outra hermosa, cabem no repertório poético de Israel Pinheiro, autor pernambucano do ótimo “Todo o resto é poesia” (Litteralux, 2026). Bagagem cultural e nada fiscal,  bota pano de fundo e cinema para relações nada diplomáticas entre vizinhos sul-americanos. Claro, o espanhol e o português dão dribles e fazem embaixadas no portunhol musical. Israel faz uma prosódia epopeica entre casais: um homem brasileiro e uma mulher argentina, com Sabato no sábado bebendo vinho, com Pelé e Maradona numa rivalidade histórica e descomunal. Versos nos Andes, andarilho errante pela diferenças de som e melodia no hispânico, no histórico, no português luso daqui — este livro é uma viagem, pronta para embarcar num transatlântico do amor.  [Fernando Andrade]       

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    Feita esta apresentação poética, vamos agora à entrevista com o autor.

    Sobre o autor

    Fernando Andrade:  Adotando uma metáfora futebolística, neste livro sua poética atua como um meio-campista criativo: passes curtos, versos concisos, tabelas pelas quais diálogos entre Brasil e Argentina se coadunam numa relação gramatical e romântica.  Ida e volta — parece jogo de libertadores. Nesta ciranda entre o  espanhol e o português um casal se conhece e se perfaz em fragmentos de um discurso amoroso. Fale um pouco sobre estas questões.

    Israel Pinheiro: Primeiro, se você me permite, eu gostaria de apresentar um breve preâmbulo que talvez ofereça um pouco mais de contexto às minhas respostas. As escolhas que eu fiz neste livro refletem de alguma maneira o modo como eu apreendo a poesia contemporânea, pelo menos aquela que chega até mim. Eu vejo a poesia hoje como o gênero por excelência do luto, do trauma, da dessemelhança, da reivindicação. Eu pessoalmente endosso todos estes temas e acredito que eles são da quintessência da poesia desde sempre, apesar de acreditar que experiência pandêmica produziu uma espécie de hiperfoco coletivo que parece ser muito próprio da nossa época. E o meu livro caminha na direção oposta, não com pretensões de marcar pontos de inflexão, mas como um processo orgânico, que expressa a minha convicção estética de que a poesia também é o lugar da celebração das descobertas felizes e dos bons afetos correspondidos. Talvez seja essa a única afirmação que eu faço com este livro. Tenho a plena consciência de que não sou o único, mas acho importante assinalar à qual tradição me filio. Antes de adentrar propriamente nas respostas, eu quero saudar a acuidade deste escrutínio. Que pergunta formidável. Eu tenho apenas uma aspiração bem definida para este livro: que ele seja um contraponto elegante e arejado às tensões, reais e míticas, entre Brasil e Argentina. As evocações futebolísticas, gramaticais, românticas e idiomáticas, no livro, servem ao propósito do distensionamento. Gosto de imaginar este casal como uma metáfora de tudo que as duas nações podem ser e construir em comunhão. Admito que a ideia de partida de Libertadores me fascina, e ela espelha a relação Brasil-Argentina no seu estado mais bruto — o papel da poesia é propor refinamentos. Ainda no âmbito das metáforas futebolísticas, as tabelas com a sociedade argentina me interessam vivamente. Tabelar com seu lirismo, seu cinema, música e literatura é sempre um privilégio. O papel de meio-campista nesta sugestão é para mim uma função bastante honrosa e faz jus à singela mediação cultural que o livro realiza. Recebo essa camisa com muita alegria.

    Conheça a obra

    F.A.: A língua escrita e falada no seu livro é pormenorizada em processos de jogos com palavras, aspectos lúdicos do som e da significação. Como o amor do casal metaforiza as interioridades da linguagem sensorial e polissêmica da sua poética? Como relacionou a língua, a geografia e, sobretudo, a afetividade amorosa entre um brasileiro e uma argentina?

    I.P.: Na minha experiência, o amor entre duas pessoas que não falam o mesmo idioma emula o processo poético, no meu caso eu diria até que o possibilitou. A experimentação semântica é permanente, e o caminho é permeado de tentativas e erros. O segredo é persistir até o ponto em que pequenos equívocos não precipitam colapsos e pequenos êxitos produzem arrebatamentos. Como vivo o amor, eu vivo a poesia.

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    F.A.: Para além de uma obra de poesia, seu livro pode ser considerado um estudo cultural sul-americano. Semelhanças na literatura, rivalidades no esporte, ludismo nas diferenças entre as prosódias dos idiomas português e hispânico. Fale a respeito desses pontos de encontro.

    I.P.: Sempre me incomodou bastante a relativização da latinidade do povo brasileiro, que às vezes se manifesta em esquecimentos deliberados em certas listas de países latinos. Esse é um tema que sempre me intrigou. Acredito que a diferença idiomática conta, mas não explica tudo. Eu reconheço que o nosso diálogo cultural com o continente é muito aquém do que poderia ser — e não podemos nunca nos conformar com isso —, mas a nossa latinidade é indubitável. Os elementos constitutivos dos meus influxos poéticos são também a minha latinidade. Minha poesia atesta meu lugar de latino-americano.

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    Fernando Andrade, crítico literário.
    Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

  • Breve entrevista com o escritor Theo G. Alves – por Fernando Andrade

    Breve entrevista com o escritor Theo G. Alves – por Fernando Andrade

    Fernando Andrade: Nas duas narrativas do seu livro, a palavra geografia denota um sentido espacial, mas sua linguagem se envereda por uma poética da solidão. Uma voz cética nas duas personagens sobre o mundo ou universo social (na segunda, mais).  Queria que você me falasse mais sobre a questão do abandono em sua obra.

    Theo G. Alves: A geografia de que meu livro fala congrega essa geografia espacial com a metáfora dos caminhos que seus personagens/narradores trilham por suas vidas profundamente marcadas por toda a sorte de abandonos. E o mundo como elas, as personagens, e eu o vemos é um lugar onde os abandonos ajudam a compor os destinos, marcados por perdas, esquecimentos, solidões. Somos as sobras do que nos falta. Perceba que os dois narradores-personagens são frutos de diferentes experiências de perdas: o abandono de ter sido deixada como pagamento de uma dívida ou a perda de uma criança no meio de uma procissão, que é a última metáfora sobre estar sozinho mesmo cercado por milhares de pessoas. É possível dizer que os narradores são frutos desse abandono de todos os dias, assim como cada um de nós também o é.

    F.A.: Na narrativa do filho que procura a avó desaparecida, há questões sobre a incomunicabilidade humana entre pessoas tão próximas. Mesmo em deslocamento há uma inaptidão do personagem em fluir num destino-ação — como se ele tivesse paralisado emocionalmente. Comente a respeito.

    T. G. A.: Na verdade, os dois narradores-personagens são os únicos em movimento no livro. Todos os outros personagens aparecem estáticos, quase como a imagem congelada em uma fotografia, enquanto os dois narradores estão movendo-se diante das situações de suas vidas. A única coisa a fazer diante da tragédia e do abandono é continuar em movimento, mesmo que sob o efeito de medicamentos, mesmo sob o peso do esquecer-se contínuo de uma doença como Alzheimer, tanto que as duas histórias que o livro conta convergem em um arco para um final em movimento.

    F.A.: O ambiente rural da segunda narrativa traz os arquétipos deste universo, precariedade das relações pessoais-sociais,  machismo arraigado na terra, (signo de propriedade). A narradora tem um ceticismo com relação ao entorno dela. O que você pode acrescentar a essa observação?

    T. G. A.: Salvina é uma mulher forjada nesse espaço e através das relações que o preenchem. Ela é uma mulher, como muitas, construída para o silêncio, para a dor, para a doação completa e abnegada, no entanto há nela uma ousadia que faz com que as verdades absolutas em seu entorno sejam, pelo menos, trincadas. A única força a tolhê-la verdadeiramente mais forte que ela é a doença, no mais Salvina lida com o mundo da única maneira possível: vivendo-o.

    Theo G. Alves

    Theo G. Alves nasceu em 1980, em Natal, mas cresceu em Currais Novos e mora em Santa Cruz, no interior potiguar. Premiado em concursos nacionais e regionais por sua prosa e poesia, publicou, entre outros, os livros “Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis”, “Doce Azedo Amaro” e “Inventário de Tão Pouco”, todos de poesia; “Por que Não Enterramos o Cão?”, de contos; e “A Cartomante que Adivinha O Presente” e “Peço Desculpas por esta Crônica (e por outras)”, de crônicas”. Publicou ainda os romances “Barreiro das Almas” e “Deus me Perdoe por Quem Eu Sou”. Theo continua escrevendo, entre silêncio e barulho, por acreditar na palavra como caminho.

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