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“Retratos” reúne minicontos que deixam o leitor preso às engrenagens de um texto ágil com golpes certeiros de surpresas

A medida da palavra não cabe medida. A palavra cedida ao conto é de uso restrito ao criativo e original. Se você quer usar uma luva de boxe, deixe-a pronta para o nocaute — o nocaute das palavras apronta para dar ares de surpresa. Os minicontos de “Retratos” (Litteralux, 2026), do escritor jjLeandro, movimentam-se não a passos lentos, mas com a agilidade verbal de um pugilista com mãos certeiras para um soco progressista. A violência física e moral, a desigualdade social, os desvalidos de qualquer ajuste social, tudo singularizado na pena exímia do autor. A cereja do bolo é oferecida sempre no finzinho dos textos — pequenas ficções que deixam o leitor de boca aberta, desconcertado com a força inventiva deste livro.
Confira abaixo a entrevista que tivemos com o autor.
Fernando Andrade
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Disponível na Amazon! Fernando Andrade: Seus contos crescem graças à agilidade de alguns aspectos literários, como concisão, surpresa e criatividade. O que leva você a priorizar estas características de estilo?
jjLeandro: Esses três itens são essenciais em contos que são extremamente curtos. A meu ver, o corpo do texto necessita de uma amarração que costumo dizer tem que ranger como corda apertada em madeira que se movimenta, nenhuma palavra em excesso que o torne frouxo e desinteressante; nenhuma faltando que o faça desmoronar. A surpresa é um nocaute no leitor, não para pô-lo à lona senão para deixá-lo em estado de suspensão diante do inusitado. Para um desfecho surpreendente, a criatividade é indispensável, e ela é de difícil execução. Já pensou a maioria dos textos valer-se desse artifício? É algo de elaboração complexa porque exige em poucas palavras expressividade e coerência, mas compensador para leitor e autor quando alcançada. Por outro lado a criatividade é um adicional de suprema importância que torna um texto que poderia ser desinteressante se escrito ordinariamente atraente ao leitor desde o início, haja vista existir uma gama enorme de talentos na literatura no Brasil produzindo textos muito bem escritos. A criatividade vai distinguir seu trabalho dos demais. Realizar isso tudo demanda muita dedicação à leitura, porque o escritor — sempre digo —é antes de tudo leitor. E eu sou um leitor voraz.

Clique para ir à vitrine do livro [F. A.]: Há certas pulsões que chegam à violência, mas funcionam como fatalidade — como se a vida fosse um caminho para o fim. A morte é uma presença, não só física, mas também figurada.
[jjL]: O ato de escrever é consequência de minha leitura do mundo, oferecendo ao leitor a interpretação do que leio e do que vejo. E o que me toca fundo em tudo isso é a desigualdade que a sociedade gera nas relações entre as pessoas. Essa desigualdade mantém-se à custa de muita exploração, ainda que de tão naturalizada só olhos apurados a vejam manifesta. São violentos às vítimas do desajuste social os mecanismos que tornam semelhantes em desiguais, estratificados. E isso ao custo de duas mortes para a maioria, a social e a física. Essas vítimas são na maioria de meus contos os protagonistas. Como João Gilberto Noll, relatado no posfácio de Educação Natural por Edson Migracielo, também me interessa ‘o aspecto trágico da existência’. A leitores não acostumados a textos inusuais, isso pode causar impacto. Mas isso é também processo literário. Tudo que diz respeito à vida humana é material literário, facultado ao autor utilizá-lo ou não. É onde mais busco trabalhar. Em contos sumários, a meu ver esse impacto é necessário.

Amostra grátis: clique para ler [+] [F. A.]: Nos contos, o efeito do nocaute, como preconiza Cortázar, advém do suspense da leitura graças a um texto bem escrito, surpreendente e original. Como funciona essa química entre autor e leitor?
[jjL]: Quando escrevo, estou obviamente pensando também na aceitação do leitor, como será recebido por ele. Porque por outro lado, claro, há a satisfação do autor com a execução de seu trabalho. A primeira avaliação é feita pelo eu-leitor; eu, leitor e crítico de mim mesmo. Meus pressupostos são também os defendidos por Cortázar de tornar o óbvio, o trivial, uma curta e grande história. Outro autor foi de grande importância nesse processo, João Gilberto Noll, que já citei acima, mestre nas narrativas sumárias que intitulava ‘instantes ficcionais’. Então, enquanto leitores, somos influenciados pelo que lemos e quando escrevemos igualmente colaboramos na elaboração da visão de mundo do leitor. E esse processo é de alimentação constante. Há em “Retratos” alguns textos em que jogo luz sobre a interação de autor e leitor. Acredito que a química funciona com o leitor quando ele é capaz de gerar sua própria interpretação do que leu. Eu quando leio, não raro paro a leitura, pego o celular, acesso o Messenger (onde costumo escrever as histórias breves) e a palavra ou a cena descrita no texto me remete à criação de uma história cuja única proximidade com a que li é buscar transformar o trivial atraente aos olhos de quem lê. Portanto o leitor quando tocado pelo que lê é capaz de interpretar o texto à sua maneira, a química aconteceu. Em Retratos, no conto Interpretação abordo essa transformação: “Foi sumindo em palavras e imagens consumidas por olhos atentos até que ao ponto final migrasse completamente para a mente de quem lia, assumindo outra forma.”

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“O coração é desses pormenores”, romance da autora Ana Paula Moreira, agita o coração do leitor com líricas leves e travo agridoce de exílio e solidão

Há um jeito de amainar a quietude de um coração, acelerado pela vida corrida. Vida ruidosa, na malha do serviço doméstico. Silvia e sua filha Lúcia são passageiras de um futuro cujo exílio dança com a própria solidão em compassos de espera. O romance da autora Ana Paula Moreira, “O coração é desses pormenores” (Selo Auroras, ed. Litteralux, 2026), faz da tessitura da escrita uma viagem ao poético mais lascivo, no sentido da intensidade da palavra musical onde ritmo e cadência andam de mãos dadas numa sinfonia a céu aberto com todas as estrelas da noite a servir de plateia para a autora. Livro gestual, onde os dedos bailam ao sabor da solitude e da espera de que o amanhã não caia no poente da noite. Linhagem, que passa fio por fio pela teia da vida, onde a linha solta a mão — e do fluido e poético destino compassivo das personagens.
Confira abaixo a entrevista que tivemos com a escritora.
Fernando Andrade
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Disponível na Amazon! Fernando Andrade: Pertencimento e solidão parecem andar juntos no seu romance. Só uma linguagem tão envolvente como a sua pode dar forma a essas personagens, de certa forma exiladas de uma condição benfazeja para a vida. Fale a respeito desse exílio.
Ana Paula Moreira: É curioso porque o modo como você descreve algo da sua leitura me faz pensar em pertencimento e solidão como duas pessoas caminhando de mãos dadas. É um paradoxo e ele deve ser sustentado. A possibilidade das mãos que se seguram significa também a possibilidade de que essas mãos se separem e ainda assim as pessoas caminhem. Esse espaço muito me interessa. A fenda que instaura o que pode ser. E todos os caminhos em que não somos ou não podemos ser. Se há um exílio é porque esse livro me fez esse convite: perscrutar o exílio por dentro. Concebê-lo também como um personagem. Mas entre o exílio e a condição benfazeja da vida não existe uma separação absoluta. Ao menos não como possibilidade.

Clique para ir à vitrine do livro [F.A.]: Sua linguagem parece tatear as sombras mais escuras de Silvia e de Teresa. O trato poético, porém, abre lacunas para os olhos do leitor, como uma caixa de matrioska onde cada beleza é mostrada nos interiores da narrativa. Fale desse processo.
[A.P.M.]: Olho devagar para sua provocação e me ocorre que pode haver no âmbito da literatura um desejo flutuante. Ao me dedicar ao ofício de escrever posso desejar a flutuação, ou seja, caminhar pelos espaços. A radicalidade daquelas pessoas muito vivas que são os personagens é o meu altar. A linguagem é, sim, o coração desse altar. Porque a linguagem atenta à radicalidade das pessoas não teme os escuros, não pretende explicá-los. O desfecho pode ou não ser a compreensão. Por vezes há mesmo o que não se compreende e ainda assim lá estamos e o que há pra ver ou sentir são os restos nas lacunas, nos escuros, nos encontros entre as matrioskas.

Amostra grátis: clique para ler [+] [F.A.]: A música é um andamento, uma dança onde agora as palavras bailam, ganham corpo para a tradução, que é o afeto do leitor para como o livro. Sua escrita é pensada assim?
[A.P.M.]: É bonito pensar em palavras traduzindo algo do seu próprio idioma ou da pré-história desse idioma. As palavras dedicadas a traduzir o humano nas suas pessoas e reconhecendo que podem falhar. Amar a sorte de alguma tradução. Amar igualmente a falha porque nela também está toda a humanidade possível. As palavras são fundamentais mas estão muito longe de alguma plenitude ou suficiência. Quando há falha há outros caminhos para se desvelar tudo aquilo que sustenta as palavras: o corpo fundamentalmente e seus afetos. É também muito bonito que você pense em dança e em música quando lê este Coração porque se agora há pouco eu falei sobre o desejo flutuante, sobre honrar os espaços, sobre topar também a incompreensão, é porque há uma entrega total à chegada da pessoa leitora. É um convite também a quem vai ler, sabe? Nas lacunas e nos espaços cabe também o que vem com a pessoa que lê. É uma dança, mesmo. A leitura é, tantas vezes, uma dança entre o livro e a pessoa que o acolhe. Talvez a minha escrita seja uma tentativa de guardar o espaço da música porque, antes de mais nada, escrevo para guardar as pessoas. Aliás, esse foi exatamente o momento em que notei meu primeiro impulso para a escrita. Eu, ainda criança, senti um ímpeto de guardar minha avó por escrito. Depois fui aprendendo que não era exatamente ela que eu guardava, mas era esse algo que flutua nos espaços das relações. Talvez eu tenha percebido que ela me ensinou a olhar para esse algo. Aí está o contorno da minha escrita.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“Ilusões em tramitação” traz contos que apelam ao absurdo kafkiano para revelar a burocracia em um serviço público

Uma resenha não deve competir com um cartão de pontos, onde há faltas e presenças. Num conto se vence por nocaute. O final do expediente — seja no conto, seja no serviço público — deve evitar desperdícios. Os entraves afastam o leitor do conto e assustam o servidor público que se vê emaranhado nas teias de uma rotina burocrática. No livro de contos “Ilusões em tramitação” (Litteralux, 2026), do escritor Abel Ferreira, personagens ou anti-heróis duelam com um pesadelo kafkiano, cujas idas e vindas de documentação parecem se desconectar de qualquer lei moral ou do pleno exercício da cidadania funcional, onde cada parte complementa o todo num ordenamento organizado. Abel desilude o leitor com uma parábola do absurdo, na qual fichas, relatórios e envios parecem obedecer a um ente divinizado. A escrita se dosa em aparências fantasiosas. Quem bota o dedo na burocracia, a fim de corrigi-la, quase sempre se arrepende: a emenda fica pior que o soneto.
Confira abaixo a entrevista que tivemos com o escritor.
Fernando Andrade
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Disponível na Amazon! Fernando Andrade: Na máxima de Cortázar, o conto vence por nocaute. Nos contos do seu livro, a burocracia vai vencendo por pontos. Como você estruturou isso, os trâmites burocráticos, nesse gênero em que a rapidez e a concisão quase sempre são a regra?
Abel Ferreira: Talvez uma das forças da minha escrita esteja justamente aí: perceber que a burocracia raramente produz um grande golpe, mas se impõe por acúmulo, repetição, pequenos gestos e decisões aparentemente banais. No cotidiano, quase nunca é uma única decisão que muda tudo. É uma sequência de formulários, assinaturas, reuniões e silêncios. Procuro levar essa experiência para o conto e fazer com que esses elementos carreguem uma tensão maior do que aparentam. A burocracia deixa de ser apenas o cenário e começa a interferir diretamente na vida dos personagens.

Clique para ir à vitrine do livro [F.A.]: Seus personagens parecem anti-heróis, lutando com certa engrenagem lenta, no serviço público. Como desenhar estes heróis e estes ambientes?
[A.F.]: Gosto de personagens que não parecem preparados para o heroísmo. São pessoas comuns, muitas vezes cansadas, tentando lidar com regras que não criaram e com instituições que não conseguem compreender inteiramente. No serviço público, esse conflito aparece de maneira muito concreta: o personagem precisa escolher entre cumprir uma ordem, proteger alguém ou simplesmente preservar o próprio emprego. Também tento construir os ambientes da mesma maneira: espaços aparentemente banais que, aos poucos, revelam relações de poder, hierarquia e escolha.

Amostra grátis: clique para ler [+] [F.A.]: O absurdo kafkiano me veio à cabeça ao ler seu livro. “O Processo”, de Kafka, seria uma influência ao seu livro?
[A.F.]: Kafka é uma referência difícil de evitar quando se escreve sobre burocracia. Entendo a associação, principalmente pela sensação de aprisionamento e pela atmosfera de espera que existe em O Processo. Mas meu interesse está menos no absurdo universal e mais nas formas que a burocracia assume no Brasil, com suas contradições, improvisos e violência cotidiana. Talvez por isso eu me reconheça na contenção de Ishiguro, sobretudo na maneira como seus personagens lidam com aquilo que não conseguem dizer ou transformar.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“Ensaio de um poeta delirante”, um livro de poemas que exprime a métrica e a rima em boa dose de MPB cancioneira

O devaneio pode ser uma válvula de escape para o real estrangulador. Poemas costumam garrotear as asfixias do desejo de correr atrás do sopro, da quina da vontade. No livro “Ensaio de um poeta delirante”(Litteralux, 2026), do autor Fernando Schimidt, a voz do poeta delira vozes e trovas, para um futuro promissor, onde cada ida ou ideia, parece lutar contra semânticas envelhecidas, em tonéis de puro abstracionismo nômade. Entre popular e erudito, Fernando às vezes estetiza o verso; em outras, simplifica a métrica na esteira da MPB. São caminhos trilhados pelo poeta, neste livro sortido com uma boa caixa de guloseimas literárias.
Confira abaixa a entrevista que tivemos com o poeta.
Fernando Andrade
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Disponível na Amazon! Fernando Andrade: Como foi o processo de criação para a elaboração do livro com relação à forma e aos temas?
Fernando Schimidt: Escrevi sobre tudo aquilo que de alguma forma me tocou, me inquietou e me colocou em movimento durante um intervalo aproximado de dois anos, porque a escrita também se trata de um certo chamado, uma necessidade de nos transcrevermos no papel. Fui compondo um poema ali, outro acolá, e quando alcancei uma determinada quantidade, decidi publicar. Ao longo do livro transito entre temas clássicos e contemporâneos, como a problemática da IA, prezando sempre pela espontaneidade poética – mais do que a forma. Me agrada a ideia de rimas, um toque de harmonia nos versos, mas a mensagem, para mim, é o mais importante. Por ser minha iniciação no gênero, busquei explorar diferentes arranjos e estruturas. Experimentei o soneto (embora sem me preocupar com a métrica, é verdade), experimentei poemas de duas, três, quatro estrofes ou mais (e até mesmo apenas uma), num constante exercício de expressar o pensamento em extensões variadas. Como metrificar o pensamento? Isso depende de como nós o reproduzimos em um formato verbal, e, embora a verborragia seja uma tentação e uma feição de quase todo escritor, o desafio da poesia reside em se fazer conciso e resoluto em um oceano de possibilidades.

Clique para ir à vitrine do livro [F. A.]: A linguagem na sua poesia fica entre o coloquial e o erudito. Como trabalhou com ela?
[F. S.]: É interessante quando ficamos entre dois polos sem que necessariamente assumamos um deles, descobrindo e ocupando, assim, uma nova posição, um novo espaço. Creio que as passagens mais abstratas estejam associadas à subjetividade, o que sempre é difícil de traduzir em palavras, numa linguagem clara e direta. Ao mesmo tempo, busquei estabelecer um contínuo diálogo com o interlocutor, promovendo alguma reflexão ou mesmo provocação – porque às vezes a reflexão vem dela. E para toda e qualquer conversa baseada na oralidade, é preciso ter em mente uma linguagem mais objetiva e acessível. Acredito que a linguagem na minha poesia esteja intrinsecamente atrelada à função.

Amostra grátis: clique para ler [+] [F. A.]: Com relação às suas leituras poéticas, você se sente influenciado por alguma corrente estética de poesia? Cite algumas de suas influências.
[F. S.]: Me considero um tanto eclético neste aspecto. Mais do que a corrente em si, dou valor àquilo que consegue me tocar de alguma maneira. Me encanta navegar por Pessoa, Drummond e Affonso Romano, por exemplo, que vão nos conduzindo pelos versos, discorrendo sobre os assuntos e se estendendo por páginas a fio. O poeta é tentado a vomitar palavras. Também acho formidável Leminski e seus versos sucintos, ao falar muito utilizando tão pouco espaço. Como não se apaixonar pelo tom devoto e confessional de Florbela e Neruda? Esses e outros mostram os variados recursos nesta sedutora tarefa de ordenar as palavras, de construir e desconstruí-las. A música certamente é outra grande influência, bebo muito da fonte daqueles que consolidaram seus nomes no seio da música popular, pois a música é um meio de popularizar a poesia. Mais difícil ainda é ter que pensar na melodia, no arranjo, e fazer as palavras ganharem cadência e ritmo próprio. Como disse em minha Canção a Cartola: “A outrem, delego a função da melodia, / dedilho os versos em forma de disparate.”

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“Não volte para casa”, um suspense atroz sobre o desamparo psíquico de uma família classe-média

A mente inquieta pode projetar ruminações psíquicas. O lugar onde moramos também é nosso chão mental, nossa deambulação paranoica. Nossa moral depende de nossas funções cerebrais. Somos reagentes do meio que coabitamos. Não só: também reagimos a nossos medos, receios e angústias. No romance “Não volte para casa” (Litteralux, 2026), Daniel Adjafre constrói habilmente a desumanização de uma família em desintegração psíquica. Com uma narrativa estruturalmente formata no aspecto visual, o autor mostra como uma casa pode servir de fonte e escape para neuroses e recalques, um habitat para o que vêm do inconsciente. O leitor é pego pelo gatilho da linguagem fluída e de uma narrativa veloz que lambe as feridas das nossas mazelas sociais. Afinal, quem nunca se (des)funcionou num estrato social, ou num ambiente familiar?
O autor nos concedeu algumas respostas. Acompanhe abaixo nossa breve entrevista.
Fernando Andrade
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Disponível na Amazon! Fernando Andrade: Seu romance carrega fortes doses de suspense psicológico, trazendo personagens que saem do prumo para uma desestabilização emocional, o que afeta tanto os moradores da casa quanto Lorena, personagem assolada pelo luto do filho.
Daniel Adjafre: Existe, na neurociência, um caso bastante famoso de um homem que, décadas atrás, após um grave acidente, teve seu córtex pré-frontal afetado e, a partir daí, apresentou profundas alterações de personalidade e de controle do comportamento social. Esse foi meu ponto de partida: e se, de repente, nós fizéssemos aquilo que gostaríamos de fazer sem qualquer tipo de impedimento moral ou autocrítica? A realização plena de nossos desejos seria uma libertação ou uma maldição? Ainda seríamos pessoas decentes? Ou seja, o terror nasce do desconhecimento dos personagens a respeito de si mesmos e do que seriam capazes de fazer quando não existem mais esses tais freios morais.

Clique para ir à vitrine do livro [F.A.]: Esse livro é muito visual. A ação cai num torvelinho de imagens sensoriais onde o leitor se acorrenta à leitura de forma bem prazenteira. O que o levou a essa concepção?
[D.A.]: Trabalhei como roteirista por mais de 20 anos — minha principal atividade profissional —, então sempre enxerguei os acontecimentos ficcionais como cenas. Isso acaba se refletindo na minha escrita. A diferença entre essas duas linguagens, porém, é grande. O romance permite um acesso mais direto à interioridade dos personagens, e uma narrativa mais flexível, sem a mesma urgência de ocorrências da dramaturgia audiovisual. Além disso, o gênero suspense/terror é extremamente propício à composição de imagens — uma simples porta, um corredor, uma mancha no chão, já são capazes de sugerir que há algo de errado antes que o pior aconteça.

Amostra grátis: clique para ler [+] [F.A.]: Sentimentos de ambivalência e ambíguos percorrem todos os personagens da casa. Como foi a construção destes personagens?
[D.A.]: Essa ambiguidade é justamente a força motriz do romance. No íntimo, desejamos coisas que não gostaríamos de desejar, e nos envergonhamos disso. Ao nos percebermos pessoas “más”, tentamos nos corrigir para não seguir pensando dessa maneira. Os personagens do livro, afetados por uma maldição, não conseguem fazer essa avaliação, e assim mergulham no que há de pior neles mesmos. Essa é uma forma interessante de terror, pois é possível fazer analogias com a sociedade atual e seus desejos desenfreados por satisfação a qualquer custo e relativização das consequências de seus atos. Portanto, para a construção dos personagens, precisei refletir sobre meus próprios desejos inconfessáveis e, a partir daí, entender o que deveria se passar na cabeça dos membros daquela família. Durante toda a escrita, busquei uma espécie de verdade que só poderia ser alcançada através da ficção.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
Um livro em três: nova obra de Cleber Pacheco compila três ficções que revivam a importância do sagrado e da linguagem poética

Em seus ótimos livros, a escrita de Cleber Pacheco vem carregada de alta simbologia religiosa. A cada obra ele aprimora o estilo e, sobretudo, a versão do que eu chamo de liturgia da santidade. Em “Trilogia da Transfiguração”, seu novo livro publicado pela Litteralux, a parábola vem travestida de transgressão do conservadorismo do ato da sacristia católica. Pecado e culpa, crime e castigo, são dualidades que transformam a pureza do ato humano em loucura, medo e revolta. Cleber nos absorve com sua linguagem abrasiva, em alta voltagem poética, desestruturando suas personagens em arquétipos míticos. O teatro parece ser uma voz possível, onde cenário, ação e diálogo se entrosam e se relacionam mediunicamente.
O autor nos concedeu uma rápida entrevista. Leiam abaixo.
Fernando Andrade
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Disponível na Amazon! Fernando Andrade: Sua linguagem é cada vez mais sugestiva e alusiva. Até penso que você já tem repertório de estilo que marcam suas histórias. Como você chegou a esta Trilogia?
Cleber Pacheco: Eu tinha esboços de duas histórias quando me veio a ideia de uma terceira. Foi só aí que tive a percepção de que elas possuíam diversos elementos em comum. A partir disso nasceu a ideia de uma trilogia que abordasse questões como a perda da noção do sagrado, principalmente a partir da modernidade. Vivemos num mundo incapaz de reconhecer o sublime, do inefável, do imponderável. Esse afastamento do âmbito do sagrado já pode ser sentido em “Elegias de Duíno”, de Rilke. E, por diversas razões, a vida, no âmbito contemporâneo, é vista como um absurdo sem sentido, fruto do acaso. Se lermos os filósofos existencialistas ou um autor tão significativo quando Samuel Beckett, encontraremos esse sentimento de absurdo, de vazio preenchido com formas que, por sua vez, também são vazias. Senti, então, a necessidade de resgatar o místico e fazer uma outra abordagem do trágico, algo que está presente, de outro modo, no meu livro “O Terceiro Dia”. A tragédia é o triunfo da forma e faz uma profunda reflexão da condição humana com um estilo elevado. A Literatura é a arte da palavra e tento trazer isso à tona. Atualmente, muitos livros desenvolvem cada vez mais, uma linguagem fácil e denotativa, sem exigir muito esforço por parte do leitor. O empobrecimento da linguagem é um fato contemporâneo, algo perigoso, que embota o pensamento e a reflexão. Daí a necessidade de usarmos todos os recursos que a linguagem nos oferece para causar estranhamento, como diriam os teóricos russos.

Clique para ir à vitrine do livro [F.A.]: Você trata de forma quase muito simbólica o religioso em sua literatura. A santidade é um campo metafórico recorrente em seus endereços. Comente a respeito.
[C.P.]: Como tratei anteriormente, vivemos uma era caótica, em que nada mais é sagrado. Tudo se transforma em paródia. É a era do simulacro. Não mais importa a essência: o que conta é apenas a aparência. A santidade abordada em minhas histórias revelam praticamente existências de outsiders, seres que não se encaixam nos padrões vigentes, pessoas que vivem à margem, mas que, por isso mesmo, tornam-se provocadoras de reações ambíguas, entre a adoração e a rejeição, o fascínio pela Beleza e o ódio que ela desperta. Pessoas tocadas pela Presença do Inefável podem ser perturbadoras e infringem as “normas” do imediatismo, do exibicionismo e da busca desenfreada pela satisfação instantânea dos instintos e das sensações, pois acabam gerando mais insatisfação. Manter o homem insatisfeito é a regra adotada pelas manipulações e pelo consumismo. As sensações são necessárias, mas, ao mesmo tempo, são a parte mais pobre das nossas experiências. É fundamental irmos além disso. É preciso que sejamos capazes de refletir e que alcancemos o conhecimento e, além dele, a sabedoria.

Amostra grátis: clique para ler [+] [F.A.]: Crime e castigo… Inevitável não pensar em Dostoievski. Ou em outros escritores russos a quem são caros os temas religiosos. Embora você parta bem para o litúrgico, seus livros são quase uma missa literária.
[C.P.]: Sim, há uma aspecto ritual e litúrgico nas histórias da “Trilogia da Transfiguração”. Os ritos são necessários e, no entanto, cada vez mais raros. A perda de sentido de tudo o que nos cerca gera violência, agressividade, hostilidade e desconfiança. No mundo Antigo, os ritos preparavam as comunidades para novas etapas da vida, eram plenos de significado e força. Com o tempo foram desaparecendo ou se tornaram apenas repetições destituídas de real valor. Mais uma vez resgato antigos modelos, não por saudosismo ou nostalgia ingênua, mas para tornar mais palpável o aspecto do Mistério que é nossa existência . Reverenciar o Mistério e respeitá-lo é um modo de reconhecer quem somos e dar importância àquilo que realmente importa: nossa essência. Os céticos diriam que essa essência não existe. Discordo. O ser humano existe para desenvolver suas potencialidades e usá-las em benefício em benefício do Todo. O egoísmo, tão em voga hoje em dia, tornou o mundo doente. A “Trilogia” busca dar maior visibilidade ao invisível. O seu aspecto litúrgico foi a forma escolhida para torná-lo mais evidente.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“Sinto muito pelos quero-queros”, romance de estreia da autora Rafaela Dilly Kich, nos abre as janelas do coração para uma história transformadora

O nascimento da escrita tem início quando a pulsão sexual se ativa no corpo de alguém. Não se trata de roteiro de quem escreve isto ou aquilo, mas de inconformidade diante do mais íntimo sentimento. A escrita é um labor de si, um trabalho manual com suas partes mais inacessíveis e pudendas. Quando nos aproximamos do diário escrito, a linguagem faz toca e caverna do seu conteúdo mimético, e assim nos igualamos ao espelho que forma e deforma a imagem, o self. No livro da escritora Rafaela Dilly Kich chamado sutilmente de “Sinto muito pelos quero-queros”, a autora nos segreda a vida de Lélia, moça em formação, cuja sexualidade paira fluída entre o seu mesmo gênero feminino. Dúvidas, inquietas indagações, percorrem o vazio da personagem, em busca talvez da escrita ou da poesia, mas, sobretudo, da aceitação ante a seu desejo mais verdadeiro. Rafaela escreve quase analiticamente, como uma sessão terapêutica entre a sedução do seu texto, primorosamente elaborado, e o pano de fundo de um possível futuro político em que o país é tomado pela horrível extrema-direita. Nesta dicotomia entre o prazer do texto e uma janela para um porvir desastroso, o leitor encontra uma excelente autora. Ela nos concedeu a entrevista abaixo. Boa leitura!
Fernando Andrade
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Disponível na Amazon! Fernando Andrade: Talvez o único lugar onde desejo pode escorrer pelo corpo e se propagar até suas extremidades deve ser a escrita. Não há pulsão mais ativa que a mediação da linguagem pela escrita. Estou certo?
Rafaela Dilly Kich: Ser humano pressupõe, penso, lidar com inúmeras pulsões diárias. Bioquímicas, conscientes, inconscientes. Elas podem escorrer pela palavra falada, pelo gesto, pelo ato sexual. Também pela escrita. Há algo de erótico no ato de escrever, talvez por exprimir pulsões internas muito íntimas por meio de signos, letras. Até o próprio encontro do lápis ou caneta com o papel. É uma explosão, de certa forma, mas pode também ser muito sutil. Violenta e acolhedora. Me interessa muito, para além de escrever, refletir sobre a escrita. Annie Ernaux, Marguerite Duras, Virginia Woolf são precursoras que me inspiraram nesse sentido. Não sei formular por completo a questão ainda. Mas há algo de erótico na escrita. Ela encontra, revela, desestabiliza as placas tectônicas do nosso mundo. Apesar de ser uma tentativa do impossível.

Clique para ir à vitrine do livro [F.A.]: Sublinhar — chamar a responsabilidade para uma coisa, um objeto. Sublimar — perenizar um tempo, um momento fugaz, transformar uma coisa em outra, um ser em outro. Quem sabe, fantasia, imaginação. Seu livro não sublinha, acho, ele sublima afecções, momentos, a vida.
[R.D.K]: Muito interessante ver sua percepção. Esse é um ponto, sim: a escrita é uma sublimação. Há uma condição de desamparo estrutural no ser humano. Imagine, então, a fragilidade das relações entre nós. Como lidamos com isso? Se não me engano, Freud disse que a pessoa artista é aquela que sublima. Ou seja, transforma a experiência caótica do ser humano em outra coisa. Talvez um pouco menos violenta.
Amostra grátis: clique para ler [+]
[F.A.]: Eros e Thanatos, pulsão de vida e pulsão de morte. Lelia se vê envolvida nestas duas cirandas de paradoxo.
[R.D.K]: Então, são as cirandas da Lélia e de todas, todos, todes nós…viver é uma dança, na minha percepção, entre esses polos. Há também uma imensidão de fatores que podem atuar sobre eles com maior intensidade… questões estruturais, políticas, econômicas, culturais. Aí retorno para a escrita. Mas também a outras manifestações artísticas. Acho que elas — uma música, um livro — nos ajudam a lidar melhor com as pulsões autodestrutivas, a encontrar a subjetividade do outro. Nos conecta. Não é tudo, mas é alguma coisa. Pode nos salvar de alguns afogamentos.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“Inventário de um silêncio” cria narrativa histórica entre lados opostos, um fluxo de consciência política entre esquerda e direita

O tempo não volta mais. Não podemos corrigi-lo. Se lembrarmos da nossa ditadura onde presos políticos foram torturados e mortos, pensar nisso pode ser bem controverso. A despeito dessa herança histórica, no presente temos que lidar com governos de extrema direita, a nível mundial, assumindo países com tradições democráticas. No romance “Inventário de um silêncio” (Litteralux/Selo Auroras, 2026), da escritora Sandra Godinho, dois irmãos duelam através de um jogo de consciências entre a responsabilidade histórica em face a um passado de barbárie. Um dos irmãos está desaparecido (do Brasil ou da vida?) e sua narrativa é construída por meio do fluxo de consciência, expondo seus pensamentos alinhados à frente progressista, frontalmente contrária à violência do estado. O outro, um empresário, desfruta de sua liberdade graças à submissão a uma política extremista, violenta. Sandra Godinho controla com pulso firme uma narrativa polifônica na qual vozes duelam entre a memória coletiva e o narcisismo capitalista, predatório. Murilo e Joel são antípodas de um tempo binário, feito de antagonismos que ainda vicejavam em nossos dias.
Fernando Andrade
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Leia abaixo a entrevista com a escritora Sandra Godinho.
Disponível na Amazon! Fernando Andrade: Polifonia. É esta palavra que vem aos me referir a seu romance. As vozes dos dois grandes personagens num quase duelo metafísico sobre desejo, liberdade, violência do Estado, colocam o leitor no meio deste embate. A proposta vai além da simples tomada de posição, seja qual for o lado político de seus personagens. Para onde aponta essa narrativa tão dialética?
Sandra Godinho: Ou talvez seja o caso de se posicionar [risos]. Quando imaginei o personagem Murilo eu o vi como um homem clivado e atormentado pela culpa, um empresário bem sucedido e respeitado por todos, aproveitando as oportunidades proporcionadas pela vida sem pestanejar, mas fragilizado pelo remorso, a tal ponto que, a certa altura, ele alucina sobre o irmão ausente, projetando neste delírio aquilo que o atravessa e que o faz confrontar-se consigo, seu passado e seu presente. Como todo narrador em primeira pessoa, ele não é confiável. Cabe ao leitor inferir o que é, ou não, verdade; o que é, ou não, mau-caratismo e oportunismo. É ele falando a verdade ou o que ele internalizou como sendo verdade? O embate de Murilo é também o embate do leitor e, neste viés, cabe ao leitor se posicionar ao se pôr em seu lugar. Acho que é esta a grande sacada nesta construção.

Clique para ir à vitrine do livro [FA]: A presença física de Joel, desaparecido, parece ao leitor um corpo presente, vivo, tamanha a densidade do seu fluxo de consciência na história. O que presenta esse personagem?
[S.G.]: Esta era a intenção desde o princípio, um fluxo de consciência emocionalmente intenso, que pusesse o leitor dentro da mente perturbada de Murilo e, mesmo assim, o leitor fosse capaz de inferir e desvendar o que realmente se passou entre estes dois irmãos que se amavam e que, a certa altura, se separaram devido às diferentes escolhas que fizeram na vida, algo que também nos atravessa e que diz respeito a todos nós. Somos responsáveis pelas nossas escolhas, pelas decisões que tomamos, pelo que decidimos ignorar ou se importar.

Amostra grátis: clique para ler [+] [FA]: Se por um lado Joel fica preso à História, por lutar contra a ditadura, o irmão se mostra mais complacente, priorizando sua liberdade de conduta, fingindo normalidade a tudo que se passa ao redor. Vivemos ainda nesta dicotomia de lados opostos em nosso cenário político.
[S.G.]: Ainda sentimos as consequências e os efeitos da ditadura nos dias atuais. Ainda há este embate raso entre “capitalistas” e “comunistas” quando o problema é bem mais profundo e complexo do que uma simples polarização de ideias ou de uma polarização partidária. O fato é que o sistema capitalista produz inúmeros ‘excluídos’, os marginalizados do sistema, e, para além do extremismo partidário, governantes, autoridades e políticos não sabem o que fazer com eles. Explorá-los? Escravizá-los? Matá-los? Encarcerá-los em novas prisões no meio da Amazônia? O fato é que o grande capital se concentra cada vez mais em menos mãos, que continuam explorando os recursos mundiais do planeta com vigor incessante. O fato é que isto faz explodir a miséria e a violência, além de exaurir o meio-ambiente. Não nos esquecemos de Mariana nem de Brumadinho. Ou o afundamento do solo nos cinco bairros esvaziados às pressas na capital alagoana, o maior desastre em solo urbano do Brasil. Ou o afundamento da cidade de Kiruna, ao norte da Suécia, cujos moradores foram realocados porque corriam o risco de serem engolidos, consequência da exploração das minas de minério de ferro subterrâneas. O fato é que o oportunismo de poucos dita o destino de muitos. Portanto, a pergunta a ser feita é: até quando o grande capital passará por cima do bem-estar das pessoas, dos povoados, das nações? Então, retornando à sua observação, talvez seja, sim, o caso de nos posicionarmos tal qual os personagens Joel e Murilo, antes que não haja nem planeta nem humanidade.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“Gestos do nada”, livro que enaltece o processo criativo da palavra em signos poéticos

Certa vez, um poeta me perguntou o que eu fazia naquele momento. Eu fiz uma ação: nada. Estava escrevendo sobre o ato de criar (a palavra branca me parece uma página virgem). Estava pronto a nadificar meu discurso criativo. Ao ler o novo livro de Geovane Fernandes Monteiro, Gestos do nada (Litteralux,2026) — uma delícia de paradoxo poético — veio-me a pergunta do poeta que estamos no marco zero de toda composição. Expondo de dentro para fora, Geovane faz da dor criativa uma questão espiritual com a catarse deste transe em que a palavra se torna sublimação estética do pensamento. Eis aqui um livro de pequenos gestos onde o corpo renasce para o voo da liberdade.
Fernando Andrade
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Abaixo, segue a entrevista com o autor.
Disponível na Amazon! Fernando Andrade: O gesto deve começar no corpo: temos a ideia do movimento. Já o nada alimenta a criação, fomenta a palavra: temos aqui a ideia de poesia, movimento da palavra. Não há melhor título para seu livro de poemas. Explique essa escolha.
Geovane Fernandes Monteiro: Constitui um espaço inalcançável, necessário e relativamente compensatório. Didaticamente eu diria: Gestos = ação; nada = o que existe por não haver. Ou melhor, o que precisa de alcances, para novos nadas surgirem, a fim de não sufocar, não terminar em si mesmo. Cabe aqui um exemplo mais panorâmico: um grande terreno vazio é todo um nada. Quando se constrói casas, ruas, praças, … todos esses ‘corpos’, para abrigarem movimentos, passam a ocupar o terreno antes vazio, e agora novos vazios intransponíveis para que o bairro exista (o nada onipresente, generoso, acolhedor em sua natureza fecunda). De fato, o nada alimenta a criação, fomenta a palavra na sua natureza inatingivelmente trafegável. A lógica de um espaço ser ocupado é ser-lhe destinados novos distanciamentos, novas atmosferas. Assim o nada com seus gestos para a moral de “geografias demarcadas”; destarte, os Gestos do nada. Vale repetir, o título reflete o que inaugura o insuperável. Num sentido mais prático, Gestos do nada pode sugerir que a vida faz sentido durante a busca de sentidos. Do contrário, se a lógica (que mostra eu nunca desconsiderar o racional) fosse inteiramente atingida (O Nada), a vida padeceria à própria palavra final (Os gestos).

Clique para ir à vitrine do livro [FA]: Linguagem faz acesso ao incomunicável, como diria Beckett. O espaço do nada onde talvez a solidão se faça ausente. Aí verbo se cria. Do nada fez-se o universo humano. No que este meu comentário dialoga com seu livro?
[GFM]: Seus felizes comentários mais norteiam do que indagam. O acesso ao incomunicável talvez seja meu projeto literário neste livro. Mas não se trata de absurdo, a não ser o de um Beckett, de um Kafka ou de um José J. Veiga, por exemplo, no sentido de alcances no que não se diz, no sobrenatural que não passa da rotina a despertar devaneios reveladores do cotidiano real, literal e literalmente despercebido ou negligenciado pelos interesses imediatos na vida. Por essa razão, minha linguagem oscila entre o formal e o quase popular ou natural, entre a narrativa falsamente explicativa e versos com metáforas desafiadoras.

Amostra grátis: clique para ler [+] [FA]: Não achei seu livro atrelado a alguma filosofia. Ele é pura abstração da criação; tangencia mais arte do que qualquer método racional, filosófico.
[GFM]: Minhas leituras nunca foram sistematizadas. Não me apraz uma referência bibliográfica. Todavia, confesso que há aqueles autores a quem me apego e então suas obras me são se cabeceira. Mas fico também rodeado de leituras avulsas. Por isso, não sigo uma determinada filosofia, corrente, comportamentos literários decisivos. E citar aqui autores me retrai, porque poderia eu cair em pedantismo: eu leio, no meu ritmo, quase todos os dias; sou editor de um site (o Amaité Poesia & Cia) auxilio na publicação de autores contemporâneos vivos. Daí vem as leituras espalhadas, diversas que me trazem influências e inspirações inconscientes, difíceis de eu definir.
No fundo, a filosofia me inspira mais que a própria literatura. Por isso, os autores a que me apego, os que leio de ponta a ponta, são, quase sempre, os da poesia e da prosa de ficção que trazem a filosofia, o existencialismo, o intimismo em suas obras. Não tenho nenhuma erudição como leitor. E há muito tempo julguei ser uma grave limitação minha. Mas são hiperfocos. Nesse contexto, não me atrelo a uma filosofia, a uma pensamento para construir uma biografia. Da mesma forma, sempre espero que meu livro desperte impressões sem que ele ouse controlar o leitor. Sempre aguardo estar possibilitando, para possíveis leitores, conhecimentos mais profundos e sensoriais a partir de minha escrita. Minhas poucas bíblias e muitas deliberações, no lugar de investir em um método científico, não me fazem um autor “seguidor de”, porém, inclinado a apenas sugerir, e a nunca explicar, para parafrasear Benjamin Disraeli.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas. -
“Boa moça” traz poemas que são um manifesto inconformista à doutrina nada católica do puro on-the-rocks (masculino)

Na década de 70, tivemos a canção de protesto, guitarras sendo quebradas em pleno show-ditadura. Neste modesto 2026, leio inúmeros poemas nada clandestinos, manifestos em som e tom inconformista. Alegria ferina, dedo na ferida, o joio separado do trigo, mas a semente não deu para florir no jardim. “Boa moça” (Litteralux) é uma obra que não vai cogitar, mas “cogritar”, em alto e bom som, a trilha infértil de um jardim babilônico, onde o homem não nasce poema — nasce problema. Em seu novo livro, Luana Borato vem hifenizar, ou melhor, infernizar, os homens. Palavras de um crítico que adorou o livro.
Fernando Andrade
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Abaixo, segue a entrevista com a autora.Fernando Andrade: Vou usar a metáfora da noite de lua cheia: a palavra poética baila no escuro. Já é noite… mas a lua cheia faz, de sua luz, luminescências diáfanas — olhares agudos sobre nós leitores que amam a noite. Seus poemas parecem a lua cheia, que iluminam os maquiavélicos atos masculinos da fauna masculina. Baseada nessa observação, o que seu livro joga de luz sobre o homem contemporâneo.
Luana Borato: Agradeço a sensibilidade dessa leitura através da metáfora da lua cheia. “Boa moça” joga sob a luz a experiência de ser mulher e a constante negociação com esse estigma imposto pelo título. Mas gosto da ideia de invisibilidade noturna que você trouxe, porque ressoa com o que sinto sobre a masculinidade. Muitas vezes, as estruturas de poder operam justamente no escuro, na conveniência de não serem nomeadas ou observadas. Ao lançar essa luz diáfana sobre o trajeto do que é ser mulher, busco revelar o sentimento, a tensão e a tentativa de desviar, poema e poema, das armadilhas da sociedade patriarcal. É claro que, a poesia não tem o poder de remover esses perigos do trajeto, mas, assim como a lua cheia, ela nos devolve a clareza da visão. Ao nomear as sombras e transpor para o ritmo da escrita a nossa tentativa de fuga desse rótulo, eu busco transformar o medo em um exercício de observação. A masculinidade que aparece no livro é, portanto, um reflexo do ambiente em que a mulher precisa se mover. Ela é o pano de fundo que impõe a necessidade da nossa vigilância.

Clique para acessar a vitrine do livro [FA]: Sua poética é uma mistura de dança; há ritmo, tom, melodia, e gume afiado sobre relações de gêneros. Queria que você comentasse sobre isso; sobre essa harmonia entre o riscado patriarcal, a estética do livro e suas nuances, linguagens.
[LB]: Eu ousaria dizer que essa harmonia ocorre quase como uma estratégia de sobrevivência. O ritmo dos versos tira o leitor para uma dança, fazendo com que ele se deixe envolver pela forma antes de ser atingido pela crítica, pela crueldade das relações de gênero que são abordadas. Não é apenas um recurso estético, mas se torna um meio de propagação da mensagem. Em alguns momentos trago a metáfora da fuga em zig zag, como quem tenta, a todo momento, fugir dessas linhas retas que foram desenhadas pelo patriarcado. Mas, aqui reforço para além do livro, apesar dos desafetos, aprendemos muito mais que fugir, mas a dançar nesse zig zig zá da vida.

Leia a amostra grátis [FA]: Há uma ironia ferina na sua voz poética. Mas, a meu ver, o livro continua sendo lírico sem nenhuma conotação agressiva. A ironia é proposital?
[LB]: O próprio título é uma ironia e, talvez, ela seja a única linguagem capaz de traduzir a dualidade de existir como uma “boa moça” no mundo. Existe uma ambivalência cruel na forma como a sociedade nos molda. Ao mesmo tempo que se anseia pela mulher submissa, criada para servir e obedecer, essa mesma figura é um alvo de forte rejeição e fácil descarte. O ser mulher, nessa sociedade, é um crime. Não um crime inafiançável, porque se paga um preço muito alto pela liberdade. Mas, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, um crime que se julga digno de pena de morte. A ironia, assim como a dança, se torna um artifício para envolver o leitor nessa realidade que também é, no mínimo, irônica.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

