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  • “Chegar ao fundo do osso” revela nossa contemporaneidade

    “Chegar ao fundo do osso” revela nossa contemporaneidade

    *  Por Fernando Andrade

    Se o osso estivesse no meio do caminho, apenas um objeto duro e inanimado, não seria um cemitério de ossos, seria o osso duro de roer que nem os ratos o fariam. Nesta avenida chamada Brasil, cada um porta seu osso de ofício para ir do caminho ao trabalho, para fugir do espelho que dobra cada ruga mais dormida do cansaço da vida laboral. Mas o poema podemos dizer que não é uma boa imagem para a localização de quem porta nos bolsos pedras-ironias para jogá-las aos porcos.O poeta é um militante e não faz coletivos para fazer isto de pedagogia do oprimido. Poeta pratica uma dor elegante com outro poeta curitibano, sabe que sentenças não cabem num verso, apenas em petições.

    Diego Ruas nos trova a dor mais elegante e a  canção gesta inconformismo, rebeldia, e muitos cigarros à beira do precipício.

    No seu novo livro “Chegar ao fundo do osso”, pela editora Penalux, o autor passa a fase especular e atravessa o corpo para imergir dentro dele tanto da palavra como da imagem da carne, metáforas e desumanidades. Passa por um lugar tão elástico quanto uma enorme lauda para escrever: a pele. Chega ao osso este espaço entre os órgãos, esqueleto de sustentação ao bípede, ao mundo caminhante.

    Diego fez um belo trabalho sobre o que nos torna dentro da selva do homem, mais humanos e  coletivos.     

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  • A construção em camadas d’A inevitável fraqueza da carne

    A construção em camadas d’A inevitável fraqueza da carne

    Por Rita Apoena

    No surpreendente romance de Wilson Gorj, A inevitável fraqueza da carne (Editora Penalux, 2023), temos uma narrativa que se impõe ao leitor, que o fisga desde a primeira frase e não o deixa abandonar a leitura antes da sua completa finalização. Isso porque a verossimilhança é plenamente alcançada pela bem elaborada construção das personagens. É por meio de suas atitudes e de suas interações que a sua psicologia resplandece, bem como os conflitos que os movem.

    Como o romance mais interno é construído por uma das personagens – e temos aqui um romance dentro do outro – não temos elucubrações que o autor-personagem não poderia saber. Assim, os focos narrativos são usados de modo muito assertivo. Ponto para ele: a narrativa ganha em agilidade. Além disso, a linguagem é concisa, as cenas são dinâmicas, cirurgicamente colocadas, de modo que cada elemento em cena tenha um sentido preciso e profundo no texto. É como se, por trás de um texto “enxuto”, fossem escondidas muitas metáforas nas entrelinhas, de modo a ampliar a significação de cada elemento de criação. 

    Nessa narrativa, temos poucos personagens, mas habilmente construídos. Carlos é contador e um dos sócios de um escritório de contabilidade. Tendo estudado com o sócio na faculdade, mantém com ele boas relações. Há quatro anos, ele é casado com Luísa, uma mulher que tange a superficialidade das relações e que não demonstra muita sensibilidade por aqueles que a rodeiam. Quando Carlos perde o pai, ela não finge condolências nem se mostra muito sensível ao fato, mas imediatamente anima-se com o anúncio de uma herança, pois ela tinha por objetivo viajar para a Europa e decorar o quarto do filho que tanto esperava. Por mais que tentassem, entretanto, a gravidez nunca acontecia.

    Ao longo de toda a narrativa, vemos a personalidade de Luísa ser construída paulatinamente e de forma bastante coerente, de modo a corresponder aos desenlaces da trama. Ao visitarem a propriedade, ela decepciona-se com o testamento modesto deixado para o marido, pois isto a afastaria do sonho de fazer uma grande viagem. Essa insatisfação é tão grande que ela cogita  contratar um advogado para reaverem parte do apartamento que o pai deixara à ex-companheira.

    De todo modo, vemos como Carlos vai aos poucos se subjugando frente aos sonhos e aos desejos de sua esposa. Ela geralmente não o questiona quanto aos planos em comum, ela os arregimenta por conta própria, ainda que ele tenha sido o único herdeiro. Mesmo os seus momentos íntimos não parecem ser por afeição ao esposo ou à construção da relação, mas unicamente para alcançar o seu objetivo: engravidar. Assim, Luísa parece ser, na trama, uma mulher um tanto egoísta, fútil e cegamente obstinada. Carlos, por sua vez, mostra-se muito pacífico e condescendente com todos que o cercam. Ele não é, contudo, um personagem sem falhas: ele abarca em si as vulnerabilidades e hesitações de um ser humano real. De qualquer modo, sabemos que um impulso não satisfeito, especialmente no que concerne aos desejos, mantém-se adormecido, mas luta por vir à tona, romper os mecanismos de defesa e se satisfazer. A meu ver, esse é o grande embate desse romance: a discussão sobre os instintos e a natureza humana. Por que não dizer: a própria natureza animal.

    No início do romance, ficamos sabendo que a a mãe de Carlos, uma mulher forte e considerada por ele como a sua grande heroína, sofre de Alzheimer e vive numa casa de repouso, o que deixa Carlos um tanto culpado, pois a mãe, durante toda a sua vida, havia se sacrificado por ele. Mas ele tenta ser um bom filho, na medida do possível: diante da doença da mãe, assegura-lhe a estadia no melhor asilo da região, visita-a com frequência e lhe leva as suas flores preferidas. Tenta lhe proporcionar a vida mais digna que é capaz. Algumas vezes, tem de acompanhar o seu discurso em demência. Outras vezes, contudo, tem de mentir, dizendo-lhe que a levaria para casa.

    Por razões que vamos descobrir no desenrolar da trama, o seu pai fora um homem muito distante. Desde criança, quando ele deixou a família para viver com a amante, Carlos e ele não mantinham quaisquer vínculos. Mas, com o tempo, o ressentimento que Carlos sentia pelo pai foi se desvanecendo. Desse modo, vemos que Carlos tenta ser um bom filho e um bom marido, ainda que as intercorrências do destino o coloquem muitas vezes à prova. Quando os vieses desse destino começam a suceder, ele é um homem em desamparo, em busca da sua família perdida, e que ele vira se esfacelar.

    Com a morte do pai, Carlos recebe uma chácara como herança, e é a partir desse fato que a trama começa a se desenvolver, pois, com as idas frequentes à nova propriedade, Carlos conhece Maya, a filha dos caseiros, uma jovem muito bonita, estudante de Letras, por quem ele se sente imediatamente atraído. Quando ele a encontra pela primeira vez, ela lê um romance de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, que serve de referência e epígrafe ao belo romance de Gorj.

    A jovem parece perceber o seu interesse por ela e não se mostra arredia, pelo contrário. A partir daí, Carlos empreende uma luta com aquilo que ele acha certo e os desígnios do seu desejo. Essa metáfora é ilustrada pelas repetidas aparições de uma jaguatirica nas imediações da chácara. Guiada por seus instintos e por sua fome, o animal busca as aves do local, mas é impedida pelas cercas de arame e pelos ferozes cachorros da residência. De modo análogo, Carlos também é, a princípio, impedido pelas circunstâncias, pela sua postura ética e pelas descobertas que faz.

    O desenlace desse conflito é resolvido de modo surpreendente pelo autor, com uma reviravolta muito inteligente na trama. Além dela, o que mais surpreende na narrativa é o modo como o autor joga com as instâncias do real, criando várias camadas de realidade, como um romance por dentro de outro. Desse modo, há uma tênue linha divisória entre a ficção e a realidade, o que nos faz perguntar o que seria real e o que seria ficcionalizado, convidando-nos a outras leituras. Também surpreende, como dissemos, o modo como a narrativa ganha extrema fluidez, a ponto de não querermos deixar o livro antes da sua completa finalização.

    Escreve o autor: “Os cães do caseiro, na casa ao lado, latiam sem parar. No galinheiro, as aves também pareciam alvoroçadas. Ele apontou a lanterna naquela direção e teve um sobressalto: a luz devolveu dois olhos vermelhos olhando fixos para ele […] Os dois, homem e felino, ficaram se mirando por um tempo […]. Como nas ocasiões anteriores, o facho da lanterna tinha o efeito de inibir seus movimentos, deixando-a sem ação imediata: as patas dianteiras já tocavam o grosso galho que se projetava sobre o muro. Ela virou a cabeça um pouco para trás […] e, saltando sobre o galho, avançou para dentro da árvore engolida pela escuridão.”

    Como se vê, neste romance, a poesia de Wilson Gorj está na escolha cuidadosa de cada um dos elementos que compõem as inúmeras metáforas do texto. E essa percepção se aprofunda à medida que novas releituras são feitas. Essa construção em camadas só é possível em grandes obras literárias, feita por grandes autores.

    Rita Apoena, escritora

  • A loja de lámen, de Lucas Grosso: uma voz poética de alcance universal

    A loja de lámen, de Lucas Grosso: uma voz poética de alcance universal
    por Rita Apoena

    No livro A loja de lámen (Editora Penalux, 2023), o que distingue o poeta Lucas Grosso é a sua capacidade de transparecer, de se individualizar em meio à multidão que se apresenta nas grandes cidades ou no curso da história. Ao ler os seus poemas, nós passamos a conhecer um poeta que, apesar de despretensioso, eu diria mesmo modesto, apresenta uma voz de alcance universal. Por isso, enquanto os lemos, somos lidos por eles, pois a nossa vida também partilha da mesma matéria sutil, fragmentária, que tenta se situar em meio aos novos referenciais do século.

    Ao mesmo tempo em que o eu lírico é esmagado pela “existencial insignificância” com que se depara – especialmente, em meio à pandemia de Covid-19 – ele consegue singularizar a sua voz, criando um todo coeso e vivo. E isso só conseguimos vislumbrar nas edificações de grandes poetas – aqueles que conseguem traduzir não apenas a sua singularidade, mas a de sua época. Em um dos poemas, ele repete a expressão ‘só mais um corpo’ várias vezes, extrapolando o verso, dando ao corpo o destaque e a importância que ele não teve durante a nossa pandemia. O poeta, que também é um corpo, um “corpo que cinde e separa e apara e erra e rima / um corpo que se aparta”. Eu diria até mais: um corpo que se reconheceu existencialmente no mundo e transformou essa existência em Arte. A procura não se dá apenas em torno da palavra exata para compor um verso preciso, mas de um sentido para a própria existência em meio às grandes cidades. O poeta, confinado em sua morada, à beira de se esbarrar no vazio e no transitório, faz ressurgir a poesia dos fatos cotidianos, aparentemente banais, sem saber que a sua voz imprime na história um relato poético que sobrevive, que há de sobreviver ao tempo. E, por isso, ele se angustia. Mas há na sua angústia uma delicadeza lírica e universal, a tradução da nossa própria angústia, em múltiplas vozes ecoada. Em um dos poemas mais sutis, em meio ao isolamento social, ele percorre as ruas observando pequenas delicadezas na fachada das casas e, por serem assim, delicadas, ele tem a certeza de que pertencem à sua destinatária. De modo análogo, após a leitura do seu livro de poemas, podemos reconhecer o poeta em detalhes que nos circundam, como se ele abarcasse para si esses objetos, agora transformados de lirismo. “Aposto como Lucas escreveria sobre isso, aposto como ele encontraria aqui uma casa possível”, eu me peguei pensando ao olhar uma planta que se agarrava ao guidom de uma bicicleta abandonada, numa casa vizinha.

    E, assim, entre produtos industrializados, eletrodomésticos, plantas também confinadas, objetos inquebrantáveis em meio às relações que se quebram e se fragilizam, ou entre versos breviloquentes, o poeta alcança um olhar arguto sobre questões importantes que nos circundam:

    “dois bambus crescendo numa garrafa de suco jiboias em garrafas de cerveja e um mamoeiro em um vaso de barro composição de uma florestinha contra a selva de canteiros de obra que nos cerca” (em terceira meditação, p. 24) Nos poemas de Lucas Grosso, a forma enovela o conteúdo, há coerência entre essas duas instâncias. Assim como ele, são versos livres, mas quebrados, por vezes, deslocados em meio às linhas. Quando um verso é composto por uma única palavra, esta palavra ganha um peso extraordinário, o peso do próprio verso. E imprime-se, nessa palavra, as pausas que ele não encontra no seguir da vida. E, assim, com estrofes construídas em letras minúsculas, sem pontuações, a vida é um correr solto, fugidio, imprevisível. Mas não nos enganemos: é muito difícil compor um todo fluido e musical como este poeta consegue fazer. Uma fluidez que se configura na própria passagem do tempo que, para ele, é sempre presente. Para isso, é preciso escolher, com tenaz paciência, cada palavra que compõe o verso, de modo a privilegiar a plurissignificação. Talvez, por isso, A loja de lámen, fale de algo capaz de enganar a fome imediatamente sem nutrir alguma perspectiva em relação ao futuro. Em outras palavras, o verso é sucinto, comedido, pois a vida também é breve, a vida é o agora que nos perpassa. “onde olho tem caixinhas tudo aqui se resume e se limita em caixinhas” (em caixinhas, p. 72) Ainda assim, mesmo confinado em caixinhas, apartamentos ou potes de vidro, o seu olhar é aquele que se estende, ofertando-nos um prisma inusitado sobre as coisas comuns. E é isso o que se depreende dos seus poemas: um novo olhar. Um olhar que inaugura o banal à categoria do extraordinário. Ao mesmo tempo em que o poeta é esmagado pela insignificância existencial, ele se singulariza. Ao mesmo tempo em que se limita em versos sucintos, ele se expande ao olhar inusitado. Ao mesmo tempo em que ele usa a linguagem corrente, quase sem figuras, sem subterfúgios, sem rebuscamentos, ele consegue nos mostrar imagens quase fílmicas da vida no século XXI. Ao mesmo tempo em que ele luta metaforicamente com a finitude da vida, imprime-se nele a perenidade do tempo histórico, do qual ele só apreende o instante que passa: “feche as janelas feche as portas feche os olhos e mantenha abertos apenas os ouvidos e as narinas e aí Carolina sinta a vida disfarçada de vento disfarçada de goteira Carolina pelo mundo eis a vida a singrar” em Cartas para carolinas, p. 87) O que o livro de poemas de Lucas Grosso proporciona à Arte é a visão de que tudo é frágil, e por isso mesmo, tão raro; que os sentimentos e objetos que nos parecem banais são internamente revestidos de singularidades e poesia. E, ao final da leitura, que poderíamos ser nós mesmos a dizer aquelas coisas, se o tivéssemos reparado, ou seja, se tivéssemos o seu olhar e o seu talento.

    Rita Apoena, escritora

  • Leões na fechadura, de Fabiano da Mata: um romance genial

    Leões na fechadura, de Fabiano da Mata: um romance genial

    Por Rita Apoena

    No romance “Leões na fechadura”, de Fabiano da Mata (Editora Penalux, 2023), temos André, um senhor idoso que vive sozinho em um apartamento na companhia de um gato. Em certo momento, ele se vê muito incomodado com os novos vizinhos barulhentos que se mudam para o andar superior e lhe roubam o sossego. Escreve o autor: “O que são os homens sem o sossego? Quais loucuras não nascem da carência dessa pérola das mais raras?”

    Assim, sem contato com os seus familiares, André encontra, nos passeios matinais a um café, um alumbramento da sua existência, principalmente, quando encontra alguns velhos amigos (com quem mantém certa implicância) ou é atendido por Ana, uma moça muito bonita e amável, que resgata nele alguns sentimentos da mocidade. Além dela, ele também cultiva laços de amizade com Cidinha, uma mulher que trabalha em um restaurante e lhe fornece o almoço diário. Assim, a sua solidão se mostra latente quando ele encontra, nessas duas mulheres, a figura materna que lhe provê o alimento, a atenção e o cuidado que ele tanto precisa, embora não o admita nem a si mesmo.

    Quando Ana vai até o seu apartamento, ela repara que não há nenhuma foto dos seus familiares, algo que nem ele mesmo havia percebido. Desse modo, André está sozinho ao lidar com as vulnerabilidades provocadas pela velhice e se ampara intensamente em figuras femininas afáveis, mas estranhas. Essa vulnerabilidade é construída com muita densidade psicológica, pois o autor é capaz de edificar um personagem muito verossímil, um personagem que vive, que está vivo além das suas páginas, e que nos faz perguntar quando vamos encontrá-lo na rua, ao virarmos a esquina. Ainda hoje, muitos dias após ter finalizado o romance, ainda me pergunto por onde andaria ou como estaria o personagem.

    O crítico literário Harold Bloom, em seu livro “Como e por que ler”1, escreve que nós lemos não apenas porque jamais conheceremos na vida real tantas pessoas como através da leitura, mas também porque “amizades são frágeis, propensas a diminuir em número, a desaparecer, a sucumbir em decorrência da distância, do tempo, das divergências, dos desafetos da vida familiar e amorosa”. E, assim, ao fechar o romance, em estado estupefato, constatei que não havia fechaduras para o protagonista: ele adentrava os meus pensamentos assim como os vizinhos adentravam os seus. E isso porque a construção psicológica dos personagens acontece paulatinamente, de modo muito perspicaz, em detalhes que vão sendo espalhados ao longo de toda a narrativa, em diálogos e descrições de cenas. 

    Assim como os novos vizinhos adentram a sua vida, os seus pensamentos e os seus ouvidos, André adentra a nossa, em virtude do manejo inteligente das cenas. Em uma delas, quando vemos o personagem mais fragilizado em decorrência dos seus próprios impulsos, nós conseguimos estar literalmente em sua pele – envelhecida, ou sentir o seu intenso abandono. E, tal como ele, queremos oferecer proteção aos indivíduos mais vulneráveis: eis a empatia que ele nos desperta. Nós o transformamos num velho amigo, meio ranzinza, cheio de manias, teimosias e implicâncias, mas um velho amigo, alguém capaz de subverter a realidade. Pensa o protagonista: “Mas quem ouve os velhos? Dizem que em seus ouvidos só cabe cerume, que já são surdos de tantos murros mil desferidos pela vida. Mas não, os meus continuam afiados e afinados. Além do mais, ainda não estou nas últimas. Hei de suportar muita coisa.”

    Numa primeira leitura – pois há muitas leituras possíveis nesse romance labiríntico -, vemos o personagem muito incomodado com os novos vizinhos que se mudam para o andar superior e se portam de forma muito violenta uns com os outros. A paz e o sossego que André tanto prezava são subtraídos do seu cotidiano, e ele passa a experienciar uma dinâmica familiar muito diferente da sua. E, assim, de forma romanesca, também passa a elucubrar sobre a vida dos novos moradores, preenchendo, com características várias, as lacunas entre os sons que ele escuta daquela família. Maria, a mãe, subjugada por Armando, o pai, e Átila, o filho adolescente do casal. Escreve o autor: “Mas Maria, terrivelmente resignada, encarregava-se de quase tudo com seus braços de polvo. (…) A alma do apartamento já pertence a Maria. Os homens apenas habitarão. Maria, pelo contrário, transpirará com a casa, tocará as chagas do lugar. É sempre assim.”

    Nesse momento, temos a coexistência magistral de dois focos narrativos, que se mesclam de forma líquida, como se os personagens atravessassem realmente o teto do apartamento e se introjetassem em sua mente. Dessa forma, os barulhos dos novos moradores roubam-lhe a paz de espírito e direcionam o seu pensamento. A utilização de onomatopeias demonstra, na própria linguagem, a grande importância que os sons e os ruídos adquirem na vida do protagonista.

    Este, que vivia sozinho, ocupando-se de pequenas implicâncias com os amigos que lhe tiravam o sossego, vê-se sequestrado para dentro de outras vidas que lhe atormentam. Quando ele vivencia um crime sendo cometido, passa a se envolver de modo devastador no episódio, comprometendo a sua privacidade e a sua liberdade. E não podemos esquecer que o personagem deseja algo: continuar com o seu sossego e obter a atenção das figuras femininas presentes na história. Mas, mesmo quando ele busca essas figuras, elas também o colocam em conflito com o seu desejo.

    Há muito a se falar sobre o crime presente na trama e sobre o envolvimento de André no episódio, mas precisei de muito cuidado ao elaborar essa resenha para não estragar a surpresa do leitor, pois Fabiano da Mata encontrou um desfecho genial para entrelaçar toda a narrativa. Eu gostaria que o leitor, assim como eu, entrasse desavisado nessa história, e fosse também arrebatado por ela. Eis um romance que merece ser lido e relido muitas vezes. Um romance que aborda a vulnerabilidade do ser humano quando alcança a velhice, e os desdobramentos mentais que podem ocorrer quando os laços afetivos são fragilizados. Enfim, um romance genial.

    Rita Apoena, escritora

    Referência: 1.BLOOM, Harold. Como e por que ler, trad. José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 15

     

  • Uma comédia romântica com sensualidade

    Uma comédia romântica com sensualidade

    Romance que se passa em Santa Catarina mescla história de amor com bom humor

    Dona de uma mente perigosa e cheia de opiniões controversas. Exibida e temperamental. Ansiosa, safada, vingativa, iconoclasta. Mentirosa, provocante, apaixonada. Presa numa saia justa… Afinal, quem é essa pessoa?

    Roberta Witzack, personagem do livro “Quem falou?”, do escritor André Cunha, que acaba de sair pela editora Penalux.

    “Roberta é uma jornalista catarinense e está desempregada”, diz à nossa redação o autor do romance. “Uma figura de personalidade forte e humor afiado”, completa.

    Lançando mão do sotaque e das referências culturais de Santa Catarina, André nos apresenta uma deliciosa história de amor não convencional entre uma mulher exposta na internet e o sósia de um ator famoso.

    Segundo Francyne França, doutora em literatura pela UFRJ, o livro conduz o leitor por “curvas vertiginosas”.

    O enredo inclui uma relação fracassada com um magnata dos testes virais, uma temporada no colossal Yachthouse Residence Club em Balneário Camboriú e críticas contundentes a respeito de uma canção consagrada do sambista Cartola, entre outros desvios, atalhos e caminhos arriscados.

    Abaixo, a sinopse do romance:

    Comprometida com um e grávida de outro, a destemida e temperamental Rebeca Witzack lida com o problema enquanto relembra o passado: a balada em Jurerê internacional que deflagrou sua sede de vingança, o dia em que teve cenas íntimas vazadas na internet, a experiência heterodoxa como colunista de um portal de notícias, o pesadelo pandêmico vivido em meio ao luxo à loucura. Passando pela periferia de Florianópolis, por um arranha-céu repleto de celebridades em Balneário Camboriú e por outros cenários de Santa Catarina, Quem Falou? é uma comédia romântica inteligente que fala sobre testes virais, endometriose, lontras, futevôlei, ansiolíticos, Chico Buarque, sósias, mentiras sinceras, meias verdades e… otras cositas más.”

    TRECHO

    Cheirando meu cangote, quase me machucando com a barba mal feita, me deu uns tapinhas na bunda falando “tu gosta, né safada?”, ao que respondi com sincero deleite “ai ai, delícia.”

    O AUTOR

    Autor de vários livros, entre eles Brasília, GRAVIDADE ZERO, finalista do prêmio Sesc de literatura de 2015, pela Selo Jovem, a ficção especulativa O FUTURISTA – Reportagens Que Vão mudar o Mundo, pela Trevo, e a novela satírica COLISÃO FRONTAL, pelo Grupo Editorial Caravana, o autor se arrisca na comédia romântica sem deixar de lado as provocações que marcaram as obras anteriores. Uma história envolvente e hilária.

    SERVIÇO

    “Quem falou?”, romance; p. 160; R$ 45 (Penalux, 2023) – André Cunha.
    Link para compra:
    https://www.editorapenalux.com.br/loja/quem-falou
    [+] info.: andreluizrenato@yahoo.com.br e penaluxeditora@gmail.com

  • MÉDICO WILSON DAHER LANÇA LIVRO DE CONTOS

    MÉDICO WILSON DAHER LANÇA LIVRO DE CONTOS

    O psiquiatra e escritor Wilson Daher, de Rio Preto, lança o livro “Espectros” no dia 11 de novembro, das 9h às 12h, no Clube dos Médicos de Rio Preto. A obra, premiada no Prêmio Nelson Seixas 2023, categoria Literatura, foi editada pela Penalux e apresenta ao leitor 11 contos produzidos pelo autor ao longo de um ano.

    “Quis fazer algo que me provocasse alguma catarse das ideias reprimidas, instaladas há tempo, esperando o momento de virem à luz. E elas vieram de uma forma que me surpreendeu, já que o embrião das mesmas foi a ideia de que deveria criar algo diferente do que sempre criei, um desafio que me provocou”, afirma Wilson Daher.

    A obra tem apresentação de Anita Cecília Lofrano, psicóloga fenomenologista e professora do Departamento de Psicologia da UNIP de Rio Preto. “Recomendo ao leitor que faça uma leitura com sabor, deixando-se levar pela atmosfera de ‘Espectros’, em uma viagem profunda e sensível em direção à esperança e possibilidades humanas”, escreveu.

                Durante o lançamento, serão distribuídos gratuitamente 60 livros para o público.

    Gênero: conto | Editora: Penalux | Páginas: 84 | Valor: R$ 42

    ONDE ENCONTRAR

    www.editorapenalux.com.br/loja

    BIOGRAFIA DO AUTOR

    Wilson Daher nasceu em Macaubal (SP). Filho de imigrantes libaneses, é médico, psiquiatra, aposentado. Tem 84 anos. Escritor sazonal, com cinco obras publicadas às suas próprias expensas, é também cronista com publicações eventuais no jornal Diário da Região, de São José do Rio Preto (SP). Possui mestrado e doutorado em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp). Membro acadêmico da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Ocupa a cadeira número 9.

    Lançamento do livro Espectros, de Wilson Daher

    Data: 11 de novembro
    Horário: 9h às 12h
    Local: Clube dos Médicos de Rio Preto
    Alameda Dr. Oscar de Barros Serra Doria, 5661, Vila São Manoel
    Entrada: franca
    * Cada participante terá direito a receber gratuitamente um exemplar

    Contato do autor:
    facebook.com/wilson.daher.98
    17 99737-9171

  • VARIEDADE DE HISTÓRIAS HUMANAS

    VARIEDADE DE HISTÓRIAS HUMANAS

    Livro de contos busca retratar a vida urbana com suas dores e amores

    “A Moça na Laje e outras histórias” (Penalux, 2023), novo livro da escritora Lucia Leite, é um conjunto de contos cuja proposta é trazer ao leitor uma variedade de histórias contemporâneas, principalmente dentro de um cenário urbano.

    “É um livro sobre pessoas”, adianta a escritora em entrevista à nossa redação.  “Falo de amores e dores, nas várias formas de levar a vida.”

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    Os textos de Lucia transitam em vários registros das relações humanas: questões sociais, religiosidade, política, violência urbana, dificuldades e empoderamento das mulheres, os percalços e as alegrias do cotidiano.

    “Minha intenção com esses contos é despertar emoção, empatia, solidariedade”, continua a autora. “Assim como compartilhar experiências vividas pelos personagens. Fazer o leitor se reconhecer nas histórias contadas”, completa.

    Para o escritor Vilto Reis, a coletânea é um “retrato indispensável do sofrimento humano”.  

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    “É como folhear um álbum de fotografias”, diz a autora em definição à sua obra. “Você pode se ver em cada conto, cada relato. Vai lembrar de pessoas que passaram na sua vida, reconhecer nos personagens, indivíduos reais que encontramos no dia a dia, neste país tão grande, multicor e multifacetado”, finaliza.

    As histórias que compõem a coletânea são reflexos do real transformado em ficção pela mão de quem vivenciou, observou, se sensibilizou e encontrou verdade e beleza em cada uma delas. Isso porque, além de escritora, Lucia Leite também é médica, atividade da qual extrai matéria-prima para sua literatura.

    Os contos também falam de lugares, de modos de vida, de sentimentos; trazem informações de fatos poucos conhecidos, como os anos de chumbo, a marcha das margaridas, preservação ambiental, entre outros assuntos e conteúdos dos quais o leitor sairá tocado e surpreendido. Uma leitura com doses curtas, mas cada qual imperdível.

    O livro está à venda no site da editora Penalux.

    SERVIÇO
    “A moça na laje e outras histórias”, contos; p. 80; R$ 42 (Penalux, 2023).
    Link para compra:
    https://www.editorapenalux.com.br/loja/a-moca-na-laje-e-outras-historias

    SOBRE A AUTORA

    Lucia Elena Ferreira Leite, carioca, médica, formada pela Universidade Federal Fluminense, filiada à Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Sobrames/RJ, desde 2004, autora de contos e crônicas publicados em coletâneas e revistas, e de trabalhos premiados em concursos da Sociedade. Membro do coletivo de escritores Só uma sugestão. Em 2022 publicou seu primeiro romance “Perdidos” pela Editora Penalux.

  • Dom Pedro II, o imperador da América

    Dom Pedro II, o imperador da América

    Romance histórico trata de desnudar o homem por trás do monarca

    Que Dom Pedro II foi um grande vulto histórico, todos sabemos. O que poucos sabem é que o imperador foi assediado para ser presidente dos Estados Unidos, não só uma, mas três vezes.

    Tal desafio não foi levado adiante. Mas por quê?

    “O imperador da América”, romance histórico do escritor Aguinaldo Tadeu, não só responde a esse questionamento, como também revela o homem por baixo da coroa, com suas dúvidas, ambições, fraquezas e pecados.

    “Pedro de Alcântara, como de fato se chamava Dom Pedro II, foi um brasileiro peculiar que gostava de livros, viagens, idiomas e mulheres”, contou o autor à nossa redação. “No meu romance, Dom Pedro abre seu coração e conta suas aventuras, como a que teve com uma jovem americana de belos olhos azuis, que fez o imperador quase perder a cabeça, a coroa e o trono juntos”, revela Aguinaldo.

    Nas quase duas décadas retratadas na obra, Dom Pedro faz o relógio correr mais rápido: realiza viagens internacionais, administra os ciúmes da imperatriz e da Condessa de Barral, vence a Guerra do Paraguai, sofre com a oposição e os jornais, além de governar um império do tamanho da Europa.

    “O imperador enfrenta desafios, toma decisões importantes, alcança vitórias”, continua o escritor. “Ele ama e também comete seus pecados, porque abaixo da linha do equador ninguém é santo”.

    No texto de orelha, o escritor Leonardo Almeida Filho diz o seguinte: “O novo romance de Aguinaldo Tadeu é uma narrativa que, em sua agilidade e frescor, nos apresenta um Dom Pedro II original e cativante, muito distante daquela figura sisuda retratada nos livros de História do Brasil. […] Aguinaldo já nos brindou com outro delicioso romance histórico, ‘A mulher que proclamou a República’ (2020), no qual se debruça sobre o processo de instauração do novo regime, com a derrocada do Império e o exílio de seu atual personagem, Dom Pedro II. ‘O imperador da América’ nos oferece uma narrativa de ficção histórica, que, guardadas as proporções, remete aos folhetins de aventuras do século XIX, […] nos apresentando um novo Dom Pedro II, um herói possível, viável, injustiçado”.

    Além desses aspectos, como já dito, nessa obra o leitor também saberá qual a razão do imperador ter resistido ao assédio da maior república do mundo. Ou seja: por que não largou o Brasil e virou presidente dos Estados Unidos?

    Para além do seu trono, Dom Pedro II é uma figura emblemática em nossa História. Sua vida e seu período histórico, que foi tão importante para o nosso país, são expostos neste romance de uma forma ao mesmo tempo documental e cativante. O leitor vai se surpreender com este novo livro de Aguinaldo Tadeu.

    À venda no site da editora e também pela Amazon.

    “O Imperador da América”, romance; 16×23, p. 266; R$ 60 (Penalux, 2023).
    Link para compra:
    https://www.editorapenalux.com.br/loja/o-imperador-da-america

     

     

    Aguinaldo Tadeu nasceu em Belo Horizonte e mora em Brasília. É formado em História, tem pós-graduação em Marketing e mestrado em Comunicação. É autor de outros sete livros, passando por contos, romance, literatura infantil e poesias. Entre eles, está A mulher que proclamou a República, romance histórico, Penalux Editora, 2020, e O dono do rádio, contos, Giostri Editora, 2011, vencedor da Bolsa de Criação Literária da Funarte. Gosta de contar e ouvir casos, os reais e os imaginários, tomando um café de rapadura à beira de um fogão à lenha.

     

     

  • As várias facetas das “fraquezas da carne”

    As várias facetas das “fraquezas da carne”

    Por Krishnamurti Góes dos Anjos (*)

     

    Em “A inevitável fraqueza da carne”, primeiro romance publicado pelo escritor e editor Wilson Gorj, encontramos a história da vida de Carlos, um contador que recebe uma insuspeitada herança deixada por seu pai. Uma chácara em uma pequena cidade interiorana. Pesa sobre a memória do falecido a mágoa de ter largado esposa e o filho único como resultado de uma aventura amorosa com outra mulher. Exatamente neste ponto dá-se o início da narrativa que apresenta uma série de experiências que vão culminar em mudanças radicais na vida do protagonista.

    Foto: Luigi Ricciardi

    O homem é um pacato contador que mantem um escritório de contabilidade com um sócio. Casado há quatro anos com Luísa que deseja engravidar e almeja ainda fazer viagens mundo afora com o resultado da venda da tal chácara. Para tanto devem se inteirar da propriedade e entre idas e vindas ao imóvel, ele acaba descobrindo retalhos da vida do pai, ao tempo em que recompõe o drama vivido por ele e a mãe ante a ausência causada pela separação. Ao lado do terreno da chácara mora uma modesta família composta pelo caseiro que servia ao pai de Carlos, sua enigmática esposa e… Maya, a jovem e bela filha desse casal.

    As primeiras viagens ao lugarejo se dão com o propósito de conseguir comprador para o imóvel. As seguintes, vão aos poucos sendo arquitetadas por Carlos que desde que conheceu a garota, já não visava só esse objetivo. Maya passa a ser objeto de desejo, e pior, ela parece em certa medida corresponder. Está armado um dos laços para a fraqueza da carne que ele tanto condenava no pai. Como pode? Um homem casado se interessar por uma mulher, bonita, e jovem, e inteligente e ainda por cima estudante de Letras? Reforça tal circunstância a figura emblemática de uma jaguatirica que começa a rondar a chácara com objetivos de sanar a fraqueza do estomago com as galinhas criadas ali. Uma alegoria a situação. A jaguatirica, o desejo sexual, a fome e Maya.    

    A obra é, todavia, muito contida. Um narrador onisciente e neutro apresenta-nos a história em sua sequência linear. Nos deparamos com capítulos curtos de pequenas revelações graduais numa prosa leve que prende a atenção do leitor. Se tal recurso possui o condão de situar o leitor para o drama que pulsa e subjaz (a formação e proceder do protagonista ante as tentações e reveses da vida), deixa pouco espaço para estudos de personalidade dos personagens o que traria sem dúvida maior fôlego à narrativa. Sim. A segunda parte da obra nos parece uma tentativa nesse sentido tendo em vista que vem em primeira pessoa na voz do próprio Carlos.   

    Seja como for, o autor ao selecionar a porção de realidade que pretendia analisar, procedeu com base em um entrelaçamento dramático: reduziu o campo de observação para melhor compreender, e o fez estribado justamente na afinidade de conflitos. A partir de uma “fraqueza da carne” perpetrada pelo advogado Pedro Hamilton Franzzini, pai de Carlos, que resultou em separação da família, temos outros polos de “fraqueza”, como é Luísa a esposa do protagonista, uma mulher fútil, com desejos de cunho hedonista a pensar em viagens memoráveis pela Europa e a decorar quartinho de bebê. Dona Marta a esposa do caseiro, e mãe de Maya, mulher desconfiada, misteriosa e de poucas palavras, a fatídica e enigmática doutora Miriam, que conviveu com o pai de Carlos durante mais de vinte anos, e andou fazendo na juventude ensaios para a revista playboy. O comportamento verdadeiramente egoísta de dona Carmen a mãe do protagonista que – rezou a lenda no final – o criou como se fosse um boneco de estimação e não um ser humano, e afinal é acometida de um transtorno neurodegenerativo progressivo e fatal que se manifesta pela deterioração cognitiva e da memória. O mal de Alzheimer.

    Tudo acaba por se aglutinar, numa interdependência simbólica que se interliga à proeminência essencial do drama de origem. A traição do Pai de Carlos, a separação e a nenhuma convivência familiar. Esse drama central ilumina o entendimento dos secundários e estes por sua vez ajudam a entender o outro no sentido de ampliar as inúmeras nuances do que entendemos por egocentrismo. Ou por outra, as nossas (in)evitáveis fraquezas da carne. E do espírito também.

    O autor provoca a libido do leitor. Arma uma cena que atiça nossa imaginação… O tal de Carlos vai a certa altura lá em um riacho com o caseiro Romildo e sua filha Maya, passam a tarde tomando banho no tal riacho, muita conversa, olhares, sorrisos, toques e etc. e depois, já de volta ela aparece no sítio dele a propósito de devolver um óculos escuro. Os dois se veem depois umas duas cervejas geladas na cabeça, sentados numa mesma rede. Estão sozinhos na casa. Corpos colados na rede, ele um homem de trinta e poucos anos, ela com vinte e três, morena, linda, suave, dócil e: “Os dois estavam muito próximos. Ficaram se olhando, sorrindo. O sorriso, no entanto, foi se desfazendo e dando lugar a uma expressão mais séria, compenetrada. Os lábios de Maya entreabriram-se um pouco. Mantinham-se os olhos fixos. Os rostos se aproximavam lentamente…”  mas afinal o que havia entre os dois de fato? Puro desejo? atração física? Ternura? Um amor nascente? O narrador não diz. Ao leitor as conjecturas que eu não estou aqui para dar spoiler do que ocorreu a seguir, claro.

    Entretanto não posso me furtar a dar um spoiler, e que me perdoem o autor, o editor, os leitores, os ortodoxos em matéria de resenha e etc., me perdoem todos. Sabem o que aconteceu com a jaguatirica? Aquele bicho que andava assombrando as galinhas do sítio e etc. e tal? Foi morta a bala pelo novo proprietário, um militar reformado. Teve seu couro pregado em um muro como um troféu. Misericórdia! Essa metáfora tem o peso de uma machadada certeira! Pronto, falei.

    O livro nos brinda ainda com uma dose extra e divertida de inventiva. Há um prólogo de apenas 3 páginas em que se narra a gênese (ficcionalizada claro) da obra. Dois amigos se encontram num bar e comentam sobre os originais que um deles está escrevendo. Isto sobre o olhar e escuta bisbilhoteira do garçom (ah são tantas as fraquezas da alma). E ao final surpreendentemente, lemos um “Posfácio com efeito de epílogo”, escrito pelo mesmo amigo lá do início, e que estabelece uma ficção paralela. Este amigo é quem explica os rumos que obra e autor tiveram. Positivamente inventivo.

    O autor apostou na capacidade de a ficção desvendar sendas ocultas do real, assumindo uma postura crítica em relação ao poder mimético – em seu sentido de transformar e ampliar sentidos – da expressão “fraqueza da carne”. Com isso assume a subjetividade e mesmo a precariedade das perspectivas no enfoque do real. Talvez esta seja uma forma menos ilusória e, portanto, mais eficaz de conhecer. Há de se ter em vista nuances…

    Vale referir finalmente que uma das epígrafes do livro, e que abre a segunda parte da obra de autoria do escritor tcheco Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser”, afirma: “Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem retificada em vidas posteriores.” Muito bem; na sequência da narrativa, quando se desenrola um atropelo de acontecimentos negativos que oprimem ainda mais o existir sofrido do protagonista Carlos, e que afinal fica sabendo que a fraqueza da carne – no sentido mais profundo do desejo sexual e da traição em mais alto grau – vieram de onde menos se esperava, ele pensa: “Deve haver algum deus cuja presença se manifeste de forma intermitente. Isso explicaria porque algumas vezes (na maioria dos casos, na verdade) as coisas parecem seguir um fluxo desordenado, ilógico, para não dizer ruim, e em outras (pouquíssimas vezes, acredito) tudo acontece como se por trás dos eventos houvesse a regência de uma inteligência atenta e benevolente”. Está plantada a nível de reflexão, a dúvida no espírito do leitor. Só teremos uma vida de fato? Estaremos fadados ao nada após a morte? Existirá um deus? Sim; e o tal do livre arbítrio humano, essa eterna questão: qual o limite – elástico (?) – do nosso livre arbítrio num tempo em que o homem vem se rebaixando ao nível da “fraqueza da carne” das feras selvagens e vive como se não houvesse mais nada, além do aqui e agora hedonista, incapaz que vem se tornando de sondar, imaginar sequer, algo além.

    O romance convence e realiza-se como tal porque o autor soube em boa medida operar um consórcio harmonioso entre memória, observação e imaginação. Em pinceladas leves “A inevitável fraqueza da carne”, ventila e nos faz refletir também sobre temas vitais da condição humana como a consciência do amadurecimento, a morte, a solidão, a traição, o amor… Sim, é verdade, estamos diante de um primeiro e tímido passo de um autor que já publicou obras de microficção, minicontos e poesia minimalista. Aguardamos, portanto, e com vivo interesse, seus próximos passos na prosa de maior fôlego que é o romance, com os votos que a explore com maior amplitude, densamente, criando atmosferas ficcionais onde aflore a psique humana em suas profundidades. Já demonstrou que é capaz. Adiante pois.         

    (*) Krisnamurti Góes dos Anjos tem publicados os livros: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos, Doze Contos & meio Poema e À flor da pele – Contos.  Participou de 30 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Há textos seus publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último romance publicado pela editora portuguesa Chiado – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional – Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea veiculadas em diversos jornais, revistas e sites literários. 

  • Na dúvida, é melhor não mentir

    Na dúvida, é melhor não mentir
    Em seu romance de estreia, escritor aborda questões contundentes como prostituição infantil e fake news

    “A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais”, sentencia Dostoievski em sua obra-prima “Crime e Castigo”.
    Partindo dessa premissa, o escritor Luiz Gustavo de Sá apresenta seu novo livro, o romance “Na dúvida, é melhor não mentir”, que está saindo pela editora Penalux.

    Clique na capa!

    O livro é protagonizado por Ricardo Galego, um jornalista desempregado que vem levando uma vida niilista e sem maiores pretensões, até que a inesperada gravidez de sua namorada surge para sacudi-lo do seu torpor. A exemplo de Bentinho, personagem machadiano do romance Dom Casmurro, Ricardo também tem dúvidas sobre a paternidade do filho que sua companheira espera.
    Segundo o autor, a ideia principal do livro é levantar discussões sobre as noções de “verdade” e “mentira”. “Devemos fazer distinções entre as verdades que são subjetivas, que não servem para todos, e as mentiras descaradas, usadas deliberadamente com diversos propósitos, tanto a nível pessoal quanto midiático”, diz Gustavo.
    Paralelamente, há outra história em curso.
    O personagem aceita uma proposta de trabalho de um colega, que é editor de um jornal sensacionalista. Ricardo, portanto, é contratado para participar de uma reportagem sobre uma rede de prostituição e exploração sexual de menores, que atualmente vem sendo investigada por uma CPI. O jornalista parte para Lisboa com essa missão na bagagem. Durante a viagem, Ricardo se vê envolvido acidentalmente num crime, após conhecer uma jovem misteriosa. Após vários contratempos, ele retorna ao Brasil e tem uma grande surpresa relacionada ao filho.
    “Com texto fluido e personagens construídos com muito cuidado”, destaca Daniel Zanella, editor do periódico literário RelevO, “a obra envolve o leitor em um enredo engenhoso e bem-humorado, sempre na medida certa, com uma surpreendente reviravolta em seu final.”
    Zanella concluí assim o texto que consta na orelha do livro: “Entre jogos de poder e os bastidores da indústria jornalística, ‘Na dúvida, é melhor não mentir’ entrega um olhar profundo e divertido da natureza humana”.
    O autor também procurou abordar a questão das fake news nesse seu romance de estreia. De modo que assim que o personagem regressa ao Brasil, ele descobre que seu editor fez mal uso do material que lhe fora entregue, forjando uma falsa narrativa em cima de sua reportagem investigativa.
    “Dessa forma, tanto a gravidez de sua namorada quanto os acontecimentos da viagem colocam em xeque várias convicções do protagonista”, adianta o autor. “As suas verdades, que ele julgava inabaláveis, são então questionadas”.
    O livro nos convida a refletir sobre como as verdades são subjetivas e variadas e como as mentiras podem ser intencionalmente forjadas a partir de diversos interesses, alguns inofensivos, outros, perversos e repletos de más intenções.
    Em tempos de pós-verdade, em que as fake news infestam as redes sociais e as mídias, a obra oferece exemplos de como a manipulação dos fatos são usadas para influenciar corações e mentes.
    “Vai chegar um dia em que tudo poderá ser verdade”, diz um dos personagens do romance, que se passa em 2004. “Todo mundo vai falar o que quiser e muita gente vai acreditar. Todo mundo vai manipular a realidade de acordo com o gosto do freguês. Uma história bem construída vai ser mais importante do que a verdade, e vai se espalhar muito rapidamente”.
    Qualquer semelhança com a realidade de hoje não é mera coincidência.
    Gostou da proposta desse romance?
    A obra já pode ser adquirida nas plataformas de venda disponibilizadas pela editora.

    SERVIÇO

    “Na dúvida, é melhor não mentir”, romance – Luiz Gustavo de Sá. R$ 45 (174 p., Penalux, 2023).
    Link para compra: editorapenalux.com.br/loja/na-duvida-e-melhor-nao-mentir

    SOBRE O AUTOR

    Luiz Gustavo de Sá nasceu em São Luiz Gonzaga-RS e mora em Niterói-RJ. É engenheiro pela UFRJ e historiador pela UFF. Foi premiado no III Concurso Municipal de Contos da Prefeitura de Niterói (2005); pré-selecionado na edição de 2018 do Prêmio Sesc de Literatura e semifinalista do 3o Prêmio Internacional Pena de Ouro (2022) da Casa Brasileira de Livros. Publicou os livros de contos “Parafernália” (2020) pela Editora Itapuca e “Ninguém está olhando” (2022) pela Editora Penalux. Participou de diversas antologias de contos e poemas.

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