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  • Letras & A Morte, livro de estreia de Nina Oliva, será lançado no dia 19 de julho, em Piracicaba

    Letras & A Morte, livro de estreia de Nina Oliva, será lançado no dia 19 de julho, em Piracicaba

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    No dia 19 de julho, a Biblioteca Pública de Piracicaba será palco para o lançamento do livro “Letras & A Morte”, romance de estreia da autora Nina Oliva.

    A trama, que explora as complexidades das relações humanas e as sombras do passado, desenrola-se em torno de Luiza, uma artista talentosa, e Francisca, sua irmã. Luiza é acusada de assassinar um magnata dos negócios, Klaus Weber, o que mergulha Francisca em uma jornada de descoberta e dor. A narrativa alterna entre memórias do passado e eventos presentes, revelando segredos familiares, dilemas éticos e a busca pela verdade. Em meio a este turbilhão, a livraria “Letras & Lembranças” serve como um cenário simbólico onde a literatura e a realidade se entrelaçam, trazendo à tona temas de redenção, culpa e amor fraternal.

    O livro promete cativar os leitores com uma história cheia de mistérios, emoções e revelações surpreendentes. Uma leitura indispensável para os amantes da literatura contemporânea e aqueles que apreciam histórias bem construídas e repletas de nuances emocionais.

    O lançamento acontecerá na Biblioteca Pública de Piracicaba (Rua Saldanha Marinho, 333 – Centro), no próximo dia 19 de julho às 19h.  Os exemplares estarão disponíveis para compra durante o evento.

    Sobre a autora

    Regina Oliveira, também conhecida como Nina Oliva, é natural de Bagé, RS, mas construiu sua vida em São Paulo, na correria da capital, onde formou-se em Letras, trabalhou em grandes empresas e criou filhos incríveis. Mudou-se para Piracicaba há cerca de um ano, onde se dedica às Letras e a reverenciar o rio que atravessa a cidade a poucas quadras de onde mora. Fã de Clarice Lispector, Virginia Woolf, Donna Tartt e Socorro Acioli, a autora afirma buscar na liberdade destas escritoras e dessa natureza a inspiração para contar histórias.“Letras & A Morte” é seu livro de estreia.

    Sinopse: “Letras & A Morte” é uma obra que se destaca pela sua leveza e sutileza narrativa. Combinando elementos de biografia e romance de espionagem, o enredo gira em torno de um intrigante assassinato em um escritório de arquitetura exclusivo em São Paulo contemporânea. Os personagens, longe de serem estereotipados, são complexos e envolventes, mantendo o leitor tão intrigado quanto os espectadores de uma novela famosa sem resposta para seu mistério central. Se você procura por uma leitura cativante, este livro certamente irá satisfazer suas expectativas.

    Link para a compra do livro:

    https://www.editoralitteralux.com.br/catalogo-titulo/letras-a-morte

    Lançamento – Letras & A Morte – Editora Litteralux, 207 páginas

    (À venda no local do lançamento)

    Biblioteca Pública de Piracicaba

    Rua Saldanha Marinho, 333 – Centro

    Data: 19/07/24

    Hora: 19h00

  • Breve entrevista com o poeta Giovani Miguez – por Fernando Andrade

    Breve entrevista com o poeta Giovani Miguez – por Fernando Andrade

    Fernando Andrade: A sonoridade e os signos decifráveis do poema. Comente a respeito.

    G. M.: A minha poética funde sonoridade e significado, criando uma experiência estética que vai além da abstração. A musicalidade dos versos, com suas rimas e ritmos, quando existente, ecoa a melodia do cotidiano, aproximando a poesia da vida real. Mas esta sonoridade não é minha prioridade.  Talvez como Nicanor Parra, o que faço seja uma antipoesia, um antilirismo. Vez ou outra o lirismo me pega, mas não é meu ethos natural.  Essa fusão entre som e sentido, entre o canto e a linguagem, penso, permite ao poeta expressar a beleza e a complexidade da experiência humana de forma acessível e tocante. A sonoridade reforça o significado das palavras, criando uma experiência sensorial completa para o leitor. Qualquer poeta veste-se da palavra e da eufonia nela contida, mas só os grandes poetas – e creio deva ser essa a meta – fundem-se com a poesia que os atravessa.

    Livro de poesia do autor Giovani Miguez (Penalux, 2024)

    Como se dá a relação entre forma e conteúdo em sua poesia?

    A minha poesia reflete a criação através do prosaico e do cotidiano. A forma dos poemas, muitas vezes concisa e direta, espelha a simplicidade da vida diária. O conteúdo, por sua vez, extrai beleza e significado dos momentos comuns,buscando  transformar o ordinário em extraordinário. Essa relação entre forma e conteúdo cria uma poesia, penso, autêntica e acessível que expressa minha voz e que ressoa como eu vejo a experiência humana.

    O que mais os leitores encontram em seus poemas?

    Busco explorar a tensão entre espaço e liberdade. O espaço físico, muitas vezes limitado e fechado, contrasta com a liberdade do voo e do canto, que necessitam de espaço aberto para se manifestarem. O som, como um elemento que se propaga no espaço, transcende as barreiras físicas e se torna um símbolo de liberdade e expressão. A minha poesia utiliza o som e a imagem desse voo para evocar a liberdade e a transcendência da experiência humana. Na minha poética, apesar das limitações impostas pela antipoesia que me habita, busco sempre verter a permanente sangria que me limita para expressar um eu lírico incapaz de abraçar toda a poesia do mundo. A poesia é esse algo inefável, incontível e inalcançável que o poeta só é capaz de tocar de forma imperfeita e sempre muito limitada.

    A solidão é uma excelente fonte de inspiração para o poeta. Superado esse momento criativo e solitário, vem a necessidade de comunicação?

    Na minha poesia, manifesto a solidão do poeta como um estado necessário para a criação, mas reconheço e não descarto a importância da comunicação e da conexão com o leitor. A palavra, como forma de comunicação, me permite, enquanto poeta, compartilhar experiências e emoções, criando um espaço de encontro e identificação com o leitor. O ato poético, portanto, não é apenas um ato de expressão individual, mas também um ato de comunicação e conexão humana. Não obstante, o poeta não deve ter como missão a comunicação, mas a pura expressão de seu eu lírico; pois, desde as minhas primeiras investidas na escrita poética tenho consciência de que, como poeta, escrevo apenas poemas; a poesia escreve a si mesma.

    *

    Clique na capa para acessar a vitrine do livro

    Giovani Miguez é escritor, poeta, filosofante e caminhante. De Volta Redonda, RJ,  atualmente vive na capital fluminense. Autor de dez livros, entre eles: Na escuridão da travessia, poesia – 2 vols. (Selin Trovoar, 2022),  Poesofias, entalhos e alguns retalhos (Opera Editorial, 2023) e Garrafas ao mar (Editora Minimalismos, 2023). Eufonia, euforias e agonias é seu 11º livro; o primeiro pela Penalux.

  • Entrevista com o escritor Mário Baggio – por Fernando Andrade

    Entrevista com o escritor Mário Baggio – por Fernando Andrade

    Fernando Andrade: A precisão de sua escrita para sondar temas como solidão, morte, perdas, aproxima o leitor de uma imersão completa dos temas. Como desenvolver estas possibilidades ficcionais?

    M. B.: Acredito que esses temas são universais e estão, de uma forma ou de outra, presentes na literatura de todo escritor ou escritora. São temas inerentes à vida humana. Qualquer ser vivente pensa na morte, que é a única certeza que ele tem. A literatura, seja na prosa ou na poesia, é a arte de contar histórias sobre pessoas e as relações com seus semelhantes e com as coisas do mundo. É quase automático, quando se fala de pessoas, mencionar solidão, abandono, perdas, laços afetivos que se fazem ou se desfazem, enfim, falar de relações. Porque as pessoas se fazem por meio de suas relações. “A vida é uma palavra muito curta”, assim como meus outros livros de contos, surgiu com esse tipo de visão de mundo.

    Livro de contos “A vida é uma palavra muito curta” (Editora Penalux, 2024)

    Depurar a ação dramática seria um expediente oportuno para evitar certo desperdício, ainda mais num gênero tão conciso como o conto. Explane seu método de trabalho.

    Para produzir um livro de contos, eu parto de um tema geral. Um tema-máster, que dará o norte das narrativas que farão parte do volume. A partir da definição desse tema-máster, eu começo a escrever as histórias, que podem se relacionar diretamente com ele ou apenas tangenciá-lo. De alguma forma, o tema escolhido estará presente em todas as narrativas. Isso contribui para dar certa unidade ao livro. Procuro utilizar o formato livre de escrita, isto é, no mesmo volume o leitor pode encontrar um texto experimental, um de formato mais realista, uma narrativa mais longa, outra mais curta, uma com toques de realismo mágico, outra mergulhada no nonsense etc. Gosto dessa variedade, penso que isso traz riqueza à coletânea. Eu persigo a concisão, a síntese. Acredito no “usar menos palavras pra dizer mais”. E às vezes até nem dizer, mas apenas sugerir. Gosto também dos finais abertos, deixando que o leitor conclua a história da forma que ele preferir. “A vida é uma palavra muito curta” é um livro cheio de histórias assim.

    Os personagens logo entram dentro de certa confusão ontológica do ser, do estar. Não estão paralisados por fobias ficcionais. Nos fale desses personagens.

    Gosto de pensar que abordo meus personagens num momento crítico de sua existência. Meus contos não apresentam descrições detalhadas da vida pregressa dos personagens, porque isso não interessa ao desenvolvimento da história. Quero flagrá-los num instante de fragilidade e observar suas reações. “Um elo a mais” e “João Cirilo analisa as probabilidades”, contos presentes em “A vida é uma palavra muito curta”, são exemplos típicos desses instantes de fragilidade.

    Queria que você falasse um pouco do título que foi extremamente feliz em criar nuances de significados para seu livro. Fale desta opção.

    “A vida é uma palavra muito curta” é uma coletânea de contos sobre o tempo. Não o tempo do relógio, aquele que nos obriga a correr para cumprir compromissos, mas também sobre ele, em certa medida. O foco principal, no entanto, é sobre os momentos em que tomamos rapidamente uma decisão, sem intuir, de imediato, que consequências iremos sofrer lá na frente. Ou, por outro lado, os momentos em que nada fazemos, por medo ou omissão, sofrendo, da mesma forma, as consequências dessa inércia. O conjunto de contos é dividido em 3 partes: “A eternidade do instante” (quando a vida nos presenteia – ou nos amaldiçoa – com aqueles segundos que passam como as faíscas de um palito de fósforo ou, ao contrário, com aqueles instantes que parecem eternos; nos dois modos, somos instados a tomar decisões e sofrer as consequências que, sempre, são inevitáveis), “O tempo em tempo de estio” (quando o tempo parece parar e nos proporcionar instantes de contemplação e reflexão; aqui, os textos ganham uma vestimenta de prosa poética) e “O futuro foi muito pior” (aqui estão elas, as consequências do que foi feito lá atrás).

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    Clique na capa para acessar a vitrine do livro

    Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP. Tem 5 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020) e “Antes de cair o pano” (2022). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Crônicas Cariocas, entre outras). Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021) e Antologia de Contos da União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

  • A leveza poética em A inevitável fraqueza da carne, de Wilson Gorj

    A leveza poética em A inevitável fraqueza da carne, de Wilson Gorj

    Por Alexandra Vieira de Almeida*

    Para Italo Calvino, a leveza é uma das características importantes que permeiam a obra literária e, por meio disso, Wilson Gorj, em seu romance de estreia, encanta os seus leitores com algo que não é indigesto, insalubre ou extremamente pesado. O teórico italiano descreve tal qualidade em Seis propostas para o próximo milênio, entendendo o tema crucial da leveza para o terceiro milênio e cita o poeta Paul Valéry para exemplificar essa temática tão necessária para os tempos atuais: “É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma”.

    O livro de Wilson Gorj, A inevitável fraqueza da carne, utiliza metáforas para falar das paixões humanas, como o animal jaguatirica que teima em querer destroçar as galinhas da chácara que o protagonista Carlos ganha como herança do pai que faleceu. Carlos é casado com Luísa há quatro anos, que vislumbra grandes possibilidades nessa herança para o casamento deles, embora não seja assim dessa forma, o que frustra os sonhos dela. O personagem principal se vê às voltas com seus desejos e paixões, como a traição, pois se encanta pela filha do caseiro, seu Romildo. O nome dela é Maya, cuja grande beleza atrai Carlos perdidamente. No entanto, seus impulsos são marcados, por vezes, pela contenção ao pensar no passado de seu pai que traiu sua mãe, causando um rompimento dele com o pai na infância. O animal que percorre a narrativa, como está apresentado na capa do livro, é uma imagem do lado selvagem, implícito no início da narração e, ao longo do livro, se solta levemente na relação entre ele e Maya. Esse nome não é gratuito, pois, na religião hinduísta e no budismo, maya é ilusão.

    Carlos vê Maya com um livro de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, e para se aproximar da moça decide procurar em sua casa, na cidade, fora do campo, onde mora com a esposa, o seu exemplar, para criar conversa sobre a obra. O livro existencialista e filosófico trata do tema erotismo por meio de uma linguagem mais difícil, desafiando o leitor, já em A inevitável fraqueza da carne, o tema é tratado de forma antropofágica como no bom modernismo, deglutida por Wilson Gorj, num tom mais ameno e psicológico, sem pretensões mais complexas. Nem todo livro tem de ter uma grande complexidade para ser bom, mas pode ser uma obra com uma boa história bem contada, com temas que sejam trabalhados com certa densidade, sem ir a muito adensamento. Isso o escritor aqui faz muito bem com certa propensão a ir às zonas subterrâneas, escrevendo sobre traição, paixões, desejos, medos, morte, doença, entre outros, de maneira aprofundada e psicologicamente trabalhada, pois há questionamentos do narrador e do personagem, cujas vozes, em certos momentos, se confundem, principalmente na segunda parte da narração. Nessa segunda parte, de forma rica e ambígua, o narrador muda na primeira parte da terceira pessoa para a primeira pessoa. Uma história bem contada vale mais que mil palavras, às vezes, de intensa filosofia, porém não bem urdida, o que não é o caso de Milan Kundera, escritor de grande estirpe literária, que serve como homenagem no romance de Gorj, tanto é assim que o título deste é uma referência àquele. As histórias bem contadas se perderam muito, como escreveu o ensaísta Walter Benjamin no seu texto “O narrador”, elogiando muito o escritor russo Leskov, que sabia narrar excelentes histórias.

    Citemos a passagem do animal selvagem que aparece ao longo do romance de Wilson Gorj:

    “Os cães do caseiro, na casa ao lado, latiam sem parar. No galinheiro, as aves também pareciam alvoroçadas. Ele apontou a lanterna naquela direção e teve um sobressalto: a luz devolveu dois olhos vermelhos olhando fixos para ele. […] Os dois, homem e felino, ficaram se mirando por um tempo […] Como nas ocasiões anteriores, o facho da lanterna tinha o efeito de inibir seus movimentos, deixando-a sem ação imediata: as patas dianteiras já tocavam o grosso galho que se projetava sobre o muro. Ela virou a cabeça um pouco para trás […] e, saltando sobre o galho, avançou para dentro da árvore engolida pela escuridão.”

    Os elementos eróticos ainda estão escondidos na escuridão, as paixões são mais contidas, depois, avançam com maior liberdade. No encontro erótico entre Maya e Carlos, no riacho, surge um animal, um carcará, que é apontado por ela antes de se banharem. O animal é o símbolo selvagem do desejo reprimido, que, no texto citado, permanecia ainda na escuridão. Os animais comparecem em vários momentos da narrativa representando o lado animalizante do humano, seus impulsos, tensões e pulsões, como a boa psicologia freudiana explicaria e que aqui tem sua representação mais simbólica. Há sonhos em que aparecem metamorfoses animalizantes da personagem, revelando, assim, a mescla dos sonhos e devaneios com a realidade e vice-versa. Como na interpretação dos sonhos de Freud, os sonhos na obra explicam muitas coisas inacabadas na história vertiginosa de Gorj. E a poesia é o elemento atenuante e romântico para sublimar esses desejos mais plenos e selvagens do humano. Em vários momentos do romance, Wilson mescla a prosa e a poesia, dando leveza aos contornos mais subterrâneos da história.

    A mãe de Carlos, internada num asilo por conta do Mal de Alzheimer, merece atenção do filho, que demostra pena por ela e aversão ao pai pela traição. Há, contudo, um conflito, ele, por ironia do destino, é pego na mesma dimensão viciosa do pai. Por vezes, o personagem se lembra do pai e da mãe e, por vezes, dá asas à liberdade do desejo sem questionar, só agir. A ação, sem se deter em pensamentos internos, o faz adentrar na paixão desmedida. E a mãe de Maya parece ser a voz da reprovação à que a filha não dá atenção, pois se vê como adulta e plena de sua própria independência nos seus 23 anos. Carlos, um contador, se vê com problemas de entendimento com a esposa Luísa. Ele guarda um segredo que deseja revelar à esposa, os leitores saberão quando lerem o romance genial de Wilson, que me captou e me absorveu logo de início, com sua mistura entre o biográfico e o ficcional, a tal da tão criticada autoficção que não deve ser desprezada, pois, se tramada com a qualidade literária de Gorj, não pode ser duramente deixada de lado.

    O tema da autoficção em Gorj é desenvolvido antes e depois da trama. No miolo de seu livro, temos a história contada. No início e no fim, Gorj, magistralmente, faz um jogo literário fascinante, colocando antes da história, um prólogo e, depois, um epílogo, tratando do tema da autoficcionalidade. E no meio, uma história ricamente contada, cujo autor é Carlos, formado em Ciências Contábeis, enquanto tem um amigo que o ajudará a revisar o seu livro, formado em Letras. No prólogo, Carlos e seu amigo se encontram num bar para discutir e, no epílogo, só temos o amigo das Letras relatando como se desenvolveu a escrita do texto literário, tendo, assim, uma mistura entre metaficção e ficção densamente construída, sem as complexidades filosóficas kunderianas, mantendo, porém, a qualidade literária. Os críticos não têm motivos para tal alarde com relação a essa forma de narrativa.

    Com relação à mistura entre prosa e poesia, para exemplificar seu lado poético, neste estudo sobre a obra inventiva e plural de Wilson Gorj, cito um trecho em que a poesia erótica, na descrição de Carlos com relação a Maya, deixa um quê de beleza imagética a imantar o texto de originalidade:

    “Ela deu outro mergulho muito próximo a ele. O bumbum aflorou à superfície por um instante, duas ilhas que logo afundaram submersas. Sobre suas ondulações, um olhar perdido, à deriva, como um náufrago. Carlos parecia hipnotizado.”

    Na segunda parte do romance, é a primeira voz que fala, é Carlos o narrador, porque a narrativa vai se concentrar num amontoado de tensões a partir de uma carta que ele recebe de uma personagem que não me cabe relatar aqui para não se perder a surpresa. O final do texto literário de Wilson Gorj é inusitado, algo inesperado que dá à sua obra um caráter de literariedade muito grande, pois é no nocaute que o livro se faz, e Gorj soube nos nocautear no arremate fatal de seu romance. O brilhantismo de seu livro, realmente, me comoveu e comoverá os seus leitores. Uma salva de palmas para o primeiro romance de Wilson Gorj, que espero que não seja o único, mas o início de uma série de livros, que nos impacte de forma criativa e ímpar como o fez A inevitável fraqueza da carne.

     

    Alexandra Vieira de Almeida – escritora e doutora em Literatura Comparada (UERJ)

  • “Chegar ao fundo do osso” revela nossa contemporaneidade

    “Chegar ao fundo do osso” revela nossa contemporaneidade

    *  Por Fernando Andrade

    Se o osso estivesse no meio do caminho, apenas um objeto duro e inanimado, não seria um cemitério de ossos, seria o osso duro de roer que nem os ratos o fariam. Nesta avenida chamada Brasil, cada um porta seu osso de ofício para ir do caminho ao trabalho, para fugir do espelho que dobra cada ruga mais dormida do cansaço da vida laboral. Mas o poema podemos dizer que não é uma boa imagem para a localização de quem porta nos bolsos pedras-ironias para jogá-las aos porcos.O poeta é um militante e não faz coletivos para fazer isto de pedagogia do oprimido. Poeta pratica uma dor elegante com outro poeta curitibano, sabe que sentenças não cabem num verso, apenas em petições.

    Diego Ruas nos trova a dor mais elegante e a  canção gesta inconformismo, rebeldia, e muitos cigarros à beira do precipício.

    No seu novo livro “Chegar ao fundo do osso”, pela editora Penalux, o autor passa a fase especular e atravessa o corpo para imergir dentro dele tanto da palavra como da imagem da carne, metáforas e desumanidades. Passa por um lugar tão elástico quanto uma enorme lauda para escrever: a pele. Chega ao osso este espaço entre os órgãos, esqueleto de sustentação ao bípede, ao mundo caminhante.

    Diego fez um belo trabalho sobre o que nos torna dentro da selva do homem, mais humanos e  coletivos.     

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  • A construção em camadas d’A inevitável fraqueza da carne

    A construção em camadas d’A inevitável fraqueza da carne

    Por Rita Apoena

    No surpreendente romance de Wilson Gorj, A inevitável fraqueza da carne (Editora Penalux, 2023), temos uma narrativa que se impõe ao leitor, que o fisga desde a primeira frase e não o deixa abandonar a leitura antes da sua completa finalização. Isso porque a verossimilhança é plenamente alcançada pela bem elaborada construção das personagens. É por meio de suas atitudes e de suas interações que a sua psicologia resplandece, bem como os conflitos que os movem.

    Como o romance mais interno é construído por uma das personagens – e temos aqui um romance dentro do outro – não temos elucubrações que o autor-personagem não poderia saber. Assim, os focos narrativos são usados de modo muito assertivo. Ponto para ele: a narrativa ganha em agilidade. Além disso, a linguagem é concisa, as cenas são dinâmicas, cirurgicamente colocadas, de modo que cada elemento em cena tenha um sentido preciso e profundo no texto. É como se, por trás de um texto “enxuto”, fossem escondidas muitas metáforas nas entrelinhas, de modo a ampliar a significação de cada elemento de criação. 

    Nessa narrativa, temos poucos personagens, mas habilmente construídos. Carlos é contador e um dos sócios de um escritório de contabilidade. Tendo estudado com o sócio na faculdade, mantém com ele boas relações. Há quatro anos, ele é casado com Luísa, uma mulher que tange a superficialidade das relações e que não demonstra muita sensibilidade por aqueles que a rodeiam. Quando Carlos perde o pai, ela não finge condolências nem se mostra muito sensível ao fato, mas imediatamente anima-se com o anúncio de uma herança, pois ela tinha por objetivo viajar para a Europa e decorar o quarto do filho que tanto esperava. Por mais que tentassem, entretanto, a gravidez nunca acontecia.

    Ao longo de toda a narrativa, vemos a personalidade de Luísa ser construída paulatinamente e de forma bastante coerente, de modo a corresponder aos desenlaces da trama. Ao visitarem a propriedade, ela decepciona-se com o testamento modesto deixado para o marido, pois isto a afastaria do sonho de fazer uma grande viagem. Essa insatisfação é tão grande que ela cogita  contratar um advogado para reaverem parte do apartamento que o pai deixara à ex-companheira.

    De todo modo, vemos como Carlos vai aos poucos se subjugando frente aos sonhos e aos desejos de sua esposa. Ela geralmente não o questiona quanto aos planos em comum, ela os arregimenta por conta própria, ainda que ele tenha sido o único herdeiro. Mesmo os seus momentos íntimos não parecem ser por afeição ao esposo ou à construção da relação, mas unicamente para alcançar o seu objetivo: engravidar. Assim, Luísa parece ser, na trama, uma mulher um tanto egoísta, fútil e cegamente obstinada. Carlos, por sua vez, mostra-se muito pacífico e condescendente com todos que o cercam. Ele não é, contudo, um personagem sem falhas: ele abarca em si as vulnerabilidades e hesitações de um ser humano real. De qualquer modo, sabemos que um impulso não satisfeito, especialmente no que concerne aos desejos, mantém-se adormecido, mas luta por vir à tona, romper os mecanismos de defesa e se satisfazer. A meu ver, esse é o grande embate desse romance: a discussão sobre os instintos e a natureza humana. Por que não dizer: a própria natureza animal.

    No início do romance, ficamos sabendo que a a mãe de Carlos, uma mulher forte e considerada por ele como a sua grande heroína, sofre de Alzheimer e vive numa casa de repouso, o que deixa Carlos um tanto culpado, pois a mãe, durante toda a sua vida, havia se sacrificado por ele. Mas ele tenta ser um bom filho, na medida do possível: diante da doença da mãe, assegura-lhe a estadia no melhor asilo da região, visita-a com frequência e lhe leva as suas flores preferidas. Tenta lhe proporcionar a vida mais digna que é capaz. Algumas vezes, tem de acompanhar o seu discurso em demência. Outras vezes, contudo, tem de mentir, dizendo-lhe que a levaria para casa.

    Por razões que vamos descobrir no desenrolar da trama, o seu pai fora um homem muito distante. Desde criança, quando ele deixou a família para viver com a amante, Carlos e ele não mantinham quaisquer vínculos. Mas, com o tempo, o ressentimento que Carlos sentia pelo pai foi se desvanecendo. Desse modo, vemos que Carlos tenta ser um bom filho e um bom marido, ainda que as intercorrências do destino o coloquem muitas vezes à prova. Quando os vieses desse destino começam a suceder, ele é um homem em desamparo, em busca da sua família perdida, e que ele vira se esfacelar.

    Com a morte do pai, Carlos recebe uma chácara como herança, e é a partir desse fato que a trama começa a se desenvolver, pois, com as idas frequentes à nova propriedade, Carlos conhece Maya, a filha dos caseiros, uma jovem muito bonita, estudante de Letras, por quem ele se sente imediatamente atraído. Quando ele a encontra pela primeira vez, ela lê um romance de Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, que serve de referência e epígrafe ao belo romance de Gorj.

    A jovem parece perceber o seu interesse por ela e não se mostra arredia, pelo contrário. A partir daí, Carlos empreende uma luta com aquilo que ele acha certo e os desígnios do seu desejo. Essa metáfora é ilustrada pelas repetidas aparições de uma jaguatirica nas imediações da chácara. Guiada por seus instintos e por sua fome, o animal busca as aves do local, mas é impedida pelas cercas de arame e pelos ferozes cachorros da residência. De modo análogo, Carlos também é, a princípio, impedido pelas circunstâncias, pela sua postura ética e pelas descobertas que faz.

    O desenlace desse conflito é resolvido de modo surpreendente pelo autor, com uma reviravolta muito inteligente na trama. Além dela, o que mais surpreende na narrativa é o modo como o autor joga com as instâncias do real, criando várias camadas de realidade, como um romance por dentro de outro. Desse modo, há uma tênue linha divisória entre a ficção e a realidade, o que nos faz perguntar o que seria real e o que seria ficcionalizado, convidando-nos a outras leituras. Também surpreende, como dissemos, o modo como a narrativa ganha extrema fluidez, a ponto de não querermos deixar o livro antes da sua completa finalização.

    Escreve o autor: “Os cães do caseiro, na casa ao lado, latiam sem parar. No galinheiro, as aves também pareciam alvoroçadas. Ele apontou a lanterna naquela direção e teve um sobressalto: a luz devolveu dois olhos vermelhos olhando fixos para ele […] Os dois, homem e felino, ficaram se mirando por um tempo […]. Como nas ocasiões anteriores, o facho da lanterna tinha o efeito de inibir seus movimentos, deixando-a sem ação imediata: as patas dianteiras já tocavam o grosso galho que se projetava sobre o muro. Ela virou a cabeça um pouco para trás […] e, saltando sobre o galho, avançou para dentro da árvore engolida pela escuridão.”

    Como se vê, neste romance, a poesia de Wilson Gorj está na escolha cuidadosa de cada um dos elementos que compõem as inúmeras metáforas do texto. E essa percepção se aprofunda à medida que novas releituras são feitas. Essa construção em camadas só é possível em grandes obras literárias, feita por grandes autores.

    Rita Apoena, escritora

  • A loja de lámen, de Lucas Grosso: uma voz poética de alcance universal

    A loja de lámen, de Lucas Grosso: uma voz poética de alcance universal
    por Rita Apoena

    No livro A loja de lámen (Editora Penalux, 2023), o que distingue o poeta Lucas Grosso é a sua capacidade de transparecer, de se individualizar em meio à multidão que se apresenta nas grandes cidades ou no curso da história. Ao ler os seus poemas, nós passamos a conhecer um poeta que, apesar de despretensioso, eu diria mesmo modesto, apresenta uma voz de alcance universal. Por isso, enquanto os lemos, somos lidos por eles, pois a nossa vida também partilha da mesma matéria sutil, fragmentária, que tenta se situar em meio aos novos referenciais do século.

    Ao mesmo tempo em que o eu lírico é esmagado pela “existencial insignificância” com que se depara – especialmente, em meio à pandemia de Covid-19 – ele consegue singularizar a sua voz, criando um todo coeso e vivo. E isso só conseguimos vislumbrar nas edificações de grandes poetas – aqueles que conseguem traduzir não apenas a sua singularidade, mas a de sua época. Em um dos poemas, ele repete a expressão ‘só mais um corpo’ várias vezes, extrapolando o verso, dando ao corpo o destaque e a importância que ele não teve durante a nossa pandemia. O poeta, que também é um corpo, um “corpo que cinde e separa e apara e erra e rima / um corpo que se aparta”. Eu diria até mais: um corpo que se reconheceu existencialmente no mundo e transformou essa existência em Arte. A procura não se dá apenas em torno da palavra exata para compor um verso preciso, mas de um sentido para a própria existência em meio às grandes cidades. O poeta, confinado em sua morada, à beira de se esbarrar no vazio e no transitório, faz ressurgir a poesia dos fatos cotidianos, aparentemente banais, sem saber que a sua voz imprime na história um relato poético que sobrevive, que há de sobreviver ao tempo. E, por isso, ele se angustia. Mas há na sua angústia uma delicadeza lírica e universal, a tradução da nossa própria angústia, em múltiplas vozes ecoada. Em um dos poemas mais sutis, em meio ao isolamento social, ele percorre as ruas observando pequenas delicadezas na fachada das casas e, por serem assim, delicadas, ele tem a certeza de que pertencem à sua destinatária. De modo análogo, após a leitura do seu livro de poemas, podemos reconhecer o poeta em detalhes que nos circundam, como se ele abarcasse para si esses objetos, agora transformados de lirismo. “Aposto como Lucas escreveria sobre isso, aposto como ele encontraria aqui uma casa possível”, eu me peguei pensando ao olhar uma planta que se agarrava ao guidom de uma bicicleta abandonada, numa casa vizinha.

    E, assim, entre produtos industrializados, eletrodomésticos, plantas também confinadas, objetos inquebrantáveis em meio às relações que se quebram e se fragilizam, ou entre versos breviloquentes, o poeta alcança um olhar arguto sobre questões importantes que nos circundam:

    “dois bambus crescendo numa garrafa de suco jiboias em garrafas de cerveja e um mamoeiro em um vaso de barro composição de uma florestinha contra a selva de canteiros de obra que nos cerca” (em terceira meditação, p. 24) Nos poemas de Lucas Grosso, a forma enovela o conteúdo, há coerência entre essas duas instâncias. Assim como ele, são versos livres, mas quebrados, por vezes, deslocados em meio às linhas. Quando um verso é composto por uma única palavra, esta palavra ganha um peso extraordinário, o peso do próprio verso. E imprime-se, nessa palavra, as pausas que ele não encontra no seguir da vida. E, assim, com estrofes construídas em letras minúsculas, sem pontuações, a vida é um correr solto, fugidio, imprevisível. Mas não nos enganemos: é muito difícil compor um todo fluido e musical como este poeta consegue fazer. Uma fluidez que se configura na própria passagem do tempo que, para ele, é sempre presente. Para isso, é preciso escolher, com tenaz paciência, cada palavra que compõe o verso, de modo a privilegiar a plurissignificação. Talvez, por isso, A loja de lámen, fale de algo capaz de enganar a fome imediatamente sem nutrir alguma perspectiva em relação ao futuro. Em outras palavras, o verso é sucinto, comedido, pois a vida também é breve, a vida é o agora que nos perpassa. “onde olho tem caixinhas tudo aqui se resume e se limita em caixinhas” (em caixinhas, p. 72) Ainda assim, mesmo confinado em caixinhas, apartamentos ou potes de vidro, o seu olhar é aquele que se estende, ofertando-nos um prisma inusitado sobre as coisas comuns. E é isso o que se depreende dos seus poemas: um novo olhar. Um olhar que inaugura o banal à categoria do extraordinário. Ao mesmo tempo em que o poeta é esmagado pela insignificância existencial, ele se singulariza. Ao mesmo tempo em que se limita em versos sucintos, ele se expande ao olhar inusitado. Ao mesmo tempo em que ele usa a linguagem corrente, quase sem figuras, sem subterfúgios, sem rebuscamentos, ele consegue nos mostrar imagens quase fílmicas da vida no século XXI. Ao mesmo tempo em que ele luta metaforicamente com a finitude da vida, imprime-se nele a perenidade do tempo histórico, do qual ele só apreende o instante que passa: “feche as janelas feche as portas feche os olhos e mantenha abertos apenas os ouvidos e as narinas e aí Carolina sinta a vida disfarçada de vento disfarçada de goteira Carolina pelo mundo eis a vida a singrar” em Cartas para carolinas, p. 87) O que o livro de poemas de Lucas Grosso proporciona à Arte é a visão de que tudo é frágil, e por isso mesmo, tão raro; que os sentimentos e objetos que nos parecem banais são internamente revestidos de singularidades e poesia. E, ao final da leitura, que poderíamos ser nós mesmos a dizer aquelas coisas, se o tivéssemos reparado, ou seja, se tivéssemos o seu olhar e o seu talento.

    Rita Apoena, escritora

  • Leões na fechadura, de Fabiano da Mata: um romance genial

    Leões na fechadura, de Fabiano da Mata: um romance genial

    Por Rita Apoena

    No romance “Leões na fechadura”, de Fabiano da Mata (Editora Penalux, 2023), temos André, um senhor idoso que vive sozinho em um apartamento na companhia de um gato. Em certo momento, ele se vê muito incomodado com os novos vizinhos barulhentos que se mudam para o andar superior e lhe roubam o sossego. Escreve o autor: “O que são os homens sem o sossego? Quais loucuras não nascem da carência dessa pérola das mais raras?”

    Assim, sem contato com os seus familiares, André encontra, nos passeios matinais a um café, um alumbramento da sua existência, principalmente, quando encontra alguns velhos amigos (com quem mantém certa implicância) ou é atendido por Ana, uma moça muito bonita e amável, que resgata nele alguns sentimentos da mocidade. Além dela, ele também cultiva laços de amizade com Cidinha, uma mulher que trabalha em um restaurante e lhe fornece o almoço diário. Assim, a sua solidão se mostra latente quando ele encontra, nessas duas mulheres, a figura materna que lhe provê o alimento, a atenção e o cuidado que ele tanto precisa, embora não o admita nem a si mesmo.

    Quando Ana vai até o seu apartamento, ela repara que não há nenhuma foto dos seus familiares, algo que nem ele mesmo havia percebido. Desse modo, André está sozinho ao lidar com as vulnerabilidades provocadas pela velhice e se ampara intensamente em figuras femininas afáveis, mas estranhas. Essa vulnerabilidade é construída com muita densidade psicológica, pois o autor é capaz de edificar um personagem muito verossímil, um personagem que vive, que está vivo além das suas páginas, e que nos faz perguntar quando vamos encontrá-lo na rua, ao virarmos a esquina. Ainda hoje, muitos dias após ter finalizado o romance, ainda me pergunto por onde andaria ou como estaria o personagem.

    O crítico literário Harold Bloom, em seu livro “Como e por que ler”1, escreve que nós lemos não apenas porque jamais conheceremos na vida real tantas pessoas como através da leitura, mas também porque “amizades são frágeis, propensas a diminuir em número, a desaparecer, a sucumbir em decorrência da distância, do tempo, das divergências, dos desafetos da vida familiar e amorosa”. E, assim, ao fechar o romance, em estado estupefato, constatei que não havia fechaduras para o protagonista: ele adentrava os meus pensamentos assim como os vizinhos adentravam os seus. E isso porque a construção psicológica dos personagens acontece paulatinamente, de modo muito perspicaz, em detalhes que vão sendo espalhados ao longo de toda a narrativa, em diálogos e descrições de cenas. 

    Assim como os novos vizinhos adentram a sua vida, os seus pensamentos e os seus ouvidos, André adentra a nossa, em virtude do manejo inteligente das cenas. Em uma delas, quando vemos o personagem mais fragilizado em decorrência dos seus próprios impulsos, nós conseguimos estar literalmente em sua pele – envelhecida, ou sentir o seu intenso abandono. E, tal como ele, queremos oferecer proteção aos indivíduos mais vulneráveis: eis a empatia que ele nos desperta. Nós o transformamos num velho amigo, meio ranzinza, cheio de manias, teimosias e implicâncias, mas um velho amigo, alguém capaz de subverter a realidade. Pensa o protagonista: “Mas quem ouve os velhos? Dizem que em seus ouvidos só cabe cerume, que já são surdos de tantos murros mil desferidos pela vida. Mas não, os meus continuam afiados e afinados. Além do mais, ainda não estou nas últimas. Hei de suportar muita coisa.”

    Numa primeira leitura – pois há muitas leituras possíveis nesse romance labiríntico -, vemos o personagem muito incomodado com os novos vizinhos que se mudam para o andar superior e se portam de forma muito violenta uns com os outros. A paz e o sossego que André tanto prezava são subtraídos do seu cotidiano, e ele passa a experienciar uma dinâmica familiar muito diferente da sua. E, assim, de forma romanesca, também passa a elucubrar sobre a vida dos novos moradores, preenchendo, com características várias, as lacunas entre os sons que ele escuta daquela família. Maria, a mãe, subjugada por Armando, o pai, e Átila, o filho adolescente do casal. Escreve o autor: “Mas Maria, terrivelmente resignada, encarregava-se de quase tudo com seus braços de polvo. (…) A alma do apartamento já pertence a Maria. Os homens apenas habitarão. Maria, pelo contrário, transpirará com a casa, tocará as chagas do lugar. É sempre assim.”

    Nesse momento, temos a coexistência magistral de dois focos narrativos, que se mesclam de forma líquida, como se os personagens atravessassem realmente o teto do apartamento e se introjetassem em sua mente. Dessa forma, os barulhos dos novos moradores roubam-lhe a paz de espírito e direcionam o seu pensamento. A utilização de onomatopeias demonstra, na própria linguagem, a grande importância que os sons e os ruídos adquirem na vida do protagonista.

    Este, que vivia sozinho, ocupando-se de pequenas implicâncias com os amigos que lhe tiravam o sossego, vê-se sequestrado para dentro de outras vidas que lhe atormentam. Quando ele vivencia um crime sendo cometido, passa a se envolver de modo devastador no episódio, comprometendo a sua privacidade e a sua liberdade. E não podemos esquecer que o personagem deseja algo: continuar com o seu sossego e obter a atenção das figuras femininas presentes na história. Mas, mesmo quando ele busca essas figuras, elas também o colocam em conflito com o seu desejo.

    Há muito a se falar sobre o crime presente na trama e sobre o envolvimento de André no episódio, mas precisei de muito cuidado ao elaborar essa resenha para não estragar a surpresa do leitor, pois Fabiano da Mata encontrou um desfecho genial para entrelaçar toda a narrativa. Eu gostaria que o leitor, assim como eu, entrasse desavisado nessa história, e fosse também arrebatado por ela. Eis um romance que merece ser lido e relido muitas vezes. Um romance que aborda a vulnerabilidade do ser humano quando alcança a velhice, e os desdobramentos mentais que podem ocorrer quando os laços afetivos são fragilizados. Enfim, um romance genial.

    Rita Apoena, escritora

    Referência: 1.BLOOM, Harold. Como e por que ler, trad. José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 15

     

  • Uma comédia romântica com sensualidade

    Uma comédia romântica com sensualidade

    Romance que se passa em Santa Catarina mescla história de amor com bom humor

    Dona de uma mente perigosa e cheia de opiniões controversas. Exibida e temperamental. Ansiosa, safada, vingativa, iconoclasta. Mentirosa, provocante, apaixonada. Presa numa saia justa… Afinal, quem é essa pessoa?

    Roberta Witzack, personagem do livro “Quem falou?”, do escritor André Cunha, que acaba de sair pela editora Penalux.

    “Roberta é uma jornalista catarinense e está desempregada”, diz à nossa redação o autor do romance. “Uma figura de personalidade forte e humor afiado”, completa.

    Lançando mão do sotaque e das referências culturais de Santa Catarina, André nos apresenta uma deliciosa história de amor não convencional entre uma mulher exposta na internet e o sósia de um ator famoso.

    Segundo Francyne França, doutora em literatura pela UFRJ, o livro conduz o leitor por “curvas vertiginosas”.

    O enredo inclui uma relação fracassada com um magnata dos testes virais, uma temporada no colossal Yachthouse Residence Club em Balneário Camboriú e críticas contundentes a respeito de uma canção consagrada do sambista Cartola, entre outros desvios, atalhos e caminhos arriscados.

    Abaixo, a sinopse do romance:

    Comprometida com um e grávida de outro, a destemida e temperamental Rebeca Witzack lida com o problema enquanto relembra o passado: a balada em Jurerê internacional que deflagrou sua sede de vingança, o dia em que teve cenas íntimas vazadas na internet, a experiência heterodoxa como colunista de um portal de notícias, o pesadelo pandêmico vivido em meio ao luxo à loucura. Passando pela periferia de Florianópolis, por um arranha-céu repleto de celebridades em Balneário Camboriú e por outros cenários de Santa Catarina, Quem Falou? é uma comédia romântica inteligente que fala sobre testes virais, endometriose, lontras, futevôlei, ansiolíticos, Chico Buarque, sósias, mentiras sinceras, meias verdades e… otras cositas más.”

    TRECHO

    Cheirando meu cangote, quase me machucando com a barba mal feita, me deu uns tapinhas na bunda falando “tu gosta, né safada?”, ao que respondi com sincero deleite “ai ai, delícia.”

    O AUTOR

    Autor de vários livros, entre eles Brasília, GRAVIDADE ZERO, finalista do prêmio Sesc de literatura de 2015, pela Selo Jovem, a ficção especulativa O FUTURISTA – Reportagens Que Vão mudar o Mundo, pela Trevo, e a novela satírica COLISÃO FRONTAL, pelo Grupo Editorial Caravana, o autor se arrisca na comédia romântica sem deixar de lado as provocações que marcaram as obras anteriores. Uma história envolvente e hilária.

    SERVIÇO

    “Quem falou?”, romance; p. 160; R$ 45 (Penalux, 2023) – André Cunha.
    Link para compra:
    https://www.editorapenalux.com.br/loja/quem-falou
    [+] info.: andreluizrenato@yahoo.com.br e penaluxeditora@gmail.com

  • MÉDICO WILSON DAHER LANÇA LIVRO DE CONTOS

    MÉDICO WILSON DAHER LANÇA LIVRO DE CONTOS

    O psiquiatra e escritor Wilson Daher, de Rio Preto, lança o livro “Espectros” no dia 11 de novembro, das 9h às 12h, no Clube dos Médicos de Rio Preto. A obra, premiada no Prêmio Nelson Seixas 2023, categoria Literatura, foi editada pela Penalux e apresenta ao leitor 11 contos produzidos pelo autor ao longo de um ano.

    “Quis fazer algo que me provocasse alguma catarse das ideias reprimidas, instaladas há tempo, esperando o momento de virem à luz. E elas vieram de uma forma que me surpreendeu, já que o embrião das mesmas foi a ideia de que deveria criar algo diferente do que sempre criei, um desafio que me provocou”, afirma Wilson Daher.

    A obra tem apresentação de Anita Cecília Lofrano, psicóloga fenomenologista e professora do Departamento de Psicologia da UNIP de Rio Preto. “Recomendo ao leitor que faça uma leitura com sabor, deixando-se levar pela atmosfera de ‘Espectros’, em uma viagem profunda e sensível em direção à esperança e possibilidades humanas”, escreveu.

                Durante o lançamento, serão distribuídos gratuitamente 60 livros para o público.

    Gênero: conto | Editora: Penalux | Páginas: 84 | Valor: R$ 42

    ONDE ENCONTRAR

    www.editorapenalux.com.br/loja

    BIOGRAFIA DO AUTOR

    Wilson Daher nasceu em Macaubal (SP). Filho de imigrantes libaneses, é médico, psiquiatra, aposentado. Tem 84 anos. Escritor sazonal, com cinco obras publicadas às suas próprias expensas, é também cronista com publicações eventuais no jornal Diário da Região, de São José do Rio Preto (SP). Possui mestrado e doutorado em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp). Membro acadêmico da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Ocupa a cadeira número 9.

    Lançamento do livro Espectros, de Wilson Daher

    Data: 11 de novembro
    Horário: 9h às 12h
    Local: Clube dos Médicos de Rio Preto
    Alameda Dr. Oscar de Barros Serra Doria, 5661, Vila São Manoel
    Entrada: franca
    * Cada participante terá direito a receber gratuitamente um exemplar

    Contato do autor:
    facebook.com/wilson.daher.98
    17 99737-9171

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