O nascimento da escrita tem início quando a pulsão sexual se ativa no corpo de alguém. Não se trata de roteiro de quem escreve isto ou aquilo, mas de inconformidade diante do mais íntimo sentimento. A escrita é um labor de si, um trabalho manual com suas partes mais inacessíveis e pudendas. Quando nos aproximamos do diário escrito, a linguagem faz toca e caverna do seu conteúdo mimético, e assim nos igualamos ao espelho que forma e deforma a imagem, o self. No livro da escritora Rafaela Dilly Kich chamado sutilmente de “Sinto muito pelos quero-queros”, a autora nos segreda a vida de Lélia, moça em formação, cuja sexualidade paira fluída entre o seu mesmo gênero feminino. Dúvidas, inquietas indagações, percorrem o vazio da personagem, em busca talvez da escrita ou da poesia, mas, sobretudo, da aceitação ante a seu desejo mais verdadeiro. Rafaela escreve quase analiticamente, como uma sessão terapêutica entre a sedução do seu texto, primorosamente elaborado, e o pano de fundo de um possível futuro político em que o país é tomado pela horrível extrema-direita. Nesta dicotomia entre o prazer do texto e uma janela para um porvir desastroso, o leitor encontra uma excelente autora. Ela nos concedeu a entrevista abaixo. Boa leitura!
Fernando Andrade
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Fernando Andrade: Talvez o único lugar onde desejo pode escorrer pelo corpo e se propagar até suas extremidades deve ser a escrita. Não há pulsão mais ativa que a mediação da linguagem pela escrita. Estou certo?
Rafaela Dilly Kich: Ser humano pressupõe, penso, lidar com inúmeras pulsões diárias. Bioquímicas, conscientes, inconscientes. Elas podem escorrer pela palavra falada, pelo gesto, pelo ato sexual. Também pela escrita. Há algo de erótico no ato de escrever, talvez por exprimir pulsões internas muito íntimas por meio de signos, letras. Até o próprio encontro do lápis ou caneta com o papel. É uma explosão, de certa forma, mas pode também ser muito sutil. Violenta e acolhedora. Me interessa muito, para além de escrever, refletir sobre a escrita. Annie Ernaux, Marguerite Duras, Virginia Woolf são precursoras que me inspiraram nesse sentido. Não sei formular por completo a questão ainda. Mas há algo de erótico na escrita. Ela encontra, revela, desestabiliza as placas tectônicas do nosso mundo. Apesar de ser uma tentativa do impossível.

[F.A.]: Sublinhar — chamar a responsabilidade para uma coisa, um objeto. Sublimar — perenizar um tempo, um momento fugaz, transformar uma coisa em outra, um ser em outro. Quem sabe, fantasia, imaginação. Seu livro não sublinha, acho, ele sublima afecções, momentos, a vida.
[R.D.K]: Muito interessante ver sua percepção. Esse é um ponto, sim: a escrita é uma sublimação. Há uma condição de desamparo estrutural no ser humano. Imagine, então, a fragilidade das relações entre nós. Como lidamos com isso? Se não me engano, Freud disse que a pessoa artista é aquela que sublima. Ou seja, transforma a experiência caótica do ser humano em outra coisa. Talvez um pouco menos violenta.
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[F.A.]: Eros e Thanatos, pulsão de vida e pulsão de morte. Lelia se vê envolvida nestas duas cirandas de paradoxo.
[R.D.K]: Então, são as cirandas da Lélia e de todas, todos, todes nós…viver é uma dança, na minha percepção, entre esses polos. Há também uma imensidão de fatores que podem atuar sobre eles com maior intensidade… questões estruturais, políticas, econômicas, culturais. Aí retorno para a escrita. Mas também a outras manifestações artísticas. Acho que elas — uma música, um livro — nos ajudam a lidar melhor com as pulsões autodestrutivas, a encontrar a subjetividade do outro. Nos conecta. Não é tudo, mas é alguma coisa. Pode nos salvar de alguns afogamentos.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

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