“Gestos do nada”, livro que enaltece o processo criativo da palavra em signos poéticos

Certa vez, um poeta me perguntou o que eu fazia naquele momento. Eu fiz uma ação: nada.  Estava escrevendo sobre o ato de criar (a palavra branca me parece uma página virgem). Estava pronto a nadificar meu discurso criativo.  Ao ler o novo livro de Geovane Martins, Gestos do nada (Litteralux,2026) —  uma delícia de paradoxo poético —  veio-me a pergunta do poeta que estamos no marco zero de toda composição. Expondo de dentro para fora, Geovane faz da dor criativa uma questão espiritual com a catarse deste transe em que a palavra se torna sublimação estética do pensamento. Eis aqui um livro de pequenos gestos onde o corpo renasce para o voo da liberdade.

Fernando Andrade

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Abaixo, segue a entrevista com o autor.

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Fernando Andrade: O gesto deve começar no corpo: temos a ideia do movimento. Já o nada alimenta a criação, fomenta a palavra: temos aqui a ideia de poesia, movimento da palavra. Não há melhor título para seu livro de poemas. Explique essa escolha.

Geovane Fernandes Monteiro: Constitui um espaço inalcançável, necessário e relativamente compensatório. Didaticamente eu diria: Gestos = ação; nada = o que existe por não haver. Ou melhor, o que precisa de alcances, para novos nadas surgirem, a fim de não sufocar, não terminar em si mesmo. Cabe aqui um exemplo mais panorâmico: um grande terreno vazio é todo um nada. Quando se constrói casas, ruas, praças, … todos esses ‘corpos’, para abrigarem movimentos, passam a ocupar o terreno antes vazio, e agora novos vazios intransponíveis para que o bairro exista (o nada onipresente, generoso, acolhedor em sua natureza fecunda). De fato, o nada alimenta a criação, fomenta a palavra na sua natureza inatingivelmente trafegável. A lógica de um espaço ser ocupado é ser-lhe destinados novos distanciamentos, novas atmosferas. Assim o nada com seus gestos para a moral de “geografias demarcadas”; destarte, os Gestos do nada. Vale repetir, o título reflete o que inaugura o insuperável. Num sentido mais prático, Gestos do nada pode sugerir que a vida faz sentido durante a busca de sentidos. Do contrário, se a lógica (que mostra eu nunca desconsiderar o racional) fosse inteiramente atingida (O Nada), a vida padeceria à própria palavra final (Os gestos).

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[FA]: Linguagem faz acesso ao incomunicável, como diria Beckett. O espaço do nada onde talvez a solidão se faça ausente. Aí verbo se cria. Do nada fez-se o universo humano. No que este meu comentário dialoga com seu livro? 

[GFM]: Seus felizes comentários mais norteiam do que indagam. O acesso ao incomunicável talvez seja meu projeto literário neste livro. Mas não se trata de absurdo, a não ser o de um Beckett, de um Kafka ou de um José J. Veiga, por exemplo, no sentido de alcances no que não se diz, no sobrenatural que não passa da rotina a despertar devaneios reveladores do cotidiano real, literal e literalmente despercebido ou negligenciado pelos interesses imediatos na vida. Por essa razão, minha linguagem oscila entre o formal e o quase popular ou natural, entre a narrativa falsamente explicativa e versos com metáforas desafiadoras.

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[FA]: Não achei seu livro atrelado a alguma filosofia. Ele é pura abstração da criação; tangencia mais arte do que qualquer método racional, filosófico.

[GFM]: Minhas leituras nunca foram sistematizadas. Não me apraz uma referência bibliográfica. Todavia, confesso que há aqueles autores a quem me apego e então suas obras me são se cabeceira. Mas fico também rodeado de leituras avulsas. Por isso, não sigo uma determinada filosofia, corrente, comportamentos literários decisivos. E citar aqui autores me retrai, porque poderia eu cair em pedantismo: eu leio, no meu ritmo, quase todos os dias; sou editor de um site (o Amaité Poesia & Cia) auxilio na publicação de autores contemporâneos vivos. Daí vem as leituras espalhadas, diversas que me trazem influências e inspirações inconscientes, difíceis de eu definir.

No fundo, a filosofia me inspira mais que a própria literatura. Por isso, os autores a que me apego, os que leio de ponta a ponta, são, quase sempre, os da poesia e da prosa de ficção que trazem a filosofia, o existencialismo, o intimismo em suas obras. Não tenho nenhuma erudição como leitor. E há muito tempo julguei ser uma grave limitação minha. Mas são hiperfocos. Nesse contexto, não me atrelo a uma filosofia, a uma pensamento para construir uma biografia. Da mesma forma, sempre espero que meu livro desperte impressões sem que ele ouse controlar o leitor. Sempre aguardo estar possibilitando, para possíveis leitores, conhecimentos mais profundos e sensoriais a partir de minha escrita. Minhas poucas bíblias e muitas deliberações, no lugar de investir em um método científico, não me fazem um autor “seguidor de”, porém, inclinado a apenas sugerir, e a nunca explicar, para parafrasear Benjamin Disraeli.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

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