Um livro em três: nova obra de Cleber Pacheco compila três ficções que revivam a importância do sagrado e da linguagem poética

Em seus ótimos livros, a escrita de Cleber Pacheco vem carregada de alta simbologia religiosa. A cada obra ele aprimora o estilo e, sobretudo, a versão do que eu chamo de liturgia da santidade. Em “Trilogia da Transfiguração”, seu novo livro publicado pela Litteralux,  a parábola vem travestida de transgressão do conservadorismo do ato da sacristia católica.  Pecado e culpa,  crime e castigo,  são dualidades que transformam  a pureza do ato humano em loucura,  medo e  revolta.  Cleber nos absorve com sua linguagem abrasiva, em alta voltagem poética, desestruturando suas personagens em arquétipos míticos.  O teatro parece ser uma voz possível, onde cenário, ação e diálogo se entrosam e se relacionam mediunicamente.

O autor nos concedeu uma rápida entrevista. Leiam abaixo.

Fernando Andrade

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Fernando Andrade:  Sua linguagem é cada vez mais sugestiva e alusiva.  Até penso que você já tem repertório de estilo que marcam suas histórias. Como você chegou a esta Trilogia?

Cleber Pacheco: Eu tinha esboços de duas histórias quando me veio a ideia de uma terceira. Foi só aí que tive a percepção de que elas possuíam diversos elementos em comum.  A partir disso nasceu a ideia de uma trilogia que abordasse questões como a perda da noção do sagrado, principalmente a partir da modernidade. Vivemos num mundo incapaz de reconhecer o sublime, do inefável, do imponderável. Esse afastamento do âmbito do sagrado já pode ser sentido em “Elegias de Duíno”, de Rilke. E, por diversas razões, a  vida, no âmbito contemporâneo, é vista como um absurdo sem sentido, fruto do acaso. Se lermos os filósofos existencialistas ou um autor tão significativo quando Samuel Beckett, encontraremos esse sentimento de absurdo, de vazio preenchido com formas que, por sua vez, também são vazias. Senti, então, a necessidade de resgatar o místico e fazer uma outra abordagem do trágico, algo que está presente, de outro modo, no meu livro “O Terceiro Dia”.  A tragédia é o triunfo da forma e faz uma profunda reflexão da condição humana com um estilo elevado. A Literatura é a arte da palavra e tento trazer isso à tona. Atualmente,  muitos livros desenvolvem cada vez mais, uma linguagem fácil e denotativa, sem exigir muito esforço por parte do leitor. O empobrecimento da linguagem é um fato contemporâneo, algo perigoso, que embota o pensamento e a reflexão. Daí a necessidade de usarmos todos os recursos que a linguagem nos oferece para causar estranhamento, como diriam os teóricos russos.

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[F.A.]:  Você trata de forma quase muito simbólica o religioso em sua literatura. A santidade é um campo metafórico recorrente em seus endereços. Comente a respeito.

[C.P.]: Como tratei anteriormente, vivemos uma era caótica, em que nada mais é sagrado. Tudo se transforma em paródia. É a era do simulacro. Não mais importa a essência: o que conta é apenas a aparência. A santidade abordada em minhas histórias revelam praticamente existências de outsiders, seres que não se encaixam nos padrões vigentes, pessoas que vivem à margem, mas que, por isso mesmo, tornam-se provocadoras de reações ambíguas, entre a adoração e a rejeição, o fascínio pela Beleza e o ódio que ela desperta. Pessoas tocadas pela Presença do Inefável podem ser perturbadoras e infringem as “normas” do imediatismo, do exibicionismo e da busca desenfreada pela satisfação instantânea dos instintos e das sensações, pois acabam gerando mais insatisfação. Manter o homem insatisfeito é a regra adotada pelas manipulações e pelo consumismo. As sensações são necessárias, mas, ao mesmo tempo, são a parte mais pobre das nossas experiências. É fundamental irmos além disso. É preciso que  sejamos capazes de refletir e que alcancemos o conhecimento e, além dele, a sabedoria.

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[F.A.]: Crime e castigo… Inevitável não pensar em Dostoievski. Ou em outros escritores russos a quem são caros os temas religiosos. Embora você parta bem para o litúrgico, seus livros são quase uma missa literária.

[C.P.]: Sim, há uma aspecto ritual e litúrgico nas histórias da “Trilogia da Transfiguração”. Os ritos são necessários e, no entanto, cada vez mais raros. A perda de sentido de tudo o que nos cerca gera violência, agressividade, hostilidade e desconfiança. No mundo Antigo, os ritos preparavam as comunidades para novas etapas da vida, eram plenos de significado e força. Com o tempo foram desaparecendo ou se tornaram apenas repetições destituídas de real valor. Mais uma vez resgato antigos modelos, não por saudosismo ou nostalgia ingênua, mas para tornar mais palpável o aspecto do Mistério que é nossa existência . Reverenciar o Mistério e respeitá-lo é um modo de reconhecer quem somos e dar importância àquilo que realmente importa: nossa essência. Os céticos diriam que essa essência não existe. Discordo. O ser humano existe para desenvolver suas potencialidades e usá-las em benefício em benefício do Todo. O egoísmo, tão em voga hoje em dia, tornou o mundo doente. A “Trilogia” busca dar maior visibilidade ao invisível. O seu aspecto litúrgico foi a forma escolhida para torná-lo mais evidente.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

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