“Não volte para casa”, um suspense atroz sobre o desamparo psíquico de uma família classe-média

A mente inquieta pode projetar ruminações psíquicas. O lugar onde moramos também é nosso chão mental, nossa deambulação paranoica. Nossa moral depende de nossas funções cerebrais. Somos reagentes do meio que coabitamos. Não só: também reagimos a nossos medos, receios e angústias.  No romance “Não volte para casa” (Litteralux, 2026), Daniel Adjafre constrói habilmente a desumanização de uma família em desintegração psíquica. Com uma narrativa estruturalmente formata no aspecto visual, o autor mostra como uma casa pode servir de fonte e escape para neuroses e recalques, um habitat para o que vêm do inconsciente. O leitor é pego pelo gatilho da linguagem fluída e de uma narrativa veloz que lambe as  feridas das nossas mazelas sociais. Afinal, quem nunca se (des)funcionou num estrato social, ou num ambiente familiar?

O autor nos concedeu algumas respostas. Acompanhe abaixo nossa breve entrevista.

Fernando Andrade

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Fernando Andrade: Seu romance carrega fortes doses de suspense psicológico, trazendo personagens que saem do prumo para uma desestabilização emocional, o que afeta tanto os moradores da casa quanto Lorena, personagem assolada pelo luto do filho.

Daniel Adjafre: Existe, na neurociência, um caso bastante famoso de um homem que, décadas atrás, após um grave acidente, teve seu córtex pré-frontal afetado e, a partir daí, apresentou profundas alterações de personalidade e de controle do comportamento social. Esse foi meu ponto de partida: e se, de repente, nós fizéssemos aquilo que gostaríamos de fazer sem qualquer tipo de impedimento moral ou autocrítica? A realização plena de nossos desejos seria uma libertação ou uma maldição? Ainda seríamos pessoas decentes? Ou seja, o terror nasce do desconhecimento dos personagens a respeito de si mesmos e do que seriam capazes de fazer quando não existem mais esses tais freios morais.

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[F.A.]:  Esse livro é muito visual. A ação cai num torvelinho de imagens sensoriais onde o leitor se acorrenta à leitura de forma bem prazenteira. O que o levou a essa concepção?

[D.A.]: Trabalhei como roteirista por mais de 20 anos — minha principal atividade profissional —, então sempre enxerguei os acontecimentos ficcionais como cenas. Isso acaba se refletindo na minha escrita. A diferença entre essas duas linguagens, porém, é grande. O romance permite um acesso mais direto à interioridade dos personagens, e uma narrativa mais flexível, sem a mesma urgência de ocorrências da dramaturgia audiovisual. Além disso, o gênero suspense/terror é extremamente propício à composição de imagens — uma simples porta, um corredor, uma mancha no chão, já são capazes de sugerir que há algo de errado antes que o pior aconteça.

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[F.A.]: Sentimentos de ambivalência e ambíguos percorrem todos os personagens da casa. Como foi a construção destes personagens?

[D.A.]: Essa ambiguidade é justamente a força motriz do romance. No íntimo, desejamos coisas que não gostaríamos de desejar, e nos envergonhamos disso. Ao nos percebermos pessoas “más”, tentamos nos corrigir para não seguir pensando dessa maneira. Os personagens do livro, afetados por uma maldição, não conseguem fazer essa avaliação, e assim mergulham no que há de pior neles mesmos. Essa é uma forma interessante de terror, pois é possível fazer analogias com a sociedade atual e seus desejos desenfreados por satisfação a qualquer custo e relativização das consequências de seus atos. Portanto, para a construção dos personagens, precisei refletir sobre meus próprios desejos inconfessáveis e, a partir daí, entender o que deveria se passar na cabeça dos membros daquela família. Durante toda a escrita, busquei uma espécie de verdade que só poderia ser alcançada através da ficção.

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Fernando Andrade, crítico literário.
Autor, entre outros, do livro Obras são morfemas.

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